Home FilmesCríticasCatálogos Crítica | Comboio do Terror

Crítica | Comboio do Terror

por Ritter Fan
317 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 2

Quando foi anunciado que Frank Miller dirigiria The Spirit, filme lançado em 2008, logo lembrei de outro grande autor que havia tentado enveredar pelo mesmo caminho: Stephen King, em seu clássico trash de 1986, Maximum Overdrive (um título bem mais sonoro do que o pouco inspirado Comboio do Terror). E, assim, quase como no caso de King, Miller meteu os pés pelas mãos, entregando uma obra completamente sem salvação.

Mas a palavra de ordem, aqui, é “quase”.

Maximum Overdrive é certamente uma enorme bobagem e, mais certamente ainda, a habilidade de King na cadeira de diretor é, com muita boa vontade, nula, possivelmente em razão de ele ter passado toda a produção profundamente drogado como ele mesmo viria a afirmar depois. Seja como for, ele mal consegue posicionar as câmeras de maneira que o montador consiga extrair sequências que efetivamente se encaixem umas com as outras e o resultado é um colcha de retalhos mal costurada que por muito pouco não consegue contar uma história com um mínimo de coerência. Além disso, não há desenvolvimento algum de personagens – eles acabam como começam – e King não extrai uma atuação sequer que esteja um ponto percentual acima do tenebroso.

No entanto, o filme inegavelmente tem personalidade. E o primeiro elemento que comprova minha afirmação é o inesquecível caminhão com a máscara do Duende Verde que é o líder do grupo de caminhões que sitia um posto de gasolina quando a Terra passa pela calda de um cometa que faz as máquinas terem vontade própria ou, mais especificamente, sana de matar humanos. A premissa bizarra, baseada no conto Caminhões, do próprio diretor, claro, poderia gerar o tipo de claustrofobia que vemos em O Nevoeiro, adaptação de obra homônima de King, por Frank Darabont, que também coloca pessoas presas em um estabelecimento comercial tendo que sobreviver, mas King não tem nem de longe o mesmo refinamento ou até a mesma preocupação de Darabont e o caminhão Duende Verde consegue, em meio a isso tudo, ter mais presença em tela e mais personalidade do que todo o elenco somado.

O segundo elemento que retira o filme da vala comum é o curioso fato – que poucos se lembram – que este foi o segundo filme B no mesmo ano cuja trilha sonora foi composta por uma famosa banda de rock. Se ninguém consegue se esquecer que Highlander teve suas músicas compostas pelo Queen, que, em seguida, lançou o álbum A Kind of Magic, quase ninguém consegue ligar o AC/DC a Maximum Overdrive, mas as músicas “Who Made Who” e outras cinco instrumentais com típicos riffs de guitarra do grupo foram compostas especialmente para o filme, com outras preexistentes como “Hells Bells” e “For Those About to Rock (We Salute You)” também sendo inseridas na obra. E tudo porque o AC/DC era a banda favorita de King.

Mesmo tendo afirmado que o caminhão Duende Verde é melhor que todo o elenco reunido, temos ainda que lembrar que o filme também conta com Emilio Estevez, o único da célebre família de atores “Sheen” que manteve sua herança espanhola no nome, em um papel que tenta canalizar seus personagens adolescentes em O Clube dos Cinco e O Primeiro Ano do Resto das Nossas Vidas, ambos do ano anterior, mas que falha miserável e hilariamente. Mantendo uma pose de galã, mas que para ficar igual a um caipira interiorano estereotípico só precisava de uma graminha para palitar os dentes, Estevez arranca risos involuntários da plateia misturando poses, trejeitos, caras e bocas que dariam uma tese de mestrado sobre o que não fazer quando se está diante das câmeras. Mas, singularmente, exatamente pela natureza escrachada e imbeciloide do filme, a junção de todos esses fatores resulta em algo que, para o mal ou para o bem, o espectador não esquecerá e, se souber relaxar, encontrará espaço para divertir-se culposamente.

Como cinema de horror, Maximum Overdrive é uma comédia pastelão sanguinolenta que não faz sentido algum. Como um videoclipe trash oitentista mal dirigido de 98 minutos estrelado por caminhões raivosos, atores patéticos, uma ponta do próprio King e um roteiro que levaria Uwe Boll a ter vergonha alheia, temos um ilustre membro da categoria do “é tão ruim que é bom”. E isso é mais, bem mais do que Frank Miller conseguiu…  

Comboio do Terror (Maximum Overdrive, EUA – 1986)
Direção: Stephen King
Roteiro: Stephen King (baseado no conto Caminhões, contido na compilação Sombras da Noite, de Stephen King)
Elenco: Emilio Estevez, Pat Hingle, Laura Harrington, Yeardley Smith, J.C. Quinn, John Short, Ellen McElduff, Christopher Murney, Holter Graham, Frankie Faison
Duração: 98 min.

Você Também pode curtir

2 comentários

Rafael Lima 1 de outubro de 2017 - 16:30

Confesso que não consegui me divertir tanto quanto você. Achei simplesmente desastroso. É irônico que uma das piores adaptações de King, na minha opinião, tenha sido dirigida pelo próprio King. Não me surpreenda que ele estivesse drogado durante a maior parte da produção (mesmo o trailer do filme com introdução do King é constrangedor).

Talvez eu tivesse conseguido embarcar melhor na brincadeira se não conhecesse o conto original (que lembra mesmo “O Nevoeiro”), que é narrado de maneira séria, diferente do tom satírico que o King deu a adaptação.

Abraço!

Responder
planocritico 1 de outubro de 2017 - 17:14

O King, como ele próprio diz, estava completamente drogado durante a produção. Ele basicamente não se lembra nada do que fez e é um milagre o filme ter algum sentido…

Mas eu acho a tosqueira divertidíssima, mas reconheço que é uma porcaria.

Abs,
Ritter.

Responder

Escreva um comentário

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais