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Crítica | Conquista Sangrenta

por Ritter Fan
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Cansado de mendigar fundos para seus filmes polêmicos em seu país natal, o cineasta holandês Paul Verhoeven ingressou em Hollywood com Conquista Sangrenta depois que a hoje finada mini-major Orion Pictures (em sua versão original, antes de ser adquirida pela MGM) resolveu bancar parte de sua obra baseada em roteiros originalmente escritos para a série de TV Floris, que, não por coincidência, marcou o início de carreira tanto para o diretor, quanto para o co-roteirista Gerard Soeteman e para o astro Rutger Hauer. O resultado foi um épico medieval caro e violento que, porém, foi um fracasso retumbante de bilheteria, daqueles que, em circunstâncias normais, encerraria a carreira de um diretor.

Mas, felizmente, sabemos que não foi isso que ocorreu e Conquista Sangrenta, muito ao contrário, pode ser visto como a financeiramente claudicante ponta de lança de uma carreira hollywoodiana invejável para Verhoeven que, dois anos depois, em 1987, dirigiu RoboCop, em 1990 O Vingador do Futuro e, em 1992, Instinto Selvagem, seguidos de Showgirls, Tropas Estelares e O Homem Sem Sombra, estes não tão bem recebidos, mas todos deixando sua marca única que reúne ousadia, violência, sexo e sátira na filmografia americana entre o final dos anos 80 e o ano 2000. Essa marca, aliás, está também presente em Conquista Sangrenta, mas a interferência criativa da produtora americana e também de outros investidores forçaram Verhoeven a fazer concessões, além de o filme em si ter recebido pouco investimento em publicidade. Só com o tempo mesmo é que o valor da obra foi vagarosamente sendo reconhecido, ainda que ele esteja longe de ser uma obra-prima como seria a produção seguinte do cineasta.

Passado em 1501, na Europa ocidental (nada é explicitamente indicado, mas a ação acontece na região do que hoje é a Itália, ainda que as filmagens tenham ocorrido na Espanha), o filme lida com um bando de mercenários liderados por Martin (Hauer que, com Feitiço de Áquila, vive seu segundo guerreiro medieval na Itália no mesmo ano) que, depois de ajudar o senhor feudal Arnolfini (Fernando Hilbeck) a recuperar sua cidade, são traídos por ele. Destituídos das riquezas do saque prometido e de suas armas, o grupo tem uma visão divina depois que acham uma estátua de São Martinho de Tours e passam a tentar vingar-se de Arnolfini, o que leva ao sequestro de Agnes (Jennifer Jason Leigh), que acabara de ser jurada em casamento para Steven (Tom Burlinson), filho do nobre e também inventor.

A sinopse já deixa claro o quanto o roteiro de Verhoeven e Soeteman é carregado de um peso de novela, com reviravoltas constantes, mortes que não são mortes, mudanças de lado e assim por diante, realmente dando a impressão de ser um longa formado de episódios de uma série de TV. A cola narrativa vem do surpreendente uso da personagem de Leigh que, sendo apresentada como uma inocente princesa, diante das circunstâncias em que se encontra logo adapta-se e revela-se como muito mais esperta do que o manual das “damas em perigo” exige. Com isso, há a criação de um estranho triângulo amoroso, primeiro com Agnes bizarramente jurando amor a Steven comendo mandrágora debaixo de dois corpos enforcados e putrefatos e, depois, transformando seu inevitável múltiplo estupro pelos mercenários de Martin em uma entrega aparentemente verdadeira ao líder do grupo, convertendo uma situação repugnante em outra menos pior, mas que Verhoeven faz questão de filmar de forma quase explícita, para realmente fazer o espectador virar o rosto, mas ao mesmo tempo atiçar sua curiosidade.

E, mesmo que Hauer e seu Martin sejam o grande foco da narrativa, a verdade é que o filme se sustenta muito mais pela situação criada pelo roteiro para Leigh e sua Agnes do que pelo episódico restante que trafega entre demonstrações de completa balbúrdia, infeções pela Peste Negra e muito do que o título original promete: carne + sangue. Diz a lenda que Verhoeven, irritado com os mandos e desmandos dos donos do dinheiro ao longo da produção, relaxou seu controle e deixou as filmagens ocorrerem mais, digamos, naturalmente, sem storyboards, sem muito apego aos diálogos do roteiro e com muita improvisação. Se isso é ou não verdade, Conquista Sangrenta indubitavelmente tem mesmo uma qualidade mais desregrada que por acaso combina com as atitudes e posturas dos mercenários que são máquinas de comer, beber, transar e matar, não necessariamente nessa ordem e nunca de maneira elegante.

Com isso, apesar dos exageros, a produção respira verossimilhança, sendo muito fácil acreditar em toda a construção da trama, por mais espaçada que ela seja e por mais que, por vezes, tenhamos que nos deparar com momentos um tanto surreais como o do “veículo blindado” que Steven inventa para atacar o castelo de Martin e salvar sua amada e que, no frigir dos ovos, em nada serve para a trama para além de ser uma maneira para lá de complexa de se colocar o personagem à mercê de Martin. Mas o carisma de Hauer e o ótimo papel entregue a Leigh – além de mais uma excelente trilha sonora de Basil Poledouris e a fotografia árida de Jan de Bont – servem para manter o conjunto narrativo e, mesmo não perfeitamente, segura em pé uma produção quebradiça e cheia de vai-e-vem.

Conquista Sangrenta é muito mais importante como o veículo de entrada de Paul Verhoeven no mercado hollywoodiano do que como filme em si, mas a produção indubitavelmente carrega as indefectíveis marcas do estilo do cineasta e sem dúvida merece a atenção que ganhou ao longo dos anos. Um épico medieval falho, mas com uma dupla protagonista poderosa e um grau elevado de anarquia violenta que prende a atenção.

Conquista Sangrenta (Flesh+Blood, EUA/Holanda/Espanha – 1985)
Direção: Paul Verhoeven
Roteiro: Paul Verhoeven, Gerard Soeteman
Elenco: Rutger Hauer, Jennifer Jason Leigh, Tom Burlinson, Jack Thompson, Fernando Hilbeck (como Fernando Hillbeck), Susan Tyrrell, Ronald Lacey, Brion James, John Dennis Johnston, Simón Andreu, Bruno Kirby, Kitty Courbois, Marina Saura, Hans Veerman, Jake Wood, Héctor Alterio, Blanca Marsillach
Duração: 126 min.

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