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Crítica | Collective (Colectiv)

por Iann Jeliel
597 views (a partir de agosto de 2020)

Colectiv

Existe um misticismo, até no próprio caráter do estudo jornalístico, sobre a via parcial de um documentário. Como qualquer outra obra cinematográfica, não existe imparcialidade no exercício documental, ainda que o formato de contagem até seu destino de conclusão ideológica, preserve a linguagem impessoal de locução. O jornalismo e principalmente o jornalismo documental, que está bem mais próximo da liberdade de uma reportagem por exemplo, tem sim e deve ter um caráter de denúncia, ou no mínimo, um posicionamento claro do que está fazendo com a informação passada. Se isso já é naturalmente um algo difícil de se fazer, quando o documentário documenta um processo de investigação jornalística, esse modo de transmitir uma moralidade informalmente cai em terrenos ainda mais argilosos. É o caso de Colectiv, indicado romeno a duas categorias do Oscar 2021 – Melhor Documentário e Melhor Filme Internacional –, que narra o processo da equipe da Gazeta Sporturilor a desmascarar toda uma rede de corrupção do país na área de saúde, depois das consequências inesperadas de uma tragédia ocorrida em uma boate.

O acidente em questão, foi um incêndio que gerou algumas mortes e que deixou vários feridos. Em alusão sobre diferentes escalas, algo muito parecido com o que ocorreu na Boate Kiss em 2013, no Brasil em Rio Grande do Sul. A diferença, é que aquele incidente não levantou polêmicas maiores do que a falta medidas de segurança do local, pelo menos, não tão grandes quanto as encontradas aqui. Acho que a primeira meia hora possui uma construção interessante na montagem para trazer esse senso de descoberta ao público, uma crescente de que há algo errado nos bastidores, instigando uma curiosidade de saber o porquê no meio a respostas tão entregues de forma incompleta. A esquematização documental engata a premissa, contudo, em algum momento deixa de sustentá-la por ceder suas cartas muito rapidamente. Fugindo desse compromisso de crescente, da meia hora para a frente o documentário busca outras formas de denúncia que não só caem na morosidade, como parecem buscar um herói para a situação.

O que é estranho, se tratando de um documentário que segue fortemente essa vertente jornalística a princípio, continua com seu viés distante de tentar extrair sentimentalismos novelescos ou manipuladores, mas ao mesmo tempo deixa de ser tão incisivo quando vai questionar a figura do jovem ministro da saúde para detalhar possíveis soluções de falhas do sistema. Quando evidenciado o problema, pausa ele no (s) agente (s) responsáveis, mesmo o jovem sendo a única fonte oficial disponível, a evolução da investigação se deu ao fato de que essa equipe foi além e parece que deixou de ir somente pelo jogo da montagem. Pode ser realmente tendencioso e não há nada de errado nisso, mas certamente há uma falha dentro da construção geral do filme, pela errônea escolha de timing de entrega de dados adiantados no início. Gera essa percepção de que ficou demasiadamente focada em outros cantos, uma vez que o filme não deseja mais chamar a atenção da construção do caso, já que ele é simplesmente entregue.

Uma vez entregue, os pontos desdenhados vão ou para a melancolia das vítimas – e aí, esse olhar distante, embora realista, trás um distanciamento que só é conquistado através de uma boa seletividade de momentos resposta de entrevista, algo que nunca é exatamente proposto pelo filme, já que a camera é onisciente e observadora sem interferência –, ou para confirmação das teses já apresentadas e provadas. Fica repetitivo, travando a urgência inicial bem desdenhada, colocando-a como não tão urgente assim. Uma vez que só é retomada nos pormenores finais, nos quais, escolhem enfim cair no sentimentalismo mais fácil, que contradiz novamente o intuito geral da obra. Fora que a sensação passada é de um exercício jornalístico incompleto, apesar do jovem ser propriamente a única fonte oficial disponível de embate, fica claro que ele se torna uma segurança da equipe depois do encerramento da verdade.

Me parece, que Colectiv nasceu para ser um curta ou média documentário e acabou sendo preenchido com mais duração sobre pontos questionáveis e não tão envolventes quanto poderia, enquanto investigação de escândalos que ficam muito mais palpáveis para a via específica de quem vivenciou no momento, do que exatamente para quem está observando-o pela primeira vez através de lente jornalística. É o tipo de furo de reportagem que caberia melhor numa reportagem para jornal tradicional mesmo, mais curto, sucinto e objetivo, como o próprio filme foi, em seus bons momentos.

Collective (Colectiv | Luxemburgo – Romênia, 2019)
Direção: Alexander Nanau
Roteiro: Alexander Nanau, Antoaneta Opris
Elenco: Liviu Iolu, Razvan Lutac, Mirela Neag, Camelia Roiu, Catalin Tolontan, Tedy Ursuleanu, Vlad Voiculescu
Duração: 109 minutos

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3 comentários

Felipe Brandon 19 de abril de 2021 - 21:20

Eu achei o filme alongado demais também. Procurando um heroi e apenas um. Se fosse feito no formado de curta, seria perfeito, creio.
E nossa, deu pena do povo, aquela cena das larvas, ugh. O descaso acontece em vários locais. É um bom filme para mostrar as pessoas que corrupção acontecem em outros países. Pq tem gente que acha que só o Brasil é assim kk.
Uma dúvida. Um curta poderia concorrer na categoria de melhor filme/internacional?

Responder
luc 24 de abril de 2021 - 22:32

Não, apenas filmes longa-metragem estão aptos

Responder
Iann Jeliel Pinto Lima 29 de abril de 2021 - 21:34

Tenho essa mesma impressão. É bom como “internacional” para mostrar que há corrupção em qualquer lugar e mostrar também que em qualquer lugar se procuram heróis para combate-la a frente do seu combate prático como população, ou mesmo imprensa.

E como o colega aí respondeu, não, a categoria de curtas tá aí justamente pra isso. Seria bem melhor, se fosse um curta.

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