Crítica | Conan, o Bárbaro (2019) – Vol. 1: A Vida e a Morte de Conan, Livro Um

Quando li Conan, o Bárbaro #1 (#276 na contagem de legado), que marcou a volta do Cimério para a Marvel Comics depois de 26 anos longe da editora, tive certeza de que o clássico personagem criado por Robert E. Howard estava em boas mãos com Jason Aaron no leme. No entanto, ao final do primeiro arco da nova série, que é o Livro Um da maxissérie A Vida e a Morte de Conan, minha percepção mudou. E mudou para melhor. O que Aaron faz nessas seis primeiras edições é algo tecnicamente simples, mas, na maioria das vezes, a genialidade esconde-se justamente nas coisas mais básicas.

Como mencionei na crítica da primeira edição, o ponto-chave desse (re)começo de Conan na Marvel é o respeito ao legado do bárbaro, algo um pouco mais fácil no caso dele já que, diferente dos super-heróis da editora, o peso da continuidade é bem menor, não sendo normalmente sentido nas aventuras do personagem. Mesmo assim, Aaron foi cuidadoso ao deixar bem claro, logo no primeiro magnífico spread da revista inaugural, que os grandes autores que trabalharam por décadas a fio com Conan seriam respeitados. Mais do que isso, Howard seria mais uma vez a grande fonte inspiradora para essa nova fase. E, com isso, na primeira história, Aaron nos introduz à Bruxa Escarlate, que deseja sacrificar Conan para que seu deus da morte, Razazel, possa mais uma vez caminhar pela Terra. Essa narrativa é enquadrada no começo e no fim com Conan já rei, e termina com ele capturado mais uma vez pela agora monstruosa bruxa, acompanhada de duas crianças de aparência inocente. Ou seja, apenas mais uma quarta-feira na vida de Conan.

No entanto – e é aí que a simplicidade genial de Aaron é revelada de verdade – o que se segue a essa primeira aventura é uma surpresa que dá robustez ao título épico do arco. No lugar de simplesmente continuá-la da maneira esperada, o roteirista nos faz passear por vários momentos e lugares importantes na vida do protagonista para reiterar o porquê da escolha de Conan pela bruxa: seu sangue tem mais valor por todas as vezes que ele resvalou na morte. Usando isso como desculpa narrativa, vemos, na edição #2, Conan, o Selvagem na região dos Pictos lutando contra serpentes-fantasma e encetando uma aliança inicialmente hesitante com seus inimigos, da mesma maneira que vemos, na edição #3, Conan, o Ladrão, prestes a ser executado por roubo de ouro na Nemédia. Depois, na edição #4, é, novamente a vez do Rei Conan na Aquilônia, só que ainda no começo de carreira (claramente inspirado pelo início do primeiro conto do personagem, A Fênix na Espada), inquieto e inconformado com a burocracia do que significa ser rei e achando uma válvula de escape sanguinária, somente para que, na edição #5 vejamos Conan, o Corsário lidar com uma ameaça lovecraftiana no navio condenado que comanda sozinho no Mar do Sul. Por fim, no número #6, quando achamos que Aaron voltará à narrativa que começara lá atrás, ele traz Conan, o Mercenário, em uma aventura na região desértica de Turan.

(1) Conan, o Corsário e (2) Conan, o Mercenário.

Em outras palavras, Jason Aaron não acaba a história que começa nesse primeiro arco, daí o uso de Livro Um para indicar o que parece ser a metade de uma grande história. Sua intenção aqui é outra bem diferente: ele constrói maravilhosamente bem a figura mitológica invencível de Conan, o Bárbaro. Àqueles que conhecem as histórias pregressas do personagem notarão as diversas menções a aventuras e contos anteriores e, aqueles que só ouviram falar dele, terão um mais do que perfeito ponto de entrada que funciona como uma amostragem robusta de tudo que Conan é e pode oferecer ao leitor. É como criar uma armadilha perfeita, em que leitores novos e veteranos são igualmente atraídos e presos pela estratégia quase insidiosa de Aaron de nos trazer todos os “Conans” que, no coletivo, fincaram-se profundamente no imaginário popular.

Mas não se enganem. Apesar de cada edição a partir e inclusive da segunda contar uma história solta de momentos diferentes da vida de Conan, todas elas são cuidadosamente escritas de maneira a oferecer leituras de se tirar o chapéu. O poder de concisão de Aaron é algo a ser louvado, assim como a variedade de situações em que ele insere o herói. De comum a todas há a invencibilidade e a inteligência de Conan e, bem lá no fundo, discretamente, a narrativa macro da Bruxa Escarlate que provavelmente será encerrada no próximo arco.

E essa multitude narrativa de Aaron é trazida à vida principalmente por Mahmud A. Asrar em uma arte dinâmica e crua, que sabe adaptar-se a cada demanda das histórias auto-contidas, seja retratando um Conan muito jovem ou já muito experiente, seja na terra ou no mar ou seja lutando contra humanos ou criaturas estranhas. Asrar consegue transpor à perfeição os variados textos de Aaron, sempre amplificando o caráter épico das aventuras do Cimério sem economizar na extrema violência e no tamanho descomunal e imponente do protagonista. Geraldo Zaffino desenha a edição #4, que lida com o Rei Conan em começo de reinado e seu estilo mais “rabiscado” e inacabado cai como uma luva para a história sendo narrada, já que reflete toda a inquietude do Cimério já maduro, mas ainda tão viciado em adrenalina como antes.

A volta de Conan à Marvel não poderia ser melhor. Há de tudo um pouco nesse arco inicial e creio que tanto leitores entrantes quanto os de longa data sairão muito satisfeitos do cardápio variadíssimo que Jason Aaron e Mahmud A. Asrar servem. A coisa toda é tão boa que fico até com receio se a dupla será capaz de continuar nesse nível de qualidade nas vindouras edições.

Conan, o Bárbaro – Vol. 1: A Vida e a Morte de Conan, Livro Um (Conan the Barbarian – Vol. 1: The Life and Death of Conan, Book One, EUA – 2019)
Contendo:
Conan, o Bárbaro (2019) #1 a 6
Roteiro: Jason Aaron
Arte: Mahmud A. Asrar (#1 a 3, 5 e 6), Gerardo Zaffino (#4)
Cores: Matthew Wilson
Letras: Travis Lanham
Capas: Esad Ribic
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: janeiro a maio de 2019
Páginas: 176

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.