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Crítica | Com Amor, Simon

por Gabriel Carvalho
248 views (a partir de agosto de 2020)

“Eu sabia que você tinha um segredo. Quando você era pequeno, você era tão despreocupado. Mas nesses últimos anos, mais e mais, parecia que eu podia sentir você segurando o seu fôlego.”

Quanta coisa mudou no meio adolescente dos anos 80 para os dias de hoje? O cinema “adolescente” definitivamente não é o mesmo. Com Amor, Simon é cinema adolescente com cara de anos 80, mas transportado para o século XXI; espirituoso, engraçado e jovial, porém movido por novas pautas. Simon (Nick Robinson) se apaixona por uma pessoa na internet sem saber quem ela é realmente, mesmo conhecendo-a no intrínseco da questão, seus segredos e seus desejos, entendendo-a acima de tudo. Simon também guarda um segredo, como todos nós guardamos. O dele, contudo, o priva de ser quem ele é e isso o corrói. O diálogo mais acertado de toda a história, que serve como uma conciliação do passado de Simon com o seu presente, conta com a presença de Jennifer Garner, interpretando a mãe do protagonista, em uma cena que exala a necessidade de sermos livres. A interpretação de Robinson, embora carismático no papel, não conta com todo aquele espírito livre de sua infância descrito pela mãe. Simon é um menino contido, muitas vezes cabisbaixo. Estamos falando de um garoto recluso, de uma tristeza que existe nessa disformidade entre quem ele era e quem ele se tornou.

Na utopia de Com Amor, Simon, abraçar quem nós somos, revelar nossas verdadeiras identidades para o mundo, nos brinda com aplausos de dezenas de pessoas. O sentimentalismo e a recompensa são exageradas, mas o realismo que vem não surge da ficção ser um retrato da realidade, mas da ficção tratar a ficção com plausibilidade, autenticidade, e acabar sendo catártico pela sua própria natureza ficcional, muito idealista, mas reconfortante. É um mundo diferente, cheio de amigos para estar ao seu lado quando você precisa, com pais que, apesar de errarem devido a uma ignorância, são compreensíveis quando seus filhos necessitam que eles sejam, além de mensageiros anônimos revelarem-se como sendo pessoas sensacionais. É engraçado que o diretor da obra seja Greg Berlanti, cineasta envolvido em diversas séries de televisão adolescentes envolvendo super-heróis, além de roteirista de algumas bobagens, como Lanterna Verde. Dessa vez, o trabalho de direção é surpreendente, cheio de dinamicidade. Não há nada tão jovem quanto esse filme, ao menos que estejamos falando de Bruno de Luca no slackline. Mas nem John Hughes acertou todas, não é mesmo? Gatinhas e Gatões é uma grandiosíssima bobagem, no final das contas.

Sendo assim, podemos estar diante de um novo passo na carreira desse profissional. Comparando, uma diferença notável de Com Amor, Simon para a filmografia de John Hughes é que os adultos, aqui, não são os vilões. O antagonista dessa história é Martin Addison (Logan Miller), um chantagista inescrupuloso, interessado em ter a garota dos seus sonhos custe o que custar. Infelizmente, os roteiristas escorregam feio no que se refere a tal personagem, tendendo a um terceiro ato extremamente previsível no que tange a sua participação – não há muitas surpresas na revelação de quem é o mensageiro anônimo, mas a brincadeira de dedução é, ao menos, instigante. Martin é uma figura moralmente questionável em diversos níveis, mas o filme acaba parecendo que vai desconstruir o lado vilanesco do personagem e mostrar outras características do personagem, que o simpatizariam em relação ao público. A obra indiscutivelmente vai para caminhos mais fáceis, mas o pior é ela tentar dar uma redenção para o personagem de maneira completamente desonesta, como recurso puramente narrativo, sem qualquer ligação emocional com o espectador, que, no final das contas, rejeita Martin como todos os outros.

Um dos maiores problemas do filme, criando uma contradição enorme e problemática na mensagem a ser estabelecida, é a sequência musical, que acontece em um pensamento de Simon. O garoto, ao final da excêntrica cantoria, diz que aquela realidade toda seria “gay demais” para ele. De fato, Simon não gostar daquilo é uma quebra de clichês, o que o dá características diferentes das existentes em um senso retrógrado. Mas o estabelecimento do “ser gay demais” é hostil a um mundo sem tais barreiras. A questão é que essa frase estabelece rótulos completamente desnecessários. O musical, cheio de cores e coreografias, não é gay demais para Simon, apenas não faz parte do seu gosto. Sem essa única frase e outros equívocos que nunca são contra-argumentados verdadeiramente, como o “como se vestir como um gay“, talvez trocada por alguma ironia mais refinada, teríamos a destituição de padrões. Com essa única frase, Simon não apenas se estabelece como não tão gay, como se existisse tal coisa de mais gay e menos gay, como contraria o seu filme e o mundo pelo qual o século  XXI tende a ser, sem preconceitos em relação as formas de amor e aos modos comportamentais, que não precisam se encaixar dentro de qualquer norma.

Outrossim, dando adendo a possibilidade da ironia nessa situação, a obra contém cenas com um humor, digamos, subversivo, como a fantasia que seria se seus amigos tivessem de revelar que são héteros para seus pais. Se não é mistério algum ser hétero, por que deveria ser mistério ser homossexual? Uma pena momentos cheios de potencial terem de ser intercalados com esses graves equívocos, alguns sendo transportados do material fonte, o livro Simon Contra a Agenda Homo Sapiens. Por outro lado, esta adaptação cinematográfica acerta em outras questões realmente importantes, introduzindo diálogos que favorecem o entendimento do protagonista por quem ele é, o que ele passou e está passando, assim seja para ele quanto para quem quer que esteja assistindo ao filme e se identifique com a situação, com o medo de expor o seu verdadeiro eu. Mas verdade seja dita, nada realmente sério surge após a revelação da orientação do personagem. Contudo, o longa-metragem tem um interesse mais introspectivo da situação, abordando a crise interna de Simon por ele ser “diferente”. O próprio relacionamento virtual do garoto é excepcionalmente bem amarrado com esse dilema.

Aliás, ao lado disso, ou melhor, acima disso, eis que temos uma mera história de amor, com um garoto tentando encontrar a pessoa secreta que encantou seu coração e que entende a dor de se guardar segredos que os privam de ser quem eles realmente são. Uma relação movida, principalmente, em identificação, algo não difícil de se ver em romances comuns.  A ideia, realmente necessária de ser afirmada nos dias de hoje, em uma metamorfose positiva para o respeito e aceitação universal, é de que está tudo bem você ouvir uma música “diferente”, vestir roupas “diferentes” ou beijar bocas “diferentes”. Crescemos ouvindo a frase que ser diferente é bom, mas a realidade é que as pessoas não estão interessadas em destruir de vez suas zonas de conforto egocêntricas. As diferenças são aceitáveis, quando elas são escondidas do mundo, quando elas são apenas suas e não ousam quebrar com padrões. “Se for para ser gay, que seja gay longe de mim” não é uma frase difícil de ser ouvida. Com Amor, Simon, mesmo cambaleando nisso, quer que as pessoas, tanto as distantes quanto as próximas de nós, sejam quem elas são, independentemente de quem elas sejam, contanto que elas não firam ninguém. É tão “simples” quanto necessário.

Com Amor, Simon (Love, Simon) – EUA, 2018
Direção: Greg Berlanti
Roteiro: Isaac Aptaker, Elizabeth Berger
Elenco: Nick Robinson, Bryson Pitts, Nye Reynolds, Josh Duhamel, Jennifer Garner, Katherine Langford, Alexandra Shipp, Jorge Lendeborg Jr., Keiynan Lonsdale, Miles Heizer, Logan Miller, Thalita Bateman, Skye Mowbray, Tony Hale, Natasha Rothwell, Drew Starkey, Joey Pollari, Mackenzie Lintz
Duração: 110 min.

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7 comentários

Rogério Kiihl 9 de junho de 2018 - 08:30

Sobre o “ser gay demais”, tente olhar dentro de uma atmosfera que não vê gay como problema mas em que haveria uma linha contínua, indo do gay mais tímido, introspectivo e imperceptível àquele que não nasceu, estreou na vida sobre um palco e um salto 18cm.

No mundo gay é bem óbvia essa linha é com gays tem a sua personalidade, com mais ou menos “brilho”. Assim, a frase dele de “ser gay demais pra mim” faz muito sentido. O “pra mim” do final diz o que ele é. É uma frase que eu falo e nunca, jamais, estou sendo hostil com os “mais gay que eu”. Entende?

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Kozaroff 23 de abril de 2018 - 12:08

Concordo com a crítica. É um filme que comete alguns pequenos deslizes, mas no geral eu acabei gostando bastante. É um típico filme adolescente onde o filme acaba e você fica com aquela alegria, porque é um filme “bonitinho”. Também serve como adaptação, e acho que a única coisa que me incomoda mesmo é não adaptarem melhor a relação de Blue e Simon pelos e-mails, no livro a gente se apega mais a eles e conhece melhor o Blue. No saldo geral é positivo, a representatividade tem que começar de algum lugar, e é bom finalmente ver um final feliz pra um romance gay.

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Bruno [FM] 6 de abril de 2018 - 10:10

Muito difícil falar do filme sem comparar com o livro. O filme é sim uma boa adaptação! Funcionando mais como uma “comédia romântica” (e sim, fez eu rir alto várias vezes!) do que como um “drama”. Diferente do livro, que carrega ambas as coisas de forma mais equilibrada. Parabéns para o roteirista, que conseguiu adaptar, retirar e acrescentar coisas que no resultado final ficou legal. Só não gostei da personalidade do Simon ter sido transformada de “reservado e tímido” do livro para “popular e explosivo” no filme.

Filme divertido, com vários momentos hilários. Cenas que de tão ousadas e espontâneas, passarão a ser inesquecíveis de tão inusitadas (e não, não estou exagerando!). O humor é inteligente (o que muitos filmes “assumidamente” de comédia tentam, mas que não conseguem a “saída do armário” de verdade). E mesmo com o grande teor de humor, o filme conseguiu trazer uma certa maturidade para a história. Coisa que no livro achei um pouco imaturo (principalmente sobre as atitudes de alguns personagens no quesito relacionamento, sendo ou não adolescente). Porém, o que o filme dá certo no humor, ele acaba pecando nos momentos que deveriam ter o drama (e sim, era necessário ter!) Nem mesmo Jennifer Garner na sua “cena de peso”, foi o suficiente para trazer algo mais sério para o enredo.

Escolha do elenco ok? Não sei. Seria algo dificil de questionar, mesmo porque no livro a própria autora não se preocupa tanto em descrever os personagens. Trilha sonora de bom gosto! Mas com conveniência só em determinados momentos. Direção quase imperceptível tamanha grandiosidade do roteiro adaptado (acho que nunca gostei tanto de um roteiro assim). “Com amor, Simon” ficou raso demais pro conteúdo denso que essa história carrega (e tinha elenco pra isso viu) Achei um filme ok! Mas merecia ser algo a mais. Faltou o “lacre” ou o “vrau” da dramaturgia que o público tanto esperava. Mas já que não veio, deu pra se contentar de forma satisfatória só com bons “kkkk’s”. Quem puder ler o livro, eu recomendo! Dá até vontade de usar o Gmail no lugar do WhatsApp agora. Valorizei!

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Helder Lucas 5 de abril de 2018 - 02:13

talvez eu tenho exigido demais desse filme. o achei meio estúpido, tornando caricatas demais questões do preconceito cuja discussão está ligada a tratá-las com bastante seriedade.
a ideia que me ficou no final do longa foi de que, para torna-lo palatável para o público em geral (não somente adolescente, mas para todas as faixas etárias que se proponham a vê-lo), os roteiristas e produção em geral não poderiam estender muito o tom de seriedade — porque sim, ainda há algumas cenas cujo cerne encontra abordagem séria que lhe cabe. mas em meio às piadas fáceis (algumas até nonsense) que fortalecem e até ridicularizam não somente a vida adolescente, mas também o ser e viver LGBT (até reiterando alguns estereótipos terríveis), o papel social do filme perde bastante a intensidade, e o próprio longa até parece um pouco despropositado.
excelente crítica, Gabriel. me fez dar um pouco de crédito ao filme, mas eu ainda estou bem decepcionado…

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Rafael W. Oliveira 31 de maio de 2018 - 18:13

Caricato é a palavra certa. O estereótipos estão todos ali ainda, só floreados pelo tom de narrativa “filme indie descolado pra adolescentes” que é adotado. Aquela sequência final na montanha russa é uma vergonha enorme.

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Helder Lucas 5 de abril de 2018 - 02:13

talvez eu tenho exigido demais desse filme. o achei meio estúpido, tornando caricatas demais questões do preconceito cuja discussão está ligada a tratá-las com bastante seriedade.
a ideia que me ficou no final do longa foi de que, para torna-lo palatável para o público em geral (não somente adolescente, mas para todas as faixas etárias que se proponham a vê-lo), os roteiristas e produção em geral não poderiam estender muito o tom de seriedade — porque sim, ainda há algumas cenas cujo cerne encontra abordagem séria que lhe cabe. mas em meio às piadas fáceis (algumas até nonsense) que fortalecem e até ridicularizam não somente a vida adolescente, mas também o ser e viver LGBT (até reiterando alguns estereótipos terríveis), o papel social do filme perde bastante a intensidade, e o próprio longa até parece um pouco despropositado.
excelente crítica, Gabriel. me fez dar um pouco de crédito ao filme, mas eu ainda estou bem decepcionado…

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Gabriel 4 de abril de 2018 - 18:21

Li o livro ano passado e não consegui me conectar com os personagens. Consequentemente, fiquei totalmente alheio a história e suas descobertas. Todavia, o filme tem agradado – 3,5 é válido; Domingo pretendo ir ao cinema vê-lo.

Abs

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