Crítica | Conversas com Scorsese, de Richard Schickel

Martin Scorsese é um cineasta com longa carreira. Isso nos coloca diante de uma filmografia repleta de filmes relevantes, tanto no quesito estético quanto no contextual, algo explorado pelo jornalista, crítico de cinema e literatura, historiador do cinema estadunidense e escritor Richard Schickel, conhecido por seus textos e reflexões na revista Time entre 1965 e 2010. Responsável por biografar tantos nomes da indústria, dentre eles, Marlon Brandon, Clint Eastwood, Cary Grant, D. W. Griffith, Woody Allen, Elia Kazan e tantos outros ícones marcantes no percurso histórico desta arte que Schickel não apenas criticou, mas experimentou em alguns documentários e em sua experiencia docente em cursos universitários situados em Yale e na Califórnia. Conversas com Scorsese foi uma das publicações que demarcaram a trajetória do final de sua vida, intensa na dedicação ao cinema enquanto arte que “inventa” o nosso cotidiano, bem do jeito que o cineasta radiografado fazia, ao desenhar épicos e colocar em sequência narrativa para um amigo assistir, na sua infância, período de fortalecimento da sua cinefilia.

Editado com base nas conversas de Schickel com Martin Scorsese, o livro traz um longo processo de questionamentos sobre a vida pessoal e a carreira cinematográfica do cineasta responsável por clássicos tidos como joias do cinema, tais como Touro Indomável, Taxi Driver, Cassino, Os Bons Companheiros, além dos “mais recentes”, Os Infiltrados, O Aviador,  Ilha do Medo, dentre outros, clássicos modernos logo em breve. No capítulo introdutório, Schickel conta que ele e Scorsese formam um casal estranho, pois entre idas e vindas para a consolidação da amizade, foi preciso uma série de interações superficiais em situações cinéfilas que não chegaram a marcar as suas vidas, mas foram a base para o estabelecimento posterior de um contato que deu, como um dos resultados, a possibilidade deste livro que funciona como um curso intensivo da linguagem cinematográfica, uma obra-prima das publicações sobre cinema disponíveis em língua portuguesa.

No decorrer desta elucidativa introdução, o autor destaca Scorsese como um apaixonado e estudioso do cinema, homem que devotou a sua vida ao processo de criação de histórias que atualmente habitam o imaginário da linguagem cinematográfica, uma manifestação artística recente, quando comparada às demais artes que a compõe, isto é, a música, o teatro, a literatura, etc. Agentes diferentes de um campo de atuação, Richard Schickel e Martin Scorsese se encontram num terreno que podemos considerar neutro: os filmes. É neste espaço bem pavimentado na carreira de ambos que eles deitam e rolam, conscientes da riqueza memorialística que os acompanham. Lê-los é fascinante, pois nos permite a compreensão de mecanismos que nem sempre conhecemos no bojo do processo da realização cinematográfica, além de ser um brilhante exercício de compreensão das suas obras, grandiosas em termos estéticos, contextuais e em sua extensão enquanto narrativa, afinal, “um” Scorsese geralmente ultrapassa os 120 minutos de duração, quando não duplica essa “carga horária”.

Depois dos capítulos preambulares, didáticos para a nossa compreensão do “Método Scorsese”. A conversa percorre os seus filmes, cronologicamente sequenciados. Curioso como há uma distribuição “honesta”, pois as produções parecem apresentar um número de questões equilibrado. Há mais momentos para Touro Indomável, Taxi Drive e alguns outros, mas no geral a abordagem busca compreender todas as suas produções de maneira a desvendá-las bem para os leitores, sem focar apenas nas predileções do cineasta e do entrevistador. Antes dos filmes, por sua vez, Schickel radiografa questões como o funcionamento dos estúdios em “De Estúdios e Estilos”, as proezas e fraquezas de um dos grandes cineastas da primeira metade da história do cinema em “A Conexão Ford”, as opiniões de Scorsese sobre o “ser diretor” em “Profissionalização”, além de tratar de aspectos contextuais do cineasta no decorrer de sua história, caminho paralelo ao próprio processo evolutivo do cinema em “Little Italy”, “Cortes e Ângulos”, “Washington Square” e “Woodstock/Hollywood”.

Agora, num salto para próximo ao desfecho, o capítulo “A Passagem do Tempo” é um dos mais filosóficos, pois a conversa é direcionada para a velhice e a impossibilidade de dar ritmo cinematográfico, isto é, a possibilidade ficcional da eternidade para a vida. Scorsese, um homem repleto de informações preciosas e técnicas valiosas de direção sabe exatamente que a efemeridade da existência humana não permite que ele dê continuidade aos seus filmes “em outro plano”. O papo também trafega por questões interligadas à diminuição do ritmo de produção com o avanço da idade, pois sem o mesmo fôlego da juventude, a condução de suas narrativas épicas possui vários obstáculos que percorrem o seu caminho. Há menos tempo, mais responsabilidades (deixar algo para a sua filha), as dúvidas sobre se o que já dez é suficiente ou se há algo a mais que possa ser feito, a difícil escolha em torno de seu melhor filme (ele cita Os Bons Companheiros como seu renascimento e Caminhos Perigosos como uma obra marcante por questões pessoais), além de versar sobre a presença da fé cristã em sua formação e do talento de Frank Capra enquanto diretor, o “melhor” pelo que as suas observações nos permite interpretar.

Temos ainda as inserções em outros tópicos, alguns antes, outros depois dessa conversa sobre a passagem do tempo e a iminência do “fim”. “Montagem” é um diálogo relevante sobre o trabalho com Thelma Schoonmaker, “Síndrome de Asperger” é um breve relato sobre condições pontuais de sua vida pessoal, “Dirigir Atores: Um Exemplo” é sobre o óbvio, isto é, como Martin Scorsese é um dos melhores cineastas da história do cinema, “Cores” traz um breve e importantíssimo debate sobre a existência de uma paleta de cores especificas em seus filmes, “Música” dialoga com uma das linguagens mais importantes de suas produções, “Restaurar e Colecionar” trata de temas que podem ser vistos com de maneira bastante elucidativa em Uma Viagem Pessoal Pelo Cinema Americano, documentário bastante elucidativo sobre seu processo de cineasta pesquisador e crítico, dentre outros momentos de menor e maior destaque em sua extensa filmografia.

As questões editoriais colaboram com a experiência da leitura, exceção apenas para o papel, inadequado para durabilidade com bom aspecto. Editado pela COSAC NAIF, a versão brasileira traz na capa uma fotografia bem intimista de Scorsese, imagem produzida por Nicolas Guerin, num livro com projeto gráfico de Luciana Facchini, tratamento de imagens coordenado por Wagner Fernandes e tradução assinada por José Rubens Siqueira. Lívia Lima, responsável pelo índice remissivo, ajuda o leitor na condução de sua pesquisa e leitura ao longo da volumosa publicação de ultrapassa as 500 páginas impressas em papel Lux Cream, único “porém” editorial, haja vista a qualidade do papel que envelhece rapidamente após algum tempo na prateleira, sem um lacre que o proteja de qualquer contato com o ambiente externo à sua embalagem.

As imagens escolhidas para ilustrar as entrevistas são pertinentes, bem editadas e metalinguísticas, pois revelam para os leitores momentos cruciais de Scorsese na direção ou em sua vida pessoal. Os storyboards, assinados pelo cineasta, estampam a parte interna da capa dura que sustenta bem a já dita volumosa publicação. Ademais, Conversas com Scorsese é um livro incrível para descobertas e redescobertas. Para quem não conhece o cineasta, torna-se a melhor porta de entrada possível, juntamente com os filmes conferidos em paralelo ou posteriormente. Para quem já adentrou neste universo, o livro é a “crítica genética” perfeita, o aprofundamento ideal para complementação da postura cinéfila, afinal, no desfecho de sua leitura, nos damos conta da importância de Martin Scorsese para a história do cinema nas últimas décadas, bem como a sua genialidade enquanto intelectual que pensa e resgata a arte por meio de suas pesquisas, restaurações, resgates, etc.

Conversas com Scorsese (Estados Unidos, 2010)
Autor: Richard Schickel
Tradução: José Rubens Siqueira
Editora no Brasil: COSAC NAIF (2011)
Páginas: 532

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.