Crítica | Conan, o Bárbaro: A Cidadela Escarlate, de Robert E. Howard

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SPOILERS!

A Cidadela Escarlate é a segunda história original de Conan, publicada em janeiro de 1933 nas páginas da revista pulp Weird Tales, onde o autor Robert E. Howard também fizera a estreia do personagem, no conto A Fênix na Espada. É bom destacar que nestas aventuras iniciais do personagem nós já o vemos mais velho, ponderado e coroado rei da Aquilônia. A cena inicial deste conto nos coloca no meio de um campo de guerra, ao fim de uma violenta campanha, e como diz o texto, “O clamor da batalha havia se encerrado; os gritos de vitória se misturavam ao choro dos moribundos“. Howard coloca na mente do leitor, desde o início, o ímpeto da peleja e é em torno da ira, da selvageria, do desejo de conquista e vingança a partir daí que ele irá desenvolver a história.

A primeira coisa que nos chama a atenção é a maneira como Conan é retratado. Sentimos o poder e a capacidade de dominação do personagem só pela excelente descrição das feições do bárbaro, assim como de seus inimigos que, à distância, miravam-no com grande temor. Tendo perdido a batalha em questão, Conan está mais ameaçador do que nunca e seu caminhar e primeiros diálogos são perfeitamente cinematográficos, o que é muito impressionante de se ver em um conto pulp de espada e feitiçaria datado de 1933. Sem a chatice simplista das descrições de lugares (principalmente em cenários nefastos) o autor alterna os momentos de ação e ameaça com os de demonstração mais detalhada de uma cena ou do comportamento do protagonista, com um resultado muito positivo. Em dado ponto da história, ele faz um resumo rápido das fases (ainda não exploradas na literatura) da vida de Conan, passando-lhe pelos olhos como naqueles momentos antes da morte:

“[…] um bárbaro vestido de peles; um espadachim mercenário usando um elmo com chifres e peitoral encouraçado; um corsário numa galera com um dragão na proa que trilhava uma rota de sangue e pilhagens ao longo das costas do sul; um capitão de exércitos trajando armaduras de aço polido e marchando para o ataque; um rei num trono dourado com a bandeira do leão esvoaçando ao alto e monte d bajuladores enfeitados e damas aos seus pés“.

Mas a melhor parte da saga está no segundo ato, quando, por um artifício do feiticeiro Tsotha-lanti, Conan é enfim capturado e levado para as cavernas de Korshemish, a capital de Koth. É uma verdadeira delícia lovecraftiana acompanhar aquilo que o autor nos reserva nesses subterrâneos. Se o texto já estava interessante no início e nas cenas iniciais dentro do castelo, com Conan sofrendo com os sentidos nublados e exprimindo um ódio indizível pelos seus captores, tudo ganha um força ainda maior quando ele chega à prisão. Primeiro, não temos muita certeza se o autor irá seguir com descrições de tortura ou feitiçaria, mas logo que Tsotha-lanti viaja e o primeiro grande horror local aparece, há uma explosão de nuances fantasiosas, opressivas e demoníacas, uma boa junção de mitologias que faz dessa prisão um lugar muito pior do que uma simples prisão.

Já o último ato nos traz de volta o espírito de guerra que abriu a narrativa, agora com um revés que dá gosto de ler. Embora eu veja alguns problemas de encadeamento dos diferentes núcleos nesse único lugar (e a conclusão para cada personagem, que tem seus atropelos), é inegável que esta última batalha é a grande demonstração de uma impiedosa vingança e momento em que Howard brinca um pouco com os modelos de organização social, com a volátil opinião pública — sempre que se vê em desespero e passa a clamar por um salvador — e também com um interessante contraste cultural entre povos e reinos, refletindo nas excelentes estratégias de organização dos Exércitos e hierarquia local.

Ainda vale citar que esta é uma das raras vezes onde vemos um feiticeiro (no caso, Pelias) se tornar aliado de Conan, e é engraçado que o personagem, mesmo estando ao lado de um mago que não o está desafiando, se sente desconfortável. Sua trajetória de vida mostra claramente o por quê dessa desconfiança e, a despeito do próprio Pelias, os tenebrosos eventos presentes — que vão de um breve olhar para o inferno até uma impossível batalha pelo trono e por um reino — são uma grande prova disso, fazendo de A Cidadela Escarlate uma amedrontadora, instigante e inesquecível história.

Conan, o Bárbaro: A Cidadela Escarlate (The Scarlet Citadel) — EUA, janeiro de 1933
Publicação original: Weird Tales (pulp magazine) — Rural Publishing Corporation
No Brasil: Conan, o Bárbaro – Livro 1 (Pipoca e Nanquim, 2017)
Autor: Robert E. Howard
Tradução: Alexandre Callari
55 páginas

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.