Crítica | Complô Contra a América, de Philip Roth

SPOILERS!

Meu Complô Contra a América foi uma daquelas aquisições fortuitas de sebo virtual em que se combina preço baixo e um bom estado de conservação. Apesar de impressa em 2004 (na mesma data de publicação do romance, possivelmente uma das primeiras tiragens), fiz questão de que fosse assim, afinal as edições que rolavam do Philip Roth uns três anos atrás não eram das melhores. Isso mudou pouco tempo depois, após sua morte.

Malgrado o meu interesse pelo autor já estivesse desperto, não pude deixar de notar os blurbs estratégicos para vender o autor, que tinha poucos leitores de língua portuguesa na época. Um deles, escrito pelo prêmio Nobel J. M. Coetzee para o New York Review of Books, pareceu adequada à menção: “É preciso um leitor paranoide para transformar Complô Contra a América em um roman à clef para o presente. Contudo, uma das coisas de que trata o livro é, justamente, a paranoia”. Agora, com a adaptação para a HBO estrelada por Winona Ryder, dificilmente seria preciso muito esforço para vender Roth. Não obstante, a colocação de Coetzee, talvez por outros diversos motivos, seja ainda mais pertinente, nem que seja necessário refazê-la em outros termos.

Temos conosco uma família judaica de Nova Jersey sofrendo com os efeitos da Grande Depressão e do antissemitismo subjacente do entre-guerras, e que se depara subitamente com a ameaça de vitória eleitoral do republicano antissemita, simpatizante-ao-nazismo e “herói nacional” Charles Lindbergh, sobre o atual presidente, muito querido pela comunidade judaica, o democrata Roosevelt.

O livro parte de um contexto real para fantasiar a respeito de como teria sido se. O início da Segunda Guerra, a campanha de reeleição de Roosevelt e o fato de que um aviador chamado Charles Lindbergh foi celebrado nacionalmente por fazer a primeira travessia solitária pelo Oceano Atlântico no seu avião Spirit of St. Louis, além de ser reconhecido como um notório antissemita, tudo isso de fato ocorreu. A realidade dá lugar à ficção quando Lindbergh resolve se candidatar a presidência pelo Partido Republicano, ganhando por ampla margem do presidente Roosevelt e dando início a um período de incerteza para a comunidade judaica americana. Na vida real, Roosevelt se reelegeu e colocou os Estados Unidos na guerra – já em Complô Contra a América, é justamente a retórica “belicista” de Rossevelt e sua proposta de ajudar aliados da Europa que proporciona sua derrota para o “anti-guerra” Lindbergh.

A mistura de crônica pessoal e romance político, que justifica a necessidade de um post-scriptum, dão ao livro os contornos de uma sátira. É o cume do humor judeu e moralmente duvidoso de Roth, que se encontra agora com situações ainda mais graves e cheias-de-consequência. Um de seus méritos é, justamente, mostrar a intromissão dos eventos políticos no seio de sua vida familiar – qualquer um que tenha entrado em contato com política ainda quando criança vai se identificar com as impressões do autor. A paranoia de que fala Coetzee é intensificada pela onipresença desse narrador incauto, que muitas vezes assusta o leitor com conclusões neuróticas e precipitadas sobre os fatos. Sua descrição está maculada pelo trauma, pela neurose infantil. Isso, é necessário dizer, também rende os momentos em que dei as maiores gargalhadas. 

Tudo, no entanto, está envolto pela paranoia. E é dessa paranoia que surge uma miríade de personagens riquíssimos e muito divertidos de se descobrir. Eles formam inteligentes contrapontos, responsáveis por estruturar os grandes embates do romance. O conflito entre judeus insulares e judeus que “ascendem” ao posto de queridinhos da América protestante é, no entanto, o mais ubíquo e basilar entre eles e, sinceramente, o que mais contribui para a principal dúvida levantada pelo autor, e cuja resposta representada pelo final é extremamente ambígua. A família de Roth é um núcleo de paranoicos que entra em confronto com uma comunidade de judeus cada vez mais satisfeitos com Lindbergh, enxergando no medo subsequente à eleição do presidente puro delírio de judeus medrosos. A evolução da narrativa chega a sugerir, pelo ponto de vista do garoto Philip, que a razão está com aqueles que se resignaram à Lindbergh, um presidente que embora tenha manifestado um antissemitismo “irrefletido” e momentâneo, é na verdade um homem íntegro e desejoso pelo melhor do povo americano em geral.

Em uma leitura precipitada, seria possível afirmar que essa sugestão vai para o buraco com o final, onde toda a paranoia se concretiza de maneira repentina, irruptiva, louca e obscena, num espaço de tempo tão pequeno que ocupam apenas algumas páginas da bem linear narrativa temporal do romance. Não posso deixar de refletir que Roth está aí, também, nos satirizando. Não acho que ele seja pró-Lindbergh ou coisa do tipo, mas quero recuar diante de uma interpretação tão clara e com poucas nuances. Não se trata de colocar a moral de um lado da dicotomia, e sim de entendê-lo como um romance político marcado por maturidade e nebulosidade moral. Ao aliviar as nossas conjecturas mais perversas com uma explosão de acontecimentos sublimes, o importante é ler as entrelinhas. E ao mesmo tempo em que se afirma um exagero proposital do autor, tentando fazer ressaltar o seu sarcasmo e sua ironia, também é necessário enxergar os momentos em que ele está sendo literal. Essa ambiguidade acrescenta bastante à história, é impossível sair incólume depois de ter contato com a família Roth durante tantos momentos pessoais e dramáticos.

Talvez seja ingenuidade perguntar à Coetzee se, de fato, é preciso ser um leitor paranoide para transformar Complô Contra a América em um roman à clef para o presente. Entretanto, o que existe de literal na paranoia do livro traz sua identificação inexorável com a realidade. Se não em 2004, ao menos agora, com certeza.

Complô Contra a América (The Plot Against America) – EUA, 2004
Autor: Philip Roth
Editora: Companhia das Letras
Tradutor: Paulo Henriques Britto
482 páginas

PEDRO PINHO . . . Estudante corrente da Universidade de Brasília e chato o suficiente pra escrever besteira sobre um monte de coisa. Estranho falar sobre si mesmo na terceira pessoa, né? Pois é. Se você achou que eu falei muita merda, saiba que eu não me importo (mentira, comenta aí e bora conversar).