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Crítica | Contos de Terramar

por Luiz Santiago
1272 views (a partir de agosto de 2020)

Dentre as muitas coisas das quais Contos de Terramar sofre, eu poderia dizer que a primeira delas tem a ver com a sua casa artística, o Estúdio Ghibli, e o sofrimento, claro, é o peso da absurda excelência deles. Deixemos de lado os medalhões eternos e brilhantes do estúdio. Mesmo se a gente olhar para obras pouco conhecidas do grande público lançadas até aquele momento, como Memórias de Ontem (1991), Eu Posso Ouvir o Oceano (1993), Sussurros do Coração (1995) e O Reino dos Gatos (2002), não temos um único filme da casa que seja menos que ótimo. Na verdade, se a gente analisar a história de produção do Estúdio desde a sua origem, chegaremos à conclusão de que Terramar é a verdadeira grande decepção casa até o momento em que escrevo essa crítica (2021), já que o filme menos notável de toda linha do tempo deles foi PomPoko: A Grande Batalha dos Guaxinins (1994) e, ainda assim, trata-se de um filme genuinamente bom! E é aí que chegamos ao nível de decepção — e de outros problemas — dos quais sofre essa estreia de Gorô Miyazaki  na direção.

Esta animação é uma adaptação do icônico Ciclo de Terramar (The Earthsea Cycle, 1968 – 2001), série literária da grande Ursula K. Le Guin, que depois de muitos anos negando os direitos autorais para qualquer adaptação da saga, acabou cedendo-os para que o mestre Hayao Miyazaki (repito: Hayao Miyazaki!) fizesse mais um de seus milagres. O que veio a seguir foi uma mistura de péssimo timing com pitadas de traição do Ghibli a Le Guin.

Quando as negociações para os direitos da série enfim se concluíram, Hayao Miyazaki estava sobrecarregado com a produção de O Castelo Animado (2004), o que o impedia de se envolver com essa fantasia clássica. E mesmo contra a vontade do diretor, o produtor Toshio Suzuki insistiu na ideia de entregar a direção a Gorô Miyazaki, filho do mestre da casa; e basicamente porque Gôro era um grande fã do original. A escolha, todavia, não poderia ser pior. Este não só era o primeiro longa metragem do Miyazakizinho, mas também um drama de grande peso na literatura de gênero, o que exigia um cineasta experimente no comando… isso sem contar a traição imediata feita à autora, que confiou a obra a Hayao. No máximo, o que poderiam fazer aqui era escalar Isao Takahata para guiar a fita. Mas não foi o que fizeram.

Como resultado, o que temos em Terramar é o primeiro e único longa medíocre do Estúdio Ghibli, e essa visão se dá primeiro no âmbito de contexto e conceito de produção, afinal, é o filme de um “Estúdio-Marca”, um local de altíssima qualidade do qual se espera nada menos que grandes obras. E segundo, no âmbito da diferença entre a parte visual e a trilha sonora da película (absolutamente fascinantes) e o seu confuso, fraco, insosso e chateante roteiro, escrito por Gôro em parceria com Keiko Niwa. Na trama, entendemos desde muito cedo que algo de errado está se passando nos recônditos do Reino de Terramar. O primeiro indício disso é o comportamento totalmente fora da curva dos dragões, o que acaba mobilizando um dos arquimagos mais poderosos do mundo a uma jornada de investigação.

O princípio da narrativa tem as doses básicas e engajantes da fantasia, uma sensação que cresce em algumas cenas mais à frente, quando a primeira grande cidade aparece e temos um gostinho daquilo que sabemos ser a essência do Ghibli. O desenho de produção aqui mistura alguns elementos arquitetônicos e de navegação da Antiguidade Tardia, mas a cara da obra é verdadeiramente Medieval. Muitas cores saturadas, detalhes milimétricos nos desenhos da grande cidade, das ruínas, dos barcos e das vestimentas, especialmente no ato inicial, tornam o filme visualmente incrível e faz jus ao Universo que adapta para as telas. Quando o arquimago se encontra com Arren, o filme reforça o tom de mistério que ficou desde as reticentes cenas iniciais e, desse momento em diante, o máximo que conseguiremos é aproveitar parcialmente as linhas narrativas da fita. Isso porque nenhuma delas consegue um desenvolvimento pleno a partir de seus personagens (todos com diálogos mal escritos) e os mistérios em torno da “escuridão interior” de um jovem personagem, o mistério na pessoa de um outro personagem importante, o mal desenvolvimento do vilão e o Deus Ex Machina que assoma ao final do filme.

Musical e visualmente, Contos de Terramar tem todo o charme que um filme desse porte poderia ter. Mas quando passamos para a história que deveria preencher esse esqueleto formal, não conseguimos nada a mais do que as falhas de um marinheiro de primeira viagem na direção, tendo nas mãos um roteiro ambicioso na criação de mundo, mas fraco no que diz respeito aos indivíduos que deveriam dar sentido a esse espaço. Aquele tipo de obra onde a sequência de decepções parece inacreditável. E fica ainda pior quando paramos para imaginar de onde vem esse caminhão de decepções.

Contos de Terramar (Gedo senki) — Japão, EUA, 2006
Direção: Gorô Miyazaki
Roteiro: Gorô Miyazaki, Keiko Niwa (baseado em um conceito de Hayao Miyazaki e no romance de Ursula K. Le Guin)
Elenco: Jun’ichi Okada, Aoi Teshima, Bunta Sugawara, Yûko Tanaka, Teruyuki Kagawa, Jun Fubuki, Takashi Naitô, Mitsuko Baishô, Yui Natsukawa, Kaoru Kobayashi
Duração: 115 min.

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15 comentários

Jean 🐰 1 de maio de 2021 - 15:05

E pensar que esse sempre foi visto pela maioria como o pior do Ghibli. Bem, parece que Goro se “superou” e Aya to Majo vai receber essa desonra rs.

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Luiz Santiago 1 de maio de 2021 - 15:22

Misericórdia!

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Miguel Galli 1 de maio de 2021 - 04:49

Fascinante do começo ao fim, uma obra não precisa repetir padrões, só leio críticas negativas sobre esta animação, e me sinto privilegiado por ter curtido tanto; tem porcarias do estúdio que são cultuados; prefiro enxergar por mim !

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Luiz Santiago 1 de maio de 2021 - 05:16

Que “porcarias” do Ghibli, segundo você, “são cultuadas” no lugar de Terramar?

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Rafael Miranda 1 de maio de 2021 - 04:16

Não me arrependo de ter assistido, mas de fato é a ovelha negra do Studio Ghibli. Bela matéria, falou tudo – gostei como mencionou PomPoko, que por mais obscuro que seja é muito cativante e divertido.

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Luiz Santiago 1 de maio de 2021 - 05:17

Eu também não me arrependo de ter assistido não. Apesar de achar o filme medíocre no todo, teve momentos que consegui me divertir sim! E PomPoko é uma graça!

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WAGNER ANDERSON SOARES RODRIGU 30 de abril de 2021 - 16:59

Filme bem desconhecido.

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Luiz Santiago 30 de abril de 2021 - 20:09

Pouca gente conhece esse mesmo. Falar que é do Ghibli, até choca alguns!

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Kevin Rick 30 de abril de 2021 - 09:13

Ótima crítica! Não sei se lembra, mas esse foi um dos filmes que me trouxe ao site. Um dos primeiros que escrevi. Estava completamente sofrível, mas minha opinião é bem próxima da sua. O Gorô tem um problema gigantesco com diálogo e narrativa, algo que seu pai sempre foi perfeito em conectar ao visual, não sendo capaz de proporcionar interesse em seus personagens. Acho que a obra tem uma mensagem curiosa, pois em vez de uma história superficial do bem contra o mal, Contos de Terramar é uma fábula sobre enfrentar seu próprio lado negro e aceitar sua mortalidade e as limitações da condição humana. Mas isso é bem mais mérito da Le Guin do que necessariamente do Gorô, que falha enormemente em desenvolver as linhas narrativas do filme em algo engajante e emocionante como normalmente vemos no Ghibli. Uma decepção total de um dos maiores exemplos de nepotismo no Cinema HAHAHAHA

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Luiz Santiago 1 de maio de 2021 - 05:25

De fato temos visões bem similares em relação ao filme. Essa construção de uma versão sombria interior é até introduzida lá no começo da animação e depois ele tenta dar um bom andamento nisso, mas o tombo é gigantesco. A coisa realmente não funciona, é simplesmente frustrante. A coisa é enredística mesmo. O roteiro é ruim em desenvolvimento da história central e principalmente em tornar seus personagens em ícones, o que é a regra para qualquer coisa que o Ghibli fez antes e faria depois… bom, pelo menos até nas produções lançadas até 2021 hahahhahahaha

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Felipe Silva 30 de abril de 2021 - 04:13

triste demais o quão fraco é esse filme, quando assisti fiquei sem entender porque achei tão mediano pra baixo. Fui pesquisar e vi a direção, daí se começa a entender. Depois de ler sua crítica, foi pior ainda, afinal o material fonte parece ter extremo potencial

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Luiz Santiago 1 de maio de 2021 - 05:27

A decepção com esse aqui é grande mesmo. Visualmente e em relação à trilha sonora, é uma lindeza. Mas a história… é difícil. Muito confusa, toda atropelada, umas falas sem graça, sem peso. Parece um DreamWorks genérico! HAUHAUAHUHUAHUAHUHA

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Rodrigo Patini 3 de maio de 2021 - 02:21

Ô, Prof. Santiago, “DreamWorks genérico” é redundância!
As aulas online estão cobrando o preço, hein!?!

Responder
Luiz Santiago 3 de maio de 2021 - 02:37

HUAHUAHAUHAUHAUHUAUAHAUHAUAHAUHAUAHAAH e não é que é verdade, menino! Olha a cabeça da gente onde que já tá! 😀

Responder
planocritico 3 de maio de 2021 - 02:44

@rodrigopatini:disqus DESTRUINDO, com a verdade nua e crua, todo o especial DreamWorks que está rolando pelas mãos do Iann e do Davi…

HAHAHAHAHAHHAHAHAHAHAHAHAHAHHAHAHA

Abs,
Ritter.

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