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Crítica | Contos da Selva, de Horacio Quiroga

por Leonardo Campos
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Numa pesquisa recente sobre filmes sobre “insetos assassinos”, ocasionada pela curiosidade diante das vespas que ganharam o noticiário depois de uma suposta invasão em terreno estadunidense, com a morte de um homem, inclusive, deparei-me com um antigo clássico da era do VHS, conferido diversas vezes em momentos de diletantismo adolescente. O tal filme dos anos 1990 era Skeeters – Asas da Morte, produção que na capa trazia um texto de efeito para os espectadores: “a natureza não reage, ela se vinga”. Na maioria dos filmes oriundos do horror ecológico, subgênero que mescla aventura e terror, os animais reagem diante da invasão dos humanos em seus respectivos espaços, chegada que nem sempre é por mera curiosidade, mas geralmente acompanhada de destruição e extermínio. Em Contos da Selva, punhado de fábulas do escritor uruguaio Horacio Quiroga, os animais não querem vingança. Buscam apenas proteção.

Ao acompanharmos as histórias entre espécies em conflito, seja com o seu “outro” ou o homem, percebemos as ações selvagens como instinto, afinal, nenhum animal tem o prazer em matar um ser humano ou qualquer outra espécie da natureza numa ação que não seja para se defender ou se alimentar. Em seu contato com os bichos da floresta, geralmente os seres humanos se colocam numa posição de superioridade, numa administração dos bens naturais como se fossem exclusivamente seus. Por isso, como exposto anteriormente, os animais não querem se vingar, mas apenas se defender. O fato de não querer não significa necessariamente que sejam firmes neste propósito, pois no terreno da fábula, espaço de suspensão da descrença, os animais adquirem posturas humanas e vice-versa. Não querer é um desejo. Se vingar por “impulso” de seus instintos descontrolados é outro, afinal, são animais, não é mesmo?

Lançado em 1921, Contos da Selva é uma coletânea que nos apresenta flamingos, jacarés, papagaios, onças, tartarugas, veados e outros bichos da selva em situações contornadas por humor e aventura. Algumas mais leves, outras mais soturnas. Aqui o homem flerta com o lado selvagem em paralelo com sua humanidade, numa reflexão consigo mesmo ou com a selva, quando é colocado diante dos animais. É a alteridade em simbiose com o fantástico que retrata percursos em meio aos abundantes elementos da flora sul-americana, frondosa e misteriosa, palco para os acontecimentos distribuídos nas oito histórias. O escritor, expoente do realismo fantástico e com uma jornada biográfica peculiar, tal como exposto nas críticas de Cartas de Um Caçador e Anaconda, desenvolve nas produções selecionadas em Contos da Selva, o seu olhar mais brando e menos violento dos embates ecológicos das fábulas que vão além do moralismo.

O conto “A Tartaruga Gigante” é o mais comum do conjunto, antecipação para a deslumbrante saga dos flamingos em busca das roupas ideais para o baile das cobras, conteúdo de “As Meias dos Flamingos”, jornada sobre transformação e relacionamentos entre “tribos”, um conceito que seria desenvolvido nos estudos sociológicos mais adiante. Em “O Papagaio Pelado”, uma ave e uma onça estabelecem um jogo de vítima e algoz, história permeada por muita ação e desfecho com reviravolta para o lado humano que adentra o esquema selvagem. “A Gama Cega” é uma fábula sobre a teimosia e as descobertas juvenis, com o final feliz entre um veado e um homem que o salva. A “interação” entre uma serpente e uma abelha é construída com humor em “A Abelhinha Malandra”, fábula que traça uma relação intertextual com A Cigarra e a Formiga, de Fontaine. Outras convivências entre seres podem ser vistas em “A Travessia do Yabebirí” e “História de Dois Filhotes de Quati e de Dois Filhotes de Homem”. No divertido e mais movimentado “A Guerra dos Jacarés”, homens e répteis se enfrentam numa aventura com elos de Moby Dick, de Melville.

Enquanto estrutura, a edição analisada traz, da Iluminuras, traz os oito contos diagramados com ilustrações nas 128 páginas do livro, traduzidos com eficiência por Wilson Alves Bezerra, versão lançada no Brasil em 2012, com capa assinada por Carlos Clemén, também responsável pelas ilustrações que acompanham os textos.  Ademais, repleto de humor, lições pedagógicas e críticas sociais relevantes, Contos da Selva apresenta ao seu leitor um mundo de animais falantes, aventuras eletrizantes e a sensação de que nós, leitores, compartilhamos das mesmas emoções, aterrorizantes ou divertidas, de um lugar tomado pelo mítico, expressadas pela escrita firme de Horácio Quiroga, consciente da adequada manipulação do realismo fantástico no desenvolvimento de suas histórias que falam sobre a diversidade étnica, social e religiosa do mundo que habitamos.

Contos da Selva (Uruguai, 1922-1924)
Autor: Horacio Quiroga
Tradução: Wilson Alves-Bezerra
Editora no Brasil: Iluminuras (2007)
Páginas: 127

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