Crítica | Conan, o Destruidor

John Milius acertou em cheio com Conan, o Bárbaro, uma adaptação que não só fez jus ao clássico personagem de Robert E. Howard, como também ajudou a catapultar a prolífica carreira de Arnold Schwarzenegger como um dos mais queridos brucutus dos anos 80. O sucesso do filme havia marcado as cartas e uma continuação era inevitável, mas o diretor e co-roteirista do original estava indisponível na época e os De Laurentiis e a Universal elegeram produzir uma obra que pudesse atrair público ainda maior, sacrificando, com isso, o grau de violência explícita.

E, assim, Richard Fleischer embarcou no projeto e levou para as telas a visão de Stanley Mann para Conan, visão essa que, de tão diferente da história originalmente criada pelos quadrinistas Roy Thomas e Gerry Conway, levou os dois a rejeitarem o produto final. Schwarzenegger, claro, voltaria para o papel, mas esse seu segundo Conan é tonalmente bem diferente do anterior, resultando em uma obra que, mesmo sendo melhor do que muita gente se lembra, não se aproxima da original, descambando para uma pegada cômica camp em uma história clichê e sem nenhuma imaginação ou senso de perigo.

Ainda lamentando a morte de sua amada Valeria, Conan é arregimentado pela Rainha Taramis (Sarah Douglas, a eterna Ursa dos dois primeiros Superman, com Christopher Reeve), de Shadizar, para levar uma loira virginal (Jehnna, vivida por Olivia d’Abo), acompanhada do gigante guarda-costas Bombaata (Wilt Chamberlain), em uma jornada para roubar um chifre mágico de valor inestimável, capaz de reviver um deus milenar. Com o fiel ladrão Malak (Tracey Walter em personagem que é inserido aqui sem cerimônia ou ligação com o filme anterior) a seu lado, Conan procura a ajuda do mago Akiro (Mako reprisando seu papel) e salva a guerreira Zula (Grace Jones) no processo, ganhando sua lealdade, com o grupo partindo para uma jornada cansada e repetitiva contra magos vilanescos e traidores assassinos.

O roteiro não sabe muito bem o que fazer com a história, por mais simples que ela seja, já que Mann simplesmente recicla suas próprias pobres ideias que gravitam entre o sequestro de Jehnna, Conan e Bombaata levantando portas, Akiro fazendo magia como se estivesse com prisão de ventre e Zula mostrando os dentes muito brancos entre um rosnado e outro. O texto é inábil em estabelecer ameaças e em dar função a qualquer personagem que não seja o próprio Cimério, este, claro, sempre pronto para brandir sua espada selvagem contra todo tipo de inimigo, inclusive monstros de borracha que não são muito melhores do que o Monstro do Pântano de Wes Craven de dois anos antes, mesmo considerando que eles foram criados por Carlo Rambaldi, um dos grandes nomes dessa área.

A decisão de suavizar a violência para conseguir a classificação PG (esse foi um dos últimos filmes “fronteiriços” a ficar com PG, já que o PG-13 seria criado mais para o final do mesmo ano) fica evidente na quase que completa eliminação do sangue, ainda que haja algum aqui e ali. Com isso, tudo ficou mais “limpinho e bonitinho” na fita, sem aquela guturalidade que tanto marcou o primeiro filme. Creio, também, que a falta de momentos chocantes acabou elevando a quantidade de tiradas cômicas – ou tentativas disso – ao longo de toda a projeção, começando com a repetição da rivalidade entre o bárbaro e o mesmo dromedário cuspidor que socara (e que realmente foi uma boa jogada) e continuando sem parar com a covardia constante do inútil Malak e a languidez brega de Jehnna que fica deslumbrada pelos músculos de Conan desde o primeiro segundo em que os vê.

Mas, dentro de sua proposta camp de um espada e sandália mais leve e inocente na linha de O Príncipe Guerreiro ou Krull, Conan, o Destruidor até que não é o horror total que minha memória (nada) afetiva imaginava. Schwarzenegger mantém sua impressionante presença em tela, há breves momentos com efeitos especiais interessantes como o do monstro alado em desenho diretamente no celuloide, a fotografia em exteriores naturais no México consegue ser por vezes bonita, ainda que não muito mais do que isso, e a espetacular trilha sonora de Basil Poledouris é relembrada, mesmo que com novos arranjos.

O Conan light de Richard Fleischer não honra nem de longe o de John Milius ou mesmo o personagem de Robert E. Howard, mas é uma obra passável, daquelas que divertirão o espectador em uma tarde chuvosa dentro de casa nem que seja pela tosquidão inescapável. Ao final, até fica aquela sensação de que foi uma pena que Schwarzenegger nunca tenha voltado ao papel que o consagrou.

Conan, o Destruidor (Conan, the Destroyer, EUA/México – 1984)
Direção: Richard Fleischer
Roteiro: Stanley Mann (baseado em criação de Robert E. Howard)
Elenco: Arnold Schwarzenegger, Grace Jones, Wilt Chamberlain, Mako, Tracey Walter, Sarah Douglas, Olivia d’Abo, Pat Roach, Jeff Corey, Sven-Ole Thorsen, André the Giant, Ferdy Mayne
Duração: 103 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.