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Crítica | Convenção das Bruxas

por Luiz Santiago
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Marco dos anos 1990, Convenção das Bruxas é responsável por deixar uma geração inteira de crianças traumatizadas, ao contar a história de um grupo de feiosas, carecas e malvadas que tinham como plano final — apresentado durante o filme — transformar todas as crianças do Reino Unido em… ratos.

O time responsável pela obra tinha a chave do sucesso, a começar pela fonte original: o livro homônimo do grande Roald Dahl, escritor de uma série de obras que geraram filmes de destaque como Gremlins, James e o Pêssego Gigante, Charlie e a Fábrica de Chocolate, Fantástico Sr. Raposo, O Bom Gigante Amigo e Matilda. Na direção, o escalado foi o experiente britânico Nicolas Roeg, que tinha no currículo destaques como Inverno de Sangue em Veneza (1973) e O Homem Que Caiu na Terra (1976). E na produção, a mão criativa de ninguém menos que Jim Henson, o que deu ao filme o seu teste de resistência ao tempo, ao menos no que diz respeito ao fator medo.

A adaptação de Allan Scott é inicialmente didática ao limite do absurdo, muito mais lenta do que deveria e sem nenhum tipo de esforço para fazer com que o público se aproxime da avó Helga (Mai Zetterling) e do neto Luke (Jasen Fisher), um problema que domina o primeiro ato inteiro do filme, enquanto a anciã conta ao menino histórias de bruxas da maneira menos interessante possível. O que mantém a atenção do público ativa é a representação disso na tela, com takes fantásticos dentro da casa de uma das bruxas na época de Helga e uma das primeiras coisas que me apavorou quando vi esse filme ainda criança: o aprisionamento de uma menina num quadro pintado pelo próprio pai. O bom disso é que passada a desnecessária confusão sobre o destino da avó e do neto + sua chegada ao Excelsior Hotel, constatamos que a pior parte do filme está “apenas” em seus primeiros 30 minutos. Sobra, portanto, uma hora inteira para nos encantar, assustar e provar o por quê do longa ser tão memorável.

SPOILERS!

Quando Luke sai para brincar com seus ratinhos e convenientemente acaba no auditório onde as bruxas farão a sua convenção, tanto o roteiro quanto a atmosfera do filme mudam bastante. A imposição da trilha sonora (esta, muito boa desde o início) crava o destino do menino e nos prepara para que ele seja descoberto a qualquer momento. Enquanto isso, dá-se algumas das cenas mais inesquecíveis de obras do gênero nos anos 90: a revelação da verdadeira aparência das bruxas (principalmente a da Rainha, interpretada por Anjelica Huston, com sua excelente e horrenda maquiagem que demorou 8 horas para ser feita), a exposição do plano e a transformação de Bruno (Charlie Potter) em rato. Tudo bem que Luke também terá a sua vez e é angustiante ver o ponto de vista dele diminuindo enquanto a Rainha Bruxa acena para ele, mas nada supera a transformação de Bruno. A montagem, os efeitos práticos, os bonecos utilizados na cena, a maquiagem no início da transformação, tudo é assustador e, pelo menos para mim, foi motivo de muitos pesadelos durante a infância — além do fato de eu genuinamente acreditar, depois de ver este filme, que uma das minhas tias era uma bruxa.

A base de fantasia da obra é desenvolvida com o suspense pelo que pode acontecer com Luke, enquanto procura colocar fim ao diabólico plano das bruxas, fazendo-as provar de seu próprio veneno. Analisando pontualmente a proposta e sua exibição, ainda no auditório, não estamos diante de nada genial ou mesmo verdadeiramente interessante. Seria mais assustador e de fato incrível se a proposta estivesse ligada ao aprisionamento das crianças em pinturas, por exemplo, mas mesmo sendo bobinha, a ideia é perfeita para gerar a trajetória heroica do ratinho-Luke (ainda mais tendo um hotel como cenário principal), onde vemos o toque de Midas de Jim Henson na animação dos ratinhos transformados, com destaque para Luke e para o rato demoníaco no qual se transforma a Rainha Bruxa, após comer a sopa com a fórmula fatal.

De uma referência bem filmada e bem colocada ao carrinho de bebê visto em O Encouraçado Potemkin (1925) até um final que divide bastante gente — foram filmados dois, um fiel ao livro, onde Luke continua ratinho até o fim da vida (o que eu prefiro) e o oficial, onde aparece a bruxa boa que o transforma novamente em criança — Convenção das Bruxas é o tipo de obra que causa imensa nostalgia e nos faz mudar de opinião sobre muita coisa a respeito da qualidade de seu enredo, mas mantém inalterada a noção de medo e ameaça que porventura tenha traumatizado o espectador em tenra idade. Um filme assustadoramente memorável.

Convenção das Bruxas (The Witches) — Reino Unido, EUA, 1990
Direção: Nicolas Roeg
Roteiro: Allan Scott (baseado no livro de Roald Dahl)
Elenco: Anjelica Huston, Mai Zetterling, Jasen Fisher, Rowan Atkinson, Bill Paterson, Brenda Blethyn, Charlie Potter,  Anne Lambton, Jane Horrocks, Sukie Smith, Rose English, Jenny Runacre, Annabel Brooks, Emma Relph, Nora Connolly
Duração: 91 min.

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