Crítica | Colega de Quarto

Mulheres obcecadas no cinema já não é uma premissa narrativa que nos faz esperar muito. Depois dos eficientes Perversa Paixão, Atração Fatal e Instinto Selvagem, poucas produções dentro do assunto conseguiram surpreender público e crítica. Interessante, no entanto, como o tema sempre volta, a maioria em produções feitas para a televisão. Colega de Quarto segue a linha juvenil do irregular Fixação, trama no ambiente estudantil com uma garota desequilibrada emocionalmente, fixada em alguém e disposta a destruir vidas para alcançar os seus objetivos.

Rodado na Universidade do Sul da Califórnia, sob a direção de Christian E. Christiansen, tendo como guia o roteiro de Sonny Malhhi, acompanhamos a trajetória de Sara (Minka Kelly), uma estudante que ao chegar na universidade, descobre que precisará dividir o seu quarto com uma garota que jamais viu na vida. O que poderia ser infortúnio, na verdade, inicialmente se revela como algo maravilhoso, já que Rebecca (Leighton Meester) é um “doce”: prestativa, atenciosa, gentil, forte companheira.

Maravilha, não é mesmo, caro leitor? Elas ficam muito próximas e firmam uma invejável parceria, no entanto, as configurações de amizade não conseguem se atualizar. Sara engata um namoro com o atraente e desejável Stephen (Cam Gigandet), além de dividir o tempo de amizade com Tracy (Alyson Michalka) e Kim (Katerina Graham). Rebeca, incomodada pela perda de espaço diante de sua amiga que lhe compartilhou tantos segredos, inicia um jogo de obsessão e paranoia que vai culminar num rastro de sangue bastante sinuoso.

Basta um “par de brincos” em cena (ou fora dela) para a ação ganhar movimento. Quanto mais a narrativa avança, mais a obsessão da garota se estabelece, tornando a vida de Sara e dos que gravitam em torno de sua existência um literal inferno na terra. O paralelo com Mulher Solteira Procura é inevitável. Muitos conflitos são similares, a diferença é que a trama com Bridget Fonda e Jennifer Jason Leigh é infinitamente melhor.

A obcecada da vez faz o seu trabalho como manda a direção. Louca em excesso, burlesca nas atitudes, repleta de ódio e irritabilidade quando as coisas não andam conforme seu planejamento. A sequência final mostra a habilidade de Phill Parmet na direção de fotografia, bem como a montagem habilidosa de Randy Bricker, bem a “cara da MTV”. A condução musical de John Frizzell faz o seu trabalho de acordo com o material que lhe é entregue, algo abaixo da média. Injustiça, no entanto, esperar muita coisa de Colega de Quarto, trama que só pela divulgação e premissa, indica que vai navegar na caudalosa maré do mais do mesmo.

Os personagens são medianos, as necessidades dramáticas razoáveis e os conflitos se encadeiam de maneira orgânica, mas falta ousadia e menor grau de parasitismo por parte dos realizadores, afinal, as mulheres mortais de Glenn Close e Sharon Stone são modelos que precisam ser bem trilhados neste tipo de material. A antagonista da vez está mais para as obcecadas de Katherine Heigl em Paixão Obsessiva e Demi Moore em Assédio Sexual, isto é, excessivamente demoníacas e dirigidas com irregularidade por seus cineastas.

Lançado em 2011 diretamente em DVD no Brasil, o filme colecionou polêmica ao utilizar imagens indevidas de uma universidade em seus cartazes promocionais. Isso seria algo tranquilo de driblar se a narrativa fosse interessante, mas como não passa de um entretenimento ligeiro que ponga nas boas tramas sobre transtornos psicóticos, o filme coleciona mais um agravante para designar a sua existência.

Colega de Quarto — (The Roommate) Estados Unidos, 2011.
Direção: Christian E. Christiansen
Roteiro: Sonny Mallhi
Elenco:  Alyson Michalka, Billy Zane, Cam Gigandet, Leighton Meester, Matt Lanter, Minka Kelly, Katerina Graham
Duração: 94 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.