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Crítica | Contos dos Orixás

por Rodrigo Pereira
255 views (a partir de agosto de 2020)

Se dentro do cinema vimos a exaltação de culturas africanas atingir aclamação global de público e crítica com Pantera Negra, dentro do mundo dos quadrinhos temos Contos dos Orixás, uma obra brasileira de grande qualidade, que aborda temas semelhantes e que merecia destaque e aclamação similares ao filme do nosso príncipe/rei wakandiano favorito.

Com roteiro e arte de Hugo Canuto, a obra independente conta a história dos Orixás, deuses e heróis nascidos no Aiyé (o mundo físico) que atingem esse nível por grandes realizações, como se fosse um típico quadrinho de super-heróis escrito pelas gigantes da indústria. Tudo que os leitores de quadrinhos estão acostumados está presente: grandes figuras heróicas e vilanescas, demonstrações de poderes dos mais variados e interessantes, ações surpreendentes e inusitadas e grandes confrontos com cenas de tirar o fôlego. Mesmo que siga uma linha narrativa bastante comum dentro do gênero, é bem construída e consegue prender nossa atenção até o final.

Apesar da obra possuir uma dinâmica de grupo, principalmente da metade em diante, o protagonismo da aventura existe e fica a cargo de Xangô, o rei da cidade de Oyó e Senhor do Trovão. O desenrolar da trama se dá quando Larô, rei de Oxogbô, vai ao reino de Xangô pedir ajuda na luta contra Ajantala, um poderoso guerreiro munido com magia ancestral, e seu exército, a temida Manada, que visam conquistar a cidade às margens do rio Oxum e todo o poder que envolve o local. Sabendo do perigo que tal poder em mãos erradas pode trazer para seu povo no futuro, Xangô aceita ajudar Larô e lidera um exército ao lado de Iansã, rainha e Senhora dos Ventos e Tempestades, contra o forte guerreiro.

A relação desenvolvida por Xangô e Iansã, inclusive, é algo bastante positivo na obra. Ambas personagens têm suas (fortes) personalidades destacadas, criando um estreito laço de companheirismo e afeto que expressa bem seus sentimentos um com o outro, mesmo em meio a uma iminente guerra e tomadas de decisões que caem sob quem usa a coroa. E quando refiro-me a coroa não é restrito ao rei. A típica submissão de personagens femininas perante personagens masculinos é rechaçada aqui, sendo possível identificar que o poder, influência e respeito que Iansã detém em seu reino é idêntico ao de Xangô (em determinados momentos, parece possuir até mais prestígio, como é mostrado entre os integrantes do conselho real).

Também é interessante as relações mostradas entre os representantes da cidade da savana (Oyó) e às margens do rio Oxum (Oxogbô). Quando Ogum, o Senhor das Duas Espadas e maior guerreiro de Oxogbô, junta-se ao exército de Xangô, apesar do grande respeito existente, é perceptível o embate das personalidades. Enquanto Xangô, representado pelo fogo, é impulsivo, Ogum, ligado ao ferro, desenvolvimento da humanidade e principal guerreiro da cidade da água, é mais pragmático e estrategista, algo que causa certo acirramento no modo em como a caravana de guerreiros deve continuar sua jornada até Oxogbô. Essa dinâmica que Canuto trabalha os elementos primordiais e transfere para como cada personagem agirá, tornando-se uma personificação híbrida entre entidades e elementos, é realmente interessante.

Interessante tal qual a arte do autor, uma homenagem direta ao grande Jack Kirby. As cores vivas e fortes e o traço semelhante a um dos maiores nomes da história da Marvel e da nona arte são uma belíssima homenagem de Canuto à Kirby e um dos pontos mais altos da obra. Apesar de sentir falta de quadros mais abertos e que explorassem melhor o cenário em alguns momentos, principalmente nos combates, a beleza estonteante das vestimentas, armas, poderes e, especialmente, cidades que o artista nos presenteia é digna dos melhores elogios possíveis e até de comparações positivas com o mestre nova-iorquino. A batalha final, muito bem dividida em três núcleos de enfrentamento que ocorrem simultaneamente sem fazer a trama perder ritmo, é, sem dúvidas, o ponto alto da história e consegue arrepiar o leitor com as magníficas demonstrações dos poderes dos personagens. Uma ótima maneira de conhecer mais sobre os orixás e religiões de matrizes africanas ao mesmo tempo que se diverte e colabora com o desenvolvimento da arte brasileira.

Contos dos Orixás (Brasil, 2018)
Roteiro: Hugo Canuto
Arte: Hugo Canuto
Cores: Hugo Canuto
Editora: Independente
Páginas: 120

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13 comentários

Thor Odinson 6 de agosto de 2020 - 14:45

História muito boa. Gostei muito, a arte é maravilhosa e faz uma grande homenagem ao Jack “o rei” Kirby, porém vai além com uma identidade e um estilo próprio. É uma obra que nos ajuda a conhecer e aprender mais sobre a cultura afro-brasileira que é muito rica e interessante, mas que infelizmente é menosprezada e alvo de preconceito.

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Rodrigo Pereira 6 de agosto de 2020 - 17:04

Concordo em todos os aspectos! É um ótimo exemplar de como aprender se divertindo, além das belas homenagens. Logo pretendo relê-la para viver essa experiência novamente.

Abraços!

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Luiz Santi🦎Zilla 20 de abril de 2019 - 03:02

Acabei de ler e tô felizão pra caramba com a qualidade dessa obra. Gostei bem mais que você, daria nota máxima, mesmo entendendo a sua colocação sobre os quadros maiores a fim de dar mais contexto a algumas cenas. Mas isso, confesso, não me incomodou em nada.

A arte é um negócio de outro mundo. Que troço lindo! A homenagem ao Kirby é patente, mas vai além. Tem um caráter próprio, com um cuidado lindo na representação das vestimentas e também das cidades, tanto na arquitetura quanto nas cores e até rituais ou modo de organização e recepção de forasteiros. Eu amei demais tudo isso.

Espero de coração que o autor faça um livro para cada um dos principais do panteão africano hehehehehehehe. Eu fiquei fascinado por essa história, sério.

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Thor Odinson 6 de agosto de 2020 - 14:45

Realmente, seria muito legal ter histórias focadas nos outros Orixás.

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George Hora 10 de abril de 2019 - 22:30

A obra é muito boa e importante, em especial nesse momento de avanços de atos de racismo religioso, a possibilidade de um olhar “pop” sobre as culturas africanas que influenciam religiões afro-brasileiras foi um grande sacada de Canuto, a historia e fluida e a revista muito bonita, vale a pena.

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Rodrigo Pereira 11 de abril de 2019 - 13:45

Adorei teu comentário porque foi exatamente o que senti ao ler. A história, ao mesmo tempo que se encontra muito bem dentro da cultura pop, aborda de forma maravilhosa as culturas africanas. Serve tanto como exaltação dessas culturas como objeto de combate ao racismo religioso, além, claro, de ser uma leitura muito gostosa e esteticamente linda. Vale muito a pena.

Abraços!

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George Hora 12 de abril de 2019 - 20:16

Abraços

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Rodrigo Pereira 13 de abril de 2019 - 14:20

Agradeço pelo toque. Como Ogun aparece na história como maior guerreiro de Oxogbô, acabei misturando as bolas e interpretei errado. Ajustarei isso no texto para que fique de acordo.

Obrigado e abraços!

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George Hora 14 de abril de 2019 - 16:19

Estamos aqui pra somar, de qualquer forma Hugo gostou muito da crítica, creio que vá postar nas redes sociais dele, mais uma vez saliento a qualidade dos textos e comentários do site, parabéns.

Rodrigo Pereira 16 de abril de 2019 - 16:13

Esse é o tipo de comentário que me deixa muito feliz e com vontade de seguir produzindo. Acredito que falo em nome de todos no site. Obrigado pelas palavras e conversas por aqui.

Abraços!

George Hora 12 de abril de 2019 - 20:23

Só um pequeno adendo, irmão. Ogun não tem ligação com as águas, esse elemento é sempre associado as divindades femininas, Oxun cumpre essa função na historia, Ogun é ligado ao desenvolvimento da humanidade, criação de tecnologias, guerra, agricultura e vinculado ao ferro, Xangô é o fogo do vulcão incontrolável, Ogun é a representação do calor usado em beneficio da humanidade através da forja.

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Lucas Casagrande 10 de abril de 2019 - 11:45

Que interessante, parece ser bem legal

Coisa nova e ainda por cima nacional é sempre bem vindo

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Rodrigo Pereira 10 de abril de 2019 - 21:00

É realmente uma obra muito bacana, do tipo que agrega e muito para nossa cultura. Vale a pena ir atrás da leitura.

Abraços!

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