Crítica | Community – 6ª Temporada

estrelas 3

No momento em que escrevo esse texto, 7/08/2015, o status sobre o futuro de Community ainda é indefinido. Há um grande número de boatos, entrevistas e declarações sobre o definitivo cancelamento do show (que até agora não aconteceu, ele ainda está na “bolha”), mas a Sony Pictures TV e a Yahoo! Screen, parceiras no milagre de ressurreição de Community para a 6ª Temporada, após ter sido cancelada pela NBC ao final de seu 5º ano, declararam que estão “conversando” desde a exibição do finaleEmotional Consequences of Broadcast Television, em 21/06/2015. O que resultará dessa conversa, ainda não sabemos. Mas se Community de fato for cancelada, ela encontrou no último episódio dessa 6ª temporada o seu final perfeito. E se não for cancelada, ela definitivamente aponta para caminhos muito interessantes a seguir. Nos dois casos existem ganhos.

Com Dan Harmon ainda no comando criativo, temos aqui a “temporada da fala/hashtag de Abed e Troy”, #sixseasonsandamovie, uma temporada que tinha tudo para ser excelente, subindo mais alguns degraus em relação ao bom status em que ficou após a 5ª Temporada. Mas surpreendentemente — pelo menos para mim — este sexto ano de Community foi apenas bom, sem grandes explosões de criatividade e apenas com um episódio genial, o já citado Emotional Consequences of Broadcast Television.

Para o padrão a que estávamos acostumados na série (exceção à péssima 4ª Temporada), isso é um pouco frustrante. Sabemos que a dificuldade de manter o estilo peculiar de comédia do programa não é algo fácil, especialmente levando em consideração o fato dela ter mudado de produtora/exibidora e perdido três atores do elenco original. Essas quebras evidentemente interferiram na organização de uma continuidade mais coesa e cobraram a sempre difícil tarefa de acrescentar gente nova, propor novas tramas para essas pessoas e relacioná-las com o “grupo de salvação de Greendale” ao qual já estávamos familiarizados.

Aqui, temos dois personagens novos, Frankie (Paget Brewster) e Elroy (Keith David), ambos bem localizados na temporada e trabalhados a contento durante os episódios. Particularmente vejo Frankie como uma adição bem mais interessante, mas Elroy é necessário pelo “contraponto + chatice” típicos do personagem que ele vem, de uma forma distanciada, substituir: Pierce. Se olharmos com maior atenção, Chang prece mais deslocado que Elroy, então fica fácil aceitar o novato no grupo. No final, ele é fastado de maneira impessoal demais, mas nada muito grave.

O grande problema do enredo nesse ano foi o diálogo externo que os episódios tiveram, quebrando a quarta parede (iniciativa que funcionou apenas em Wedding Videography e no último episódio), um modelo que infelizmente veio estragar capítulos como Basic RV Repair and Palmistry, que teve uma das tramas mais engenhosas da temporada, com excelente integração entre os atores, ótimas referências ao brilhante Remedial Chaos Theory da 3ª Temporada e inserção de detalhes que enriqueceram este ano do show, por serem “a cara de Community”. No entanto, tudo isso ficou menos genial quando chegamos ao fim do episódio e a quebra da quarta parede aconteceu em uma intricada relação com algo da própria trama. A concepção é impressionante, mas simplesmente não coube no episódio, acabando por estragá-lo.

Durante todo o tempo percebemos uma preocupação dos roteiros em avançar, amadurecer, incrementar elementos da série — o casamento de Garrett e a reconciliação de Britta com os pais, por exemplo — mas não perder o tom que se esperava em cada uma dessas mudanças. A série avança, desenvolve elementos de seu cânone, mas tenta não perder a graça. Infelizmente isso não funciona a maioria do tempo, mas os episódios não são, no montante, ruins. No final das contas, mesmo com uma abordagem “olhando para fora” ainda é possível rir e se deliciar com algumas ideias de Community.

Entre a sua 1ª e 3ª Temporadas, Community foi para mim a melhor série de comédia em exibição naqueles anos. Mas os três anos seguintes não mantiveram esse patamar, cada um por diferentes motivos. Confesso que ficaria feliz em ver a série cancelada nessa 6ª Temporada, tanto pelo significado, quanto pela boa forma — técnica e conteudista — deste último episódio. No entanto, se o cancelamento não acontecer, estaremos diante de uma 7ª Temporada sob novos padrões de vida e compromissos para os personagens. Seria como começar uma nova série mas continuar sendo Community. E… bem, eu também gostaria de ver isso. Ficaria feliz com os dois. Mas mais feliz ainda se uma possível próxima temporada trouxesse a genialidade de Dan Harmon sem interferências forçadas ou quebras incoerentes e desnecessárias. Community já é louca e inteligente demais para apelar para isso com tanta frequência.

Community – 6ª Temporada (EUA, 2015)
Direção: Rob Schrab, Nat Faxon, Jim Rash, Bobcat Goldthwait, Jay Chandrasekhar, Victor Nelli Jr., Adam Davidson
Roteiro: Dan Harmon, Chris McKenna, Alex Rubens, Monica Padrick, Matt Lawton, Dean Young, Matt Roller, Carol Kolb, Clay Lapari, Ryan Ridley, Dan Guterman, Mark Stegemann, Briggs Hatton
Elenco: Joel McHale, Gillian Jacobs, Danny Pudi, Alison Brie, Jim Rash, Ken Jeong, Paget Brewster
Duração: 27 min. (cada episódio).

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.