Home TVTemporadas Crítica | Código Negro (Black Code) – A Série Completa

Crítica | Código Negro (Black Code) – A Série Completa

Um agitado drama médico protagonizada pela sempre ótima Marcia Gay Harden.

por Leonardo Campos
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Na ocasião de lançamento da série Code Black em 2015, os dramas médicos não paravam de surgir, cada um voltado aos seus esquemas peculiares e interessados em ganhar aderência em seus nichos para garantir longevidade. Desde as tramas com toques sobrenaturais aos conflitos íntimos de profissionais com as carreiras ameaçadas por problemas de saúde que estão acostumados a tratar no outro, mas não carregar para si próprio, as séries deste segmento demonstram que ainda funcionam, mesmo que apenas para uma temporada. Não foi o caso do drama em questão, frenético e sem muito espaço para perder tempo com romances bobos, afinal, a produção de três temporadas tratou do atendimento de emergência num hospital de Los Angeles, um espaço para ação ininterrupta e foco na salvação de vidas que já chegam ao local esfaceladas por acidentes de trânsito, explosões, violência urbana, etc.

Criada por Michael Seitzman, juntamente com Kristen Kim e Ryan McGarry, o episódio piloto estabelece logo o clima de estresse. Tudo precisa ser rápido, não há espaço para erro. Errou, tudo bem, parte-se para a próxima e aprende-se com a situação. Pode haver punição, mas o foco também é a aprendizagem dos residentes, supervisionados pelos mais experientes. Na chegada, os novatos da primeira temporada são apresentados aos códigos S1 (absurdo), S2 (pneumonia e afins), S3 (gripe), isto é, uma escala gradativa de preocupação que deve ser levada em conta por causa da quantidade de leitos. Ainda neste episódio, passeamos pelas alas, junto aos residentes, com a câmera eficiente ao nos guiar dando destaque para todos os lados possíveis, numa apresentação territorial que nos permitirá entender algumas dinâmicas do Angels Memorial, o hospital por onde circulam as tensões nos 47 episódios da série.

Como aponta um dos mais experientes, ali, “é melhor pedir perdão que permissão”. Em suma, o tempo é um dos elementos mais valiosos para a conduta dos médicos que sairão dali preparados para desafios igualmente grandiosos em suas carreiras. Os conflitos, como se é de imaginar, não gravitam apenas em torno das extremidades de determinadas situações com pacientes, mas também da recepção de seus amigos, familiares e companheiros, mergulhados no luto e no susto que advém dos casos mais variados. A alma de tudo, convenhamos, é a Dra. Leanne Rarish (Marcia Gay Harden), chamada de “papai”, brincadeira interna com o enfermeiro Jesse Sallander (Luiz Guzmán), a dupla dinâmica inspiradora, firme quando tem que ser, compreensiva e consciente das necessidades da emergência. Ela tem um histórico brilhantemente trabalhado pelo roteiro, haja vista seu passado recente de luto ao sobreviver de um acidente que ceifou a vida dos filhos e do marido. O talento da atriz, somado ao carisma na construção do personagem, permitem que haja aderência do público, envolvimento que a faz ser o centro nervoso da série.

Jesse, descuidado no que tange ao seu próprio estado de saúde, vive exclusivamente para as demandas da emergência, insistindo em voltar ao trabalho mesmo depois de enfrentar um problema cardíaco. O Dr. Ethan Willis (Rob Lowe) surge mais adiante, numa temporada posterior ao primeiro ano e cumpre um bom trabalho. Oriundo do atendimento para militares, ele bem sabe como funciona uma zona de guerra, alegoricamente apresentada pelos casos que chegam ao hospital. O Dr. Rollie Guthrie (William Allen Young) é um cirurgião com muita experiência, mas que enfrenta uma crise gigantesca quando descobre uma doença que pode aposentá-lo. Na seara da arrogância, temos o Dr. Will Campbell (Boris Kadjoe), responsável por gerir o hospital num determinado ponto e achar que pode driblar algumas coisas que a “Mamãe” e o “Papai” conhecem muito mais na prática que na teoria sistêmica que no fundo não da conta de compreender necessidades reais em atendimentos tão emergenciais.

Na ala dos residentes que evoluem do primeiro ao terceiro ano, temos Dr. Angus Lughton (Harry Ford), tímido e mais recatado, médico que brilhará mais adiante, no entanto, inseguro em seus primeiros procedimentos, diferente de seu colega Dr. Mario Savetti (Benjamin Hollingsworth), destemido para procedimentos e um sucesso entre as mulheres, mas também fragilizado por várias situações que acontecerão ao longo das temporadas. Ele é o representante do problema de paternidade, tópico temático presente em todas os dramas médicos que vocês leitores possam imaginar. Detesto expressões categóricas demais, mas não há um destes programas que não traga esta questão como ponto de partida para o desenvolvimento de alguma subtrama. Outro ponto menos comum, mas relativamente frequente, é a dupla de irmãos, onde um parece ser mais esperto e interessante enquanto o outro se torna o eclipsado. Este é o caso do Dr. Lughton.

Para funcionar bem, Code Black precisou de uma equipe técnica estruturada para a construção de uma estética voltada aos conflitos e dramas expostos pelo texto da produção, mantidos num padrão ao longo de suas três temporadas. Sem as paletas azuladas comuns aos programas desta linha, o verde aqui ganhou uma versão próxima ao musgo, escurecido, sombrio, com iluminação também opaca, numa demonstração de recursos tão limitados quanto o tempo dos médicos e residentes para prestar atendimentos tão urgentes. Na direção de fotografia, Spencer Combs investe em bastante contraste entre luz e sombra, estilo de iluminação que banha os espaços concebidos pelo design de produção de L. J. Houdyshell, responsável por gerenciar o detalhista Tim Colohan na estruturação da cenografia. A maquiagem faz-se importante na série, bem como alguns efeitos visuais, supervisionados pela equipe de John Allardice.

Ademais, ainda na seara estética, a condução musical cumpre seu papel de construção atmosférica dos momentos de dor, alegria, exaltação, tristeza, luto, etc. Nada melodramático, geralmente muito equilibrado e contido. Os figurinos de Einleen Cox Baker trajam os personagens em pouquíssimas situações externas, por isso, na maioria as vezes, os encontramos com suas habituais fardas que sofrem pelos respingos de sangue, suor, etc. Para a jornada de 47 episódios, Code Black contou com 33 diretores e uma ampla sala de roteiristas, com histórias de pacientes em situações de acidentes de carro, bicicleta, um ataque de tubarão, tiroteio que inclusive ceifa a vida de uma residente, suicídio assistido, menores abandonados, doação de órgãos, dúvida entre desligar as máquinas ou deixar uma pessoa em coma, pacientes racistas que não querem ser atendidos por médicos negros, sequestro, queda de um avião descontrolado, dentre outros conflitos desta série que fechou bem os arcos totais em sua temporada final.

Código Negro (Code Black, Estados Unidos/2015-2018)
Criação: Michael Seitzman
Direção: Vários
Roteiro: Vários
Elenco: Marcia Gay Harden, Harry Ford, Benjamin Hollingsworth, Luis Guzmán, William Allen Young, AngelaRelucio, Melanie Chandra, Boris Kodjoe
Duração: 42 min. (Cada episódio – 47 episódios no total)

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