Crítica | Conversas com Woody Allen, de Eric Lax

Woody Allen é um cineasta bem-sucedido e traz em sua bagagem uma longa caminhada de acertos, erros e momentos medianos como todo grande artista. Da genialidade O Sonho de Cassandra e Ponto Final – Match Point, as suas tragédias contemporâneas, ao flerte com a mitologia e a literatura, respectivamente em Poderosa Afrodite e Meia Noite em Paris, o cineasta que também cumpre bem a sua missão enquanto ator e roteirista, marcou para sempre a história do cinema com a sua estética peculiar, bem como um desenvolvimento dramático que mescla as suas próprias memórias com o seu jeito de ser, juntamente com temas considerados relevantes quando decide sentar, refletir e desenvolver histórias que dialogam quase sempre com o amor, a sorte, a inexorabilidade do ser humano, as contradições e paradoxos dos nossos comportamentos, dentre outras questões que permitiram o biógrafo e crítico Eric Lax, organizar as entrevistas realizadas com o cineasta ao longo de várias décadas, compiladas em um livro que é material básico para os interesses em Introdução ao Cinema de Woody Allen.

Essa, por sinal, seria a nomenclatura ideal para um componente curricular no bojo de um curso acadêmico de Cinema, afinal, estudar Allen permite a exposição aos elementos dramatúrgicos do roteiro, bem como um mergulho pela montagem, design de produção, direção de fotografia, dentre outros elementos próprios da linguagem cinematográfica que o cineasta manipula muito bem em seu processo criativo bastante imersivo, repleto de peculiaridades expostas neste panorama de perguntas e respostas desenvolvidas em Conversas com Woody Allen, publicado originalmente em 2007 e lançado no Brasil pela Editora COSACNAIFY em 2008. É uma travessia por 36 anos de diálogos entre o diretor e o organizador da publicação, um sonho para qualquer cinéfilo ou dramaturgo, afinal, Lax teve a oportunidade de respirar a atmosfera de produção de muitos filmes excepcionais, como observador distante do processo ou até mesmo como testemunha dos primeiros cortes, na companhia dos lares e estadias de Woody Allen. É por isso que o livro funciona tão bem, conexão que não beira ao discurso do puxa-saco, tampouco acrítico. Aliás, por falar em crítica, pode ser falsa modéstia, mas tá pra nascer uma pessoa mais autocrítica diante de seu processo criativo que o cineasta dono de tantos sucessos.

Ao ler Conversas com Woody Allen, adentramos um universo curioso. A sua sempre imersiva escolha de músicas para as suas trilhas sonoras, compostas em sua maioria por músicas de sua própria Era de Ouro, isto é, clássicos dos anos 1930, 1940 e 1950. Cole Poter e o som do jazz são elementos obrigatórios em seus dramas e também no desenvolvimento das comédias. O processo de seleção dos membros de seu elenco também não atravessa uma zona de muito conforto. Woody Allen, como sabemos, é um dos melhores diretores de atrizes do cinema atual e de algumas produções mais longínquas, realizadas entre os anos 1980 e 1990. Blue Jasmine e Roda Gigante, por exemplo, dois de alguns dos mais recentes e que não são contemplados pelo livro que vai até 2007 enquanto registro cronológico, reforçam como o cineasta consegue extrair o que há de melhor em suas protagonistas, interpretadas pela crítica como extensões de suas neuroses que também se deslocam para os protagonistas masculinos desempenhados por ele mesmo ou por outros grandes nomes dirigidos ao longo de tantos anos de realizações.

Outras particularidades também são destrinchadas com graça e ritmo ao longo do gigantesco volume com mais de quinhentas páginas. Temos a Apresentação, seguida dos capítulos A Ideia (um), Escrever (dois), Casting/Atores/Atuação (três), Filmagens/Sets/Locações (quatro), Direção (cinco), Montagem (seis), Trilha Sonora (sete), A Carreira (oito), finalizados por uma seleção que destaca fichas técnicas em Filmografia e o Índice Remissivo. O livro reajusta as duas publicações anteriores de Eric Lax sobre Woody Allen, de 1975 e 1991, respectivamente, transformadas aqui num compacto ainda maior, organismo vivo que pulsa fortemente e mostra um cineasta em movimento, lúcido e ciente do que fez de bom e ruim, segundo a sua concepção autocrítica, ao longo de tantas décadas no campo da realização cinematográfica. Observado depois de quase quinze anos de seu lançamento, Conversas com Woody Allen ganharia uma leitura renovada interessante, haja vista os acertos de Tudo Pode Dar Certo e Meia Noite em Paris, Blue Jasmine e Roda Gigante, comparados aos filmes que o público e a crítica não tiveram a mesma simpatia, tais como Magia ao Luar, Homem Irracional e Você Vai Conhecer O Homem dos Seus Sonhos, este último, uma síncope momentânea do cineasta no campo da dramaturgia e do bom-senso.

Após ler as conversas de Woody Allen e Eric Lax e retornarmos aos filmes do diretor, podemos observar tantos detalhes delineados sobre o seu processo de criação: a fotografia que expressa a sua predileção por climas nublados, o longo processo de escolhas musicais para a sua trilha que se preocupa na expressividade dos conflitos dramáticos dos personagens, além da inserção memorialística de algumas passagens que refletem elementos biográficos que o cineasta já narrou em entrevistas e textos autobiográficos, muitas vezes sem talvez ter percebido que empregava no tecido narrativo de alguns filmes, elementos nebulosos de sua longa trajetória cinéfila. Curioso saber como o cineasta escolhe o seu elenco, como se esquiva de celebridades complicadas, bem como tem a noção de que há, em seu cinema, uma grife. Fazer um filme de Woody Allen, seja o menor ou maior, é vitrine para expor na carreira de qualquer ator que deseja o mínimo de prestígio dramático, oriundo de um cineasta conhecido por seus baixos orçamentos, por sua obsessiva busca pelo enquadramento e corte ideal de uma cena. Ser parte de um “Woody Allen” é dialogar com o poder de troca da indústria e da cultura. Não significa exatamente ganhar dinheiro, mas ter algumas portas abertas para novas oportunidades.

Na seara mais técnica da publicação, temos a tradução eficiente de José Rubens Siqueira, preocupado com os pormenores e cuidadoso na absorção do tom que nos faz compreender que a entrevista vem de alguém que de fato emprega uma energia artística hedionda em cada observação que faz de si e dos demais filmes que compõem o seu longo e rico processo formativo. As ilustrações são detalhes igualmente eficientes, fundamentais para a imersão do leitor que se debruça diante de uma leitura sobre cinema e processos criativos. O projeto editorial de Luciana Facchini, supervisora do tratamento de imagem de Wagner Fernandes, permite conforto para o leitor que atravessa as 512 páginas do livro sem intimidação, tamanha a qualidade da disposição das fotos, sempre a delinear detalhes comentados na seção em que se encontra, bem como as fontes, particularidade da diagramação que também possibilita um passei agradável por um mundo de ideias impressas de maneira espaçada, visualmente elegantes, de acordo com o tema que retrata: o cinema de Woody Allen. Ademais, destaque para o trabalho dos revisores, milimétrico, profissionais que não permitiram a inserção de qualquer problema ortográfico que em alguns casos, trava a fluência de nossa leitura.

Conversas com Woody Allen (Estados Unidos, 2007)
Autor: Eric Lax
Tradução: José Rubens Siqueira
Editora no Brasil: COSAC NAIF (2011)
Páginas: 512

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.