Crítica | Conta Comigo

“Mickey é um camundongo. Donald é um pato. Pluto é um cachorro. O que é o Pateta?”

Contém spoilers.

Quatro amigos movem-se em uma jornada à procura do cadáver de um garoto de sua idade. Esses meninos são crianças movidas por um senso de aventura presumidamente inocente, porém, bem mais corroborado por questões severas que atacam o seu cotidiano. Um deles é conhecido por conta de seus parentes criminosos. Um outro tem cicatrizes externas e internas causadas pelo seu pai com problemas mentais. O protagonista, por sua vez, precisa enfrentar a morte de seu irmão mais velho, tragicamente morto em um acidente de carro inesperado. Para eles, encarar um corpo morto pode vir a ser uma enorme curiosidade, no entanto, a jornada se provará muito mais significativa a esse grupo de garotos. É como um rito de passagem, separando uma infância que ainda se resiste enquanto infância, mais ingênua, de uma verdade mais dura a surgir posteriormente, com o amadurecimento. Conta Comigo, inspirado em O Corpo, de Stephen King, se sustenta nesse macabro ainda distante, separado por quilômetros e quilômetros de terra a serem cruzados. Mas quando precisa encontrar esse terror por fim, a competência não é a mesma.

Uma passagem é marcante nesse sentido, enquanto os meninos trocam ideias sobre coisas, como o narrador aponta, que tornariam-se irrelevantes para adolescentes mais velhos já interessados em garotas. Mas é muito menos preocupante a vida quando questionar qual animal é o Pateta permanece sendo uma pauta importante. Em meio as desventuras dos moleques, o cineasta Rob Reiner conduz uma unidade com bastante coesão, querendo trazer os espectadores para uma jornada de transição. Eles ainda são crianças, mas prestes a se tornarem mais velhos. Não é uma coisa e nem outra. O macabro está sempre associado com momentos mais leves, instigando o amadurecimento e sugerindo-o com cuidado. Os garotos, por exemplo, estão constantemente empunhando armas, porém, o amadurecimento só virá quando ela for apontada para alguém. Já Ted Duchamp (Corey Feldman) quer, em uma cena, desviar de um trem em movimento, objetivo que ganha contornos mais graves momentos depois. Em meio a isso, uma trilha-sonora com composições da época agraciam o senso despreocupado que continua em meio a breves agonias.

O cineasta Rob Reiner coleciona segmentos espirituosos e unidos por um prenúncio a uma resolução transformadora. Chega-se a um ápice da mistura com a cena das sanguessugas e encontra-se uma mudança com a descoberta do corpo. Os problemas moram nos propósitos disso tudo, que são construídos mal. Há uma uniformidade um tanto inesquecível no projeto inteiro, que o tornou relevante para gerações de amantes do sub-gênero do coming-of-age. Em contrapartida, Conta Comigo não consegue alcançar um lugar sinceramente sólido para além de uma aventura mais rasa, equivocando-se em concretizar com mais propriedade dramática a mescla entre a ingenuidade e o macabro. Os dramas pessoais dos personagens, por exemplo, são vistos de maneira muito burocrática, principalmente por conta da intromissão de um narrador. Richard Dreyfuss revisita a sua própria história, encarnando-se no passado através do personagem de Gordie Lachance. É até estruturalmente desengonçado o uso dos flashbacks com a presença de John Cusack, porque, teoricamente, a aventura que presenciaremos será um gigante flashback.

Com mudanças da resolução original, o rito também não se concretiza bem no término da obra, muito apressado. As consequências para as vidas desses atores-mirins são mais fiéis, curiosamente, que o próprio longa. River Phoenix, vivendo Chambers, por exemplo, morreria apenas alguns anos depois, interrompendo uma carreira extremamente promissora. É um encerramento até mesmo próximo ao de seu personagem, que viria a ser assassinado mesmo tendo aproveitado as chances ganhas na vida. De todos os atores, Phoenix também é o único que estava – e com justiça – conseguindo crescer após esse primeiro papel. A sua interpretação em Conta Comigo é realmente a mais marcante, bem mais que a do protagonista em si, vivido por um fraco Will Wheaton. River convence dramaticamente e sem ter o mesmo respaldo narrativo que o personagem de Wheaton tem, presente em várias cenas de memórias com seu irmão morto. O drama vivido por Gordie, por conta disso, ganha espaço demais para ter peso de menos. Juntamente a esse ator, os demais membros do elenco construiriam carreiras muito inconsistentes.

Como em Conta Comigo, portanto, nada para essas pessoas se aproximou das aventuras aos 12 anos que viveram. O enredo narra os últimos passos de uma irmandade que ainda conseguia, naquela época, manter a pureza da infância, ansiando por ver um corpo morto pela primeira vez, mas apenas para que, quando visse, percebesse já ser impossível dar um passo para trás. Gordie retorna ao seu passado com nostalgia, anterior às transformações que mudariam ele e os seus amigos eternamente. O roteiro não se preocupa pelo depois, com o que aconteceria objetivamente com a gangue envolvendo o antagonista interpretado por Kiefer Sutherland. Isso é um problema para sustentar o peso do que transformaria os jovens, assim como o objetivo do longa-metragem. O uso do narrador termina sendo um imenso simplificador daquilo que, na verdade, poderia ser a essência da obra. A caminhada de retorno à casa, por exemplo, é resumida expositivamente. Esse coming-of-age de Stephen King, mesmo assim, compreende o rito de passagem de uma geração com bastante precisão, saindo dos menos agressivos anos 50 para partir aos provocantes anos 60.

Conta Comigo (Stand By Me) – EUA, 1986
Direção:
 Rob Reiner
Roteiro: Raynold Gideon, Bruce A. Evans (baseado no romance de Stephen King)
Elenco: Wil Wheaton, River Phoenix, Corey Feldman, Jerry O’Connell, Kiefer Sutherland, Casey Siemaszko, Gary Riley, John Cusack
Duração: 89 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.