Crítica | Começo de Primavera

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Um hiato de três anos separou uma das obras mais conhecidas do diretor Yasujiro Ozu no Ocidente — Era Um Vez em Tóquio — de Começo de Primavera, longa de 1956. Espaços assim não eram frequentes na carreira do diretor e jamais voltariam a acontecer. No presente caso, o artista dava assistência à sua amiga, atriz e agora também diretora Kinuyo Tanaka, em seu segundo filme, Tsuki wa Noborinu (1955) — do qual Ozu também era co-roteirista. Este também foi o período de pré-produção de Começo de Primavera, obra que o cineasta fez como uma espécie de concessão geral às exigências do estúdio para que deixasse os “dramas caseiros” de lado e criasse algo mais moderno.

Sôshun foi a maneira de Ozu fazer este algo “mais moderno” para o estúdio… sendo este “mais moderno” um filme de quase duas horas e meia sobre uma crise matrimonial que se desenvolve aos poucos, ao lado de uma narrativa sobre descontentamento com o trabalho, baixos salários, cansaço físico e perda das grandes oportunidades na vida. Imagino a risadinha cínica do diretor ao apresentar o roteiro aos produtores (roteiro mais uma vez escrito ao lado de Kôgo Noda) como a sua alternativa aos tais “dramas caseiros“. Verdade seja dita, porém: o diretor não burlou a exigência principal, que era a mudança de tom do filme. Começo de Primavera é realmente uma película muito diferente de Ozu, em termos de atmosfera, velocidade dos diálogos e direção de atores.

É impressionante ver Chishû RyûKuniko Miyake, que já haviam trabalhado com Ozu muitas vezes antes, recendo uma direção e uma interação com outros personagens bastante diferente do que estavam acostumados, o que mostra não só a qualidade dos atores como também fala muito sobre o estilo de direção que o cineasta mantinha sob controle na maioria de suas obras. Junto a esses dois e outras figuras carimbadas de sua filmografia, temos aqui um elenco bastante jovem e o deslocamento dos pais e personagens mais velhos para a camada secundária da trama. Até o casal principal, Masako (Chikage Awashima) e Shoji (Ryô Ikebe) é mais jovem do que os casais recorrentes do diretor e o grande dilema — a traição — também não era um de seus temas principais, embora não tenha sido evitado no passado.

Apesar de bastante longo, Começo de Primavera jamais deixa de se mostrar uma obra interessante, com todos os ingredientes recorrentes da técnica de Ozu bem aproveitados aqui, mesmo que a atmosfera geral seja nova. Em muitos momentos, as elipses são utilizadas pelo diretor a fim de evitar o caráter melodramático das cenas (como a descoberta do batom na camisa ou a morte de um amigo de trabalho) e todo o contexto do cotidiano no escritório serve perfeitamente para semear a ideia de “vida mecânica e desperdiçada” que o texto ressalta no final. E aí é que percebemos a genialidade do diretor, porque mesmo tendo que ceder em aspectos de condução narrativa, nota-se claramente que a sua marca de observação dos dias e os efeitos do tempo nas relações entre familiares e amigos mantêm-se intactas aqui.

Em certa medida, nos lembramos de O Sabor do Chá Verde Sobre o Arroz, onde uma crise matrimonial havia sido explorada pelo diretor. Aqui, porém, há muito mais sugestões, olhares, consequências bem analisadas, distrações e fugas por parte dos personagens. É o casal de uma “geração” mais complexa, um pouco mais mesquinha, mas ainda sujeita ao peso da rotina, das preocupações e da melancolia da vida, somada ao peso do envelhecimento. Em muitos aspectos, não é um filme fácil de se assistir. Máscaras sociais e desejos sublimados são vistos aos montes na obra, assim como preocupações que nos fazem querer abraçar alguns personagens, como nas cenas do pai de primeira viagem, por exemplo. Mas acima de tudo, Começo de Primavera é uma análise da convivência a dois. Um filme que chama a atenção para a necessidade de autocrítica e para o fato de que se houver honestidade, amor e vontade de fazer diferente, as coisas realmente podem funcionar e um novo momento florir dos mesmos laços. Como é de praxe na vida.

Começo de Primavera (Sôshun) — Japão, 1956
Direção: Yasujiro Ozu
Roteiro: Yasujiro Ozu, Kôgo Noda
Elenco: Chikage Awashima, Ryô Ikebe, Teiji Takahashi, Keiko Kishi, Chishû Ryû, Sô Yamamura, Takako Fujino, Masami Taura, Haruko Sugimura, Kumeko Urabe, Kuniko Miyake, Eijirô Tôno, Kôji Mitsui, Daisuke Katô, Fujio Suga, Haruo Tanaka, Chieko Nakakita, Keijirô Morozumi, Nobuo Nakamura, Seiji Miyaguchi
Duração: 145 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.