Crítica | Colóquio de Cães

Poucos cineastas sul-americanos dedicaram-se com grande afinco às questões surrealistas ou fantásticas no cinema, cada um deles explorando temas muito pessoais dentro de momentos artísticos diversos na história de seus países ou em seus países de exílio. José Mojica Marins (Brasil), Alejandro Jodorowsky e Raoul Ruiz (Chile) são exemplos de nomes que conquistaram a cena cinematográfica com obras de relevância histórica e artística. Dessa tríade, o realizador mais prolífico, com 119 filmes dirigidos entre 1963 (A Maleta) e 2017 (La Telenovela Errante) é Raoul Ruiz, que despertou o reconhecimento da crítica após o seu exílio na França, em meados do anos 1970.

O cinema de Ruiz é um misto de descontinuidade narrativa, experimentações imagéticas através da manipulação do cenário ou da cor e inserção do mundo fantástico, muitas vezes trazido de maneira cáustica. O interesse pelo comportamento humano se faz presente em todas as suas obras e a maior parte delas articulam técnicas do impressionismo francês, do surrealismo e do cinema fantástico.

Nos dramas mais realistas, Ruiz adota uma postura psicanalítica e social, trazendo das questões internas do homem algumas justificativas para viver e agir de determinada forma. Colóquio de Cães (1977) é um desses filmes. O curta-metragem tem uma história aparentemente simples mas, aos poucos, os acontecimentos dão ao espectador a noção de um ciclo vicioso que cerca o cotidiano de uma mulher. A personagem principal é o objeto dramático e, a partir dela, histórias idênticas acontecerão com outros indivíduos à sua volta. Podemos entender aqui uma provocação do diretor ao comportamento da violência doméstica, dos crimes passionais e do “mortal instinto de sobrevivência” do homem.

Para trabalhar o assunto, o cineasta aproximou o título do filme a indicações metafóricas dentro dentro dele. O colóquio dos cães pode ser qualquer uma das falas ou posturas da história, desde o narrador até os muitos amantes das prostitutas protagonistas. Com esse quadro polêmico e difícil de captar, Ruiz preferiu usar fotografias para representar os seres humanos em planos individuais ou de conjunto e pequenas filmagens para mostrar o espaço da cidade e os cães que “fecham o cerco”. Do isolamento individual para a interação coletiva há um obstáculo intransponível. Ninguém se entende e acaba por fazer a única coisa possível frente a um “mistério” que nos persegue e ameaça: matá-lo. Assim como a violência e agressividade de uma “conversa entre cães”, o curta-metragem atravessa as diversas atitudes puramente animais cometidas por um ser humano. Vale ainda lembrar que durante todo o desenvolvimento do suspense a manipulação dos objetos fotografados alteram a visão do espectador sobre o que há na realidade e o que há no pensamento dos protagonistas. A dose de subjetividade no filme é aplicada de maneira sutil e incrivelmente sugestiva.

Algumas técnicas experimentais são utilizadas na montagem do filme e o resultado final é um trabalho de autor que exerce sobre nós um macabro fascínio. Partindo de uma premissa banal e improvável, Raoul Ruiz entrega para o espectador uma bomba moral e ética e fecha o filme tão bem que não há como o espectador não “comprar a briga” ali exposta. Se há obstáculos entre as realidades do mundo diegético, eles desaparecem quando o filme termina e nós somos atingidos em cheio pelas investidas ferozes da civilização retratada, conversando, como cães raivosos, com nós mesmos.

Colóquio de Cães (Colloque de Chiens, França, 1977)
Direção: Raoul Ruiz
Roteiro: Raoul Ruiz, Nicole Muchnik
Elenco: Eva Simonet, Robert Darmel, Silke Humel
Duração: 22min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.