Crítica | Conan, o Bárbaro: O Colosso Negro, de Robert E. Howard

Apesar de representar um importante marco de mudança na vida de Conan — seguindo a cronologia de publicação dos contos de Robert E. Howard — , O Colosso Negro parece voltar um pouco às dispersões do autor em A Fênix na Espada e, com suas muitas mudanças de foco ao longo das páginas, perdemos uma boa dose do engajamento, por conseguinte, vendo cair também a qualidade trama.

Curioso que demora bastante até a verdadeira entrada do protagonista aqui. Inicialmente acompanhamos o relato em forma de crônica sobre o famoso ladrão zamorano de nome Shevatas. A ideia de Howard é clara, e a conhecemos muito bem do cinema, por exemplo: criar uma narrativa prévia, que coloca rapidamente o público em contato com uma força indescritível — força esta que ganhará maior destaque à medida que a história se desenvolve. Pois bem, aqui, a ideia era representar o despertar do sono de 3000 mil anos do “mago negro” Thugra Khotan, um despertar que vem com toda a sede de dominação possível das terras em torno do castelo no deserto, onde ele dormira por tanto tempo.

A narrativa inicial tem a força e os ótimos detalhes que encontramos nas obras de Howard, especialmente quando o autor pretende criar uma atmosfera de medo e ativar os sentidos mentais do leitor (até esse ponto, ele conseguira fazer tal exercício de forma excepcional em A Cidadela Escarlate). Particularmente gosto muito de histórias ambientadas em lugares que possuem uma certa mitologia embutida tanto em sua geografia quanto na cultura em torno desses lugares, como pântanos, mares, florestas, cavernas e, no presente caso, desertos. O problema é que a bela narrativa inicial é cortada de maneira nada orgânica e partimos para um outro bloco, agora com a princesa Yasmela, que no momento que governa o pequeno reino de Khoraja, uma das nações hiborianas.

Quando passa para este novo momento dramático, o texto demora um tempo até engrenar novamente, e aí já temos o primeiro efeito de afastamento do leitor. O bloco é, à primeira vista, um pouco menos empolgante que a missão de gatunagem de Shevatas no deserto. Descobrimos que o rei está mantido prisioneiro na nação vizinha de Ophir e que Yasmela tem a difícil tarefa de manter o reino vivo, antes de ser invadido e massacrado pela horda de Natohk (que na verdade é Thugra Khotan), formada pelos nômades do deserto mais indivíduos de diversas pequenas tribos da região. É importante levantar esse ponto, poque o próprio autor dá uma atenção enorme (e, a meu ver, desnecessária) à nomeação e localização desses grupos, o que serviria de grande valia se o conto tivesse a luta como atração verdadeira e principal, mas de novo, não é o caso.

A inserção das preces a Mitra e o encontro de Yasmela com Conan é realmente muito bom. Como apontei no início do texto, vemos o bárbaro comprometendo-se pela primeira vez com uma luta ao lado de um Exército com o qual verdadeiramente importa, não apenas seguindo até onde ia o dinheiro pago aos mercenários. Evidente que a beleza da princesa em questão tem muito a ver com isso, mas é muito interessante a forma como se dá o compromisso que leva Conan à liderança de um Exército. E como não podia deixar de ser, ele acaba vencendo a batalha. Não sou muito fã do processo de finalização da história, mas o autor tem uma notável prosa imagética, fazendo-nos “visualizar” a grandeza e barbaridade desse enfrentamento no deserto.

Quanto a última parte da saga, não temos nada elogiável em cena. Ações impulsivas, sem nenhum polimento e, novamente, desviando a atenção e o foco de um conto já carente de tudo isso. O elemento romântico tem um peso dúbio. Por um lado, eu acho fantástica a proposta do autor em contrastar algo tão vital e prazeroso quanto o sexo à carnificina absurda que acabara de acontecer. A intenção é lírica, mas não se encaixa bem no contexto e, convenhamos, Robert E. Howard era muito bom para escrever cenas de luta, intriga, magia e cenários de exploração, descobertas e contato com o macabro ou até mesmo com o divino. Mas cenas românticas definitivamente não estava entre as suas boas qualidades como escritor. Bem… pelo menos nessa primeira leva das aventuras do Cimério. O Colosso Negro é, portanto, o relato de um primeiro comprometimento de Conan com uma formalidade bélica na qual ele se empenhou para honrar. Infelizmente, porém, a estrutura da história não faz jus ao que ela traz de marcante para o personagem.

Conan, o Bárbaro: O Colosso Negro (Black Colossus) — EUA, julho de 1933
Publicação original: Weird Tales (pulp magazine) — Rural Publishing Corporation
No Brasil: Conan, o Bárbaro – Livro 1 (Pipoca e Nanquim, 2017)
Autor: Robert E. Howard
Tradução: Alexandre Callari
45 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.