Crítica | Como Treinar o Seu Dragão 3

como treinar o seu dragão 3 plano crítico animação

Nossa história mudou o mundo para sempre.

Os costumes estão aí para serem quebrados com valores, mas não necessariamente negando o legado. É surpreendente a maneira como a Dreamworks trouxe essa temática em pauta com uma linda história de amizade disfuncional entre um humano e um dragão conduzida por meio de uma singela trilogia. O primeiro capítulo era sobre a luta pelo sonho de um mundo novo, no qual Soluço acreditava que pudesse mudar o ambiente preconceituoso viking em relação às criaturas místicas, mesmo carregando em si o fardo de ser filho do chefe da sociedade. O segundo era sobre os desafios das mudanças, afinal, havia um preço a se pagar pela escolha da convivência selvagem e humanizada em ambientes agora adultos. E o terceiro e capítulo final fecha a jornada com esse mundo entregue, mas não exatamente da maneira imaginada.

De certo modo, toda a trilogia seguia de alguma forma a caminhos inesperados, mesmo com a obrigação de sustentar o senso aventuresco simplório para os olhos infantis, que funcionava mais pelo alavanque dos arcos dramáticos dos personagens, e as questões com eles em jogo, do que propriamente apenas o divertimento da aventura em si. Nesse sentido estrutural, fica repetitivo, e era até esperado que fosse assim a essa altura do campeonato, principalmente olhando o aspecto de divisão de atos como a trilogia se comporta, sendo esse apenas um desfecho do que foi apresentado nos outros. Até por conta disso, em níveis individualmente comparativos e nas questões subversivas de storytelling, esse fica abaixo, já que os conflitos são os mesmos, o embate à ameaça e as desculpas para ele existir partiriam de motivações colonialistas, assim como o próprio conflito interno de Soluço em ser um bom líder. 

A trama em si fica com um aspecto de extensão e reciclagem, com o extra da procura de um novo lar mais seguro, uma vez que todos os dragões possíveis já foram resgatados, mas ainda com um vilão para questionar a posição de Soluço e tirá-lo da zona de conforto e paz que ele proporcionou. Olhando desse jeito, pode até parecer mais uma daquelas continuações caça-níqueis da Dreamworks, normalmente apelando na vertente humorística para compensar o resto, porém de uma forma mais sofisticada, já que esse humor funciona em boa parte do tempo, graças ao carisma da dinâmica de Banguela com sua nova pretendente, ainda que essas cenas soem um pouco deslocadas da identidade geral da franquia. Contudo, essa desvirtuação faz sentido, principalmente diante da virada arrebatadora por vir.

Nela está o grande impulso da narrativa, finalizando o arco principal da trilogia com maestria, ao questionar o próprio título e proporcionar, além de uma inversão de valores ousada, uma despedida emocionante para uma das mais singelas amizades do cinema. O conflito de uma possível separação entre os dois ganha contornos maduros, e não óbvios, como era a impressão, a independência de ambos era necessária para seus fins, o que não tira a importância de quando eles estavam juntos, mas só a torna mais fidedigna. Ao desenvolver seus dilemas em separado, os espelhamentos naturalmente se complementam. É sobre a jornada de cada um para ser líder, mas mais que isso, é sobre cada um aprender a se desapegar, tanto um do outro quanto de ideais mitológicos: o local viking a ser preservado, a domesticação e o modelo patriarcal de proteção à família.

Os dragões, ao longo dos três filmes, ajudaram o povo de Berk a mudar essa perspectiva, agora é a hora de usar isso nas tomadas de decisão para a real mudança. A única ressalva a se fazer é que ela ficou muito centrada em Soluço e Banguela, deixando todos os papéis secundários como figuração, incluindo aí personagens importantes como Valka (mãe de Soluço) e Astrid (namorada dele), que tiveram mais influência nos filmes anteriores. O quarteto de amigos do primeiro filme então, nem se fala, reduzidos a piadistas (aí estão as partes em que o humor não funciona), mal são utilizados na química das cenas de ação, que também têm sua criatividade reduzida. Ainda que bem orquestradas visualmente, os desafios são induzidos por conveniências, como demonstra aquele soro do vilão, um artefato da mitologia criado apenas para esse filme, para que seja mais fácil o controle das criaturas.

Considerando os três filmes, este é o mais fraco, individualmente falando. E até por conta disso, Dean DeBlois o pensou como clímax de uma grande história linear dividida em três capítulos, que até pode vir a ganhar mais um no futuro, mas que teve o seu arco primordialmente idealizado muito bem concluído, fechando todas as pontas do universo e, principalmente, amadurecendo toda a sua ideia no desapego. Um desapego do tradicional que partiu de um sonho que também tinha que ser deixado. O dragão não pode ser treinado, mas é possível treinar com ele para aprender a possibilitar um mundo mais justo. E assim, temos uma das maiores trilogias da história das animações.

Como Treinar o Seu Dragão 3 (How to Train Your Dragon: The Hidden World, EUA – 2019)
Direção: Dean DeBlois
Roteiro: Dean DeBlois  (adaptação dos livros de Cressida Cowell).
Elenco: Cate Blanchett, Kristen Wiig, Gerard Butler, T.J. Miller, Kit Harington, Jonah Hill, Jay Baruchel, America Ferrera, Djimon Hounsou, Christopher Mintz-Plasse
Duração: 104 min.

IANN JELIEL . . . Um aspirante a engenheiro da computação que acabou descobrindo no cinema um refúgio para sair da engrenagem robótica da sociedade, como em "Matrix", onde tudo segue uma rotina protocolar implantada na mente. Olho a sétima arte como um quebrador desses paradigmas, capaz de nos fazer refletir sobre qualquer espectro existencialista da humanidade, e ao mesmo tempo nos encantar e entreter com suas milhares de histórias transcendentais em corpo e alma. Por isso, escrevo sobre ela, pois foi nos textos críticos que aprendi a olhá-la dessa forma libertadora, e espero libertar muitos da mesma forma.