Crítica | Conan, o Bárbaro (2019) #1

O bárbaro cimério Conan é a grande criação de Robert E. Howard, vindo à luz, pela primeira vez, em 1932, por meio do conto A Fênix na Espada que já apresentava o personagem com rei do reino fictício da Aquilônia. Seu sucesso trouxe diversos outros contos relatando suas aventuras e, em 1952, poucos se lembram, veio a primeira quadrinização, publicada na revista mexicana Cuentos de Abuelito.

Mas o sucesso de Conan nos quadrinhos veio mesmo quando a Marvel Comics obteve a licença da propriedade, lançando o longevo título Conan, o Bárbaro em 1970 e que durou até a 275ª edição, em 1993. Claro que, nesses 2o e tantos anos na Marvel, outras publicações com o personagem foram lançadas, sendo uma das mais celebradas A Espada Selvagem de Conan, em preto e branco e formatão. Depois de 1996, porém, Conan foi para o limbo dos quadrinhos, voltando apenas em 2003, pela Dark Horse Comics que, por 15 anos, manteve o cimério vivo no imaginário popular.

Só que, como dizem por aí que o bom filho a casa torna, a Marvel readquiriu a licença do personagem (off-topic: preocupa-me o que isso pode significar financeiramente para a Dark Horse, já que Conan é a segunda grande propriedade licenciada que ela perde para a Marvel em poucos anos, a outra sendo Star Wars) e, a partir de janeiro de 2019, recomeçou seu trabalho com Conan, relançando a revista Conan, o Bárbaro que, apesar de ter levado o #1 em destaque na capa, manteve a numeração de legado como a editora vem fazendo com todas as suas publicações em sábia decisão. Em outras palavras, isso significa que a edição sob análise é a 276ª pela Marvel que carrega o título. E a promessa é. de um lado, que o passado não seja esquecido e, de outro, que seja fácil que novos leitores usem a publicação nova como “ponto de entrada”, sem precisar correr atrás do que aconteceu.

Essa tarefa é particularmente fácil em Conan, já que ele sempre foi brindado com histórias e arcos auto-contidos, com pouca influência da cronologia pesada sobre ele. Mas o respeito ao que veio antes surge logo na primeira página dupla da edição especial, que é uma grande e bela colagem de imagens do personagem-título por diversos autores ao longo das décadas e de diversas publicações, o que deixa entrever que realmente o legado terá pelo menos alguma influência na estrutura geral das histórias a serem contadas.

A homenagem a tudo o que veio antes.

Também mostrando respeito ao Conan clássico de Howard (e também ao filme de 1982, como quem o assistiu notará), Jason Aaron começa sua história com ele já rei e volta ao passado em um flashback que toma quase toda a edição e que nos conta como o bárbaro enfrentou a Bruxa Escarlate que deseja seu sangue para conjurar o demônio Razazel. Sim, reconheço que essa deve ser a premissa mais batida e clichê possível em se tratando de Conan, mas imagino que a escolha tenha sido deliberada, partindo do princípio de que, para um recomeço que não é bem um recomeço, o melhor é caminhar pela estrada mais viajada, do que já tentar algo ousado ou fora da caixa. Haverá tempo para isso, podem ter certeza.

Mas, mesmo considerando o quanto esse ponto de partida é comum, o texto de Aaron não é banal. Ao contrário, ao usar presente e passado de forma interligada e ao nomear o arco de A Vida e a Morte de Conan, ele empresta um veio de complexidade e de ambição à história que, por mais que não esteja de todo presente nesta primeira edição, é certamente possível entrever o potencial. Além disso, ele usa os clichês com o objetivo de construir Conan para todos aqueles que porventura ainda não conheçam o bárbaro. Há a “luta de fosso” clássica que abre a edição, a femme fatale misteriosa e assim por diante. Tudo está lá para restabelecer o personagem, para fazer uma espécie de supletivo da lenda dele de forma que a narrativa efetiva possa começar com todos os leitores mais ou menos em pé de igualdade.

Ajudando nessa tarefa, há a arte de Mahmud A. Asrar, que tem uma extensa carteira de obras pela Marvel, mas também pela DC e Image. Seu estilo é dinâmico e cru, com grande atenção no primeiro plano, sem firulas no segundo, deixando a ação falar o tempo todo. Suas duas versões de Conan, o rei e o bárbaro, são dignas do personagem, com tamanho e musculatura avantajados, bebendo de muitos autores de A Espada Selvagem de Conan. A violência é onipresente, sem ser gratuita completamente. Está lá também para construir o personagem como o guerreiro poderoso e invencível que é. Asrar parece ter um grande futuro a frente do personagem.

A volta da clássica HQ Conan, o Bárbaro é uma notícia alvissareira aos fás do Cimério. É torcer para que a publicação caia no gosto popular e que tenha vida pelo menos tão longa quanto sua primeira encarnação. Se formos julgar a partir do que Aaron e Asrar fazem aqui, o futuro de Conan em sua nova velha casa está garantido.

  • Voltaremos a escrever sobre Conan, o Bárbaro quando o primeiro arco da nova publicação for encerrado.

Conan, o Bárbaro #1 (Conan the Barbarian #1, EUA – 2019)
Roteiro: Jason Aaron
Arte: Mahmud A. Asrar
Cores: Matthew Wilson
Letras: Travis Lanham
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: 02 de janeiro de 2019
Páginas: 37

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.