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Crítica | Comando Assassino (Instinto Fatal)

por Leonardo Campos
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Apesar de seu potencial ameaçador, as diversas espécies de macacos estiveram no cinema numa quantidade bem menor que outros animais selvagens dotados de força, tais como os tubarões, serpentes, dentre outros. Em 1988, eles estiveram como presença ameaçadora em Comando Assassino, também conhecido por Instinto Fatal, produção dirigida pelo mestre do terror, George A. Romero, ninguém menos que o revolucionário criador do clássico A Noite dos Mortos Vivos, a base para os filmes de zumbis modernos. Em sua inserção por uma via bastante peculiar do horror ecológico, isto e, a manipulação de animais por humanos com projetos específicos de vingança. O cineasta adota mais ou menos essa perspectiva na adaptação do livro de Michael Stewart, sendo ele mesmo o responsável pela tradução intersemiótica do ponto de partida literário. Aqui, uma macaca pequena é capaz de causas estragos consideráveis ao se instalar como companhia de um homem gravemente acidentado.

Logo na abertura, somos apresentados ao rotineiro dia de Allan (Jason Beghe), um homem que exala saúde radiante. Atlético e viril, ele levanta de sua noite com a namorada, faz exercícios físicos, parte para uma segunda etapa com caminhada e no meio do processo, torna-se estatística após ser atropelado por um carro. Agora tetraplégico, ele precisa se acostumar com a nova vida e buscar significados alternativos para lidar com as mudanças. A sua mãe, Dorothy Mann (Joyce Von Patten) resolve viajar e passar algum tempo para ajuda-lo no processo de readaptação, presença bastante intrusiva e que lhe faz entender constantemente que determinadas independências não são parte de sua vida. Ele precisa contar com apoio para fazer coisas básicas e toda essa pressão causa grandes transtornos ao cotidiano dos personagens. Com a chegada da macaca dada de presente por seu amigo Geoffrey Fisher (John Pankow), os seus dias ficam mais amenos. Treinada por Melaine Parker (Kate McNeil), o animal passou por um processo de laboratorial que inseriu tecido humano em sua estrutura cerebral.

Assim, a criatura inofensiva se torna mais inteligente que o normal e a sua presença inicialmente amena passa a ser um risco quando começa a perder o controle comportamental e seguir os comandos mentais de seu novo dono. É o flerte do horror ecológico com o cinema de toques sobrenaturais. Parte de um experimento, a macaca desenvolve uma habilidade telepática com Allan e o que era para ser uma amizade tranquila e um passatempo tranquilizador começa a trazer preocupações não apenas para quem circula pelo lar do protagonista, mas para ele próprio, tenso com os desdobramentos da criatura que atende aos seus anseios psicanalíticos. Exemplo? Allan toma ódio de sua namorada que o abandona para ficar com seu médico, o inescrupuloso Dr. John Wise (Stanley Tucci). Ao imaginar a morte dos dois, ele sequer se dá conta que a criatura parte para a ação e coloca os seus planos apenas pensados em prática, matando a dupla num momento de intimidade. E assim será com outras pessoas e situações, com a macaca a se deslocar pelos ambientes com uso do habitual ponto de vista, recurso da direção de fotografia de James A. Contner para flertar com o estilo Tubarão de ser ameaçador.

Sem acolhimento do grande público, Comando Assassino é uma produção menor na filmografia do cineasta. Possui alguns bons momentos, mas confesso que a história de reabilitação de um homem atlético agora em cadeira de rodas é menos dinâmica que o esperado. A história se arrasta, as coisas demoram a acontecer. Ella é engraçada e passa pouca credibilidade enquanto ameaça, mesmo depois de ter matado o pássaro da rabugenta enfermeira de Allan. Ao antecipar as necessidades do personagem e ser uma espécie de interlocutora de seus desejos, a criatura se transforma numa perigosa ameaça para as figuras ficcionais, mas compramos muito pouco a ideia. O excesso de subtramas e a falta de foco e direcionamento deixaram a produção ser merecidamente um ponto menos expressivo na carreira de George A. Romero, apesar do argumento trabalhar bem a dramaticidade da situação social de Allan. Destaque para a atmosférica trilha de David Shire, burocrática, mas eficiente, o design de produção assinado por Cletus Anderson, responsável pela composição da casa do personagem, claustrofóbica quando precisa ser. Discutido em retrospectivas e relançado na atual cultural das mídias, o filme é um ponto peculiar na trajetória do cineasta e no segmento narrativo que chamamos de horror ecológico. Um filme com bons momentos, mas cheio de problemas de ritmo.

Comando Assassino/Instinto Fatal (Monkey Shines, USA – 1988)
Direção:
 George A. Romero
Roteiro: George A. Romero, Michael Stewart
Elenco: Jason Beghe, John Pankow, Kate McNeil, Joyce Van Patten, Christine Forrest, Stephen Root, Stanley Tucci, Boo, Janine Turner, William Newman, Tudi Wiggins, Tom Quinn
Duração: 113 min / 105 min (Alemanha)

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