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Crítica | “Convoque Seu Buda” – Criolo

por Handerson Ornelas
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Criolo dispensa apresentações, o rapper oxigenou parte da música brasileira e foi um dos artistas mais comentados do cenário musical brasileiro dos últimos anos. Finalmente, lançou seu terceiro álbum, sim, seu terceiro, pois ainda que Nó Na Orelha tenha gerado toda popularidade de Criolo, esse era seu segundo álbum (o primeiro é Ainda Há Tempo de 2006). Convoque Seu Buda mostra um claro amadurecimento musical do cantor e supera seu antecessor, que fez um enorme sucesso entre os críticos. Nele, o rapper anda por Samba, Reggae, Forró e Rock, discute diferenças de classes, problemas sociais, Copa e ainda faz referências desde Naruto e GTA a Shiva e Buda.

A faixa título abre o álbum com ótimas rimas e fazendo um paralelo de diversas figuras culturais, já aproveitando pra mandar suas críticas a problemas nacionais. Esquiva da Esgrima vem em seguida, sendo  uma das canções mais diretas do álbum, onde Criolo dispara críticas diversas: desde autoridade da polícia (Cada cassetete é um chicote para um tronco), racismo (A cor da minha pele, eu sei, tem quem critica) e até Copa (Uma bola pra chutar, país pra afundar). O álbum segue na mesma linha com Casa de Papelão, uma faixa forte e dura, lembra o sarcasmo de Perfeição de Legião Urbana. A diferença de classes é tema em Cartão de Visita, com a presença da, sempre excelente, Tulipa Ruiz no refrão. A cereja do bolo é quando o artista demonstra bom humor e faz uma referência a sua entrevista com Lázaro Ramos que virou piada e meme na internet: “Lázaro, alguém nos ajude a entender!

Criolo não é só um rapper, mas já se tornou uma figura importante para a MPB atual. Muito mais que rap, o cantor canta de tudo, e Convoque Seu Buda corrobora com isso. Fermento Pra Massa é samba de raiz de primeira, no clima de clássicos como Noel Rosa e Adoniran, a faixa bem humorada brinca com o dia-dia nas grandes cidades. O reggae, que já era presente em Samba Sambei de Nó Na Orelha, volta a estar presente em Pé de Breque, dessa vez em um clima bem mais assumidamente Bob Marley. Na mesma sequência vem o forró de Pegue Pra Ela, onde se destaca o impecável arranjo em que há espaço até pra guitarra no refrão, além de um momento solo guitarrístico bem regional.

Plano de Voo e Duas de Cinco (que, por sinal, já tinha sido lançada ano passado em um EP) são as que mais carregam a característica underground do rap. A primeira possui a participação do rapper Síntese, que por sua vez faz o ponto alto da canção, onde se percebe uma verdadeira interpretação na sua voz aliada com o arranjo que desaba pesado no final. A segunda precisa ser ressaltada pela sua ótima métrica (que chega a ser poética) e seu tema que aborda a sociedade marginalizada, tendo espaço até pra falar de salários de professores. O disco fecha com a participação de Juçara Marçal em Fio De Prumo, que parece ter influenciado no arranjo com uma forte pegada experimental. Faz seu papel de fechar o álbum muito bem, com um rítmo bem regional e uma letra com referências a cultura africana.

No entanto, existem considerações a serem feitas. Criolo é um excelente compositor, mas deixa o ouvinte confuso em alguns momentos. Existem partes onde não se entende absolutamente nada do que o cantor quer dizer ou transmitir em suas letras, mostrando referências e vocabulário complexos, trazendo a mesma sensação cômica que seu famoso vídeo com Lázaro Ramos provocou em várias pessoas. Felizmente, isso acontece em apenas certos versos de certas músicas. O problema não é soar filosófico ou mainstream demais (até porque Criolo já deixou de ser underground há muito tempo), mas acabar soando confuso e saindo de seu público que, querendo ou não, grande parte está em fãs de rap e hip-hop.

Nó Na Orelha pode ser considerado um álbum um pouco superestimado, por isso, Convoque Seu Buda chega pra superar seu antecessor e consolidar de vez a carreira de Criolo. Inserir uma gama de diferentes estilos e temas em uma só obra não é algo tão comum de se encontrar no atual cenário musical e o cantor merece mérito por isso. Alguns já chamam Criolo de gênio, e tal adjetivo não é pouca coisa. De onde vem tantas ideias é a grande pergunta. Afinal, “Alguém nos ajude, Lázaro, a entender!”.

O download do álbum foi disponibilizado gratuito no site do cantor, pra acessar é só clicar aqui.

Convoque Seu Buda
Artista: Criolo
País: Brasil
Gravadora: SkyBlue Music
Lançamento: Novembro de 2014 
Estilo:
Rap, MPB

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8 comentários

marcelo tomaz 18 de dezembro de 2014 - 09:00

curtindo demais o album … realmente é um passeio nos diversos estilos e competência … como vc disse não é pra qualquer um reunir tudo isso numa obra só .. parabéns ao critico e ao criolo que nos agraciou com um otimo album … a minah preferida que grudou na mente esquiva da esgrima …

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Handerson Ornelas. 18 de dezembro de 2014 - 18:07

Obrigadão, Marcelo! Aproveite, é um dos melhores nacionais do ano!

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Luiz Santiago 1 de dezembro de 2014 - 17:33

Acabei de ouvir. Que baita disco! E que ótima crítica a sua, meu caro!
O grande destaque, como você mesmo disse no seu texto, é a variedade e riqueza musical. Há espaço para tudo e mais um pouco, tanto nos vários caminhos das letras quanto da música.
E também concordo com a questão de interpretação difícil para alguns versos, mas confesso que isso não me incomodou tanto assim.
Muito bom, muito bom!

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Handerson Ornelas. 4 de dezembro de 2014 - 18:41

Obrigado, Luiz! Esse já vai para os meus álbuns preferidos desse ano. “Cartão de Visita” também me fez estuprar o play. Pirei na parte “Lázaro, alguém nos ajude a entender!” hahaha

Percebo que gosta bastante do rap nacional, lembro que também gostou bastante do álbum do Emicida que escrevi a crítica!

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Luiz Santiago 4 de dezembro de 2014 - 20:57

Sim sim, eu gosto muito do rap nacional, especialmente os que experimentam bastante musicalmente, como é o caso desse álbum aqui.

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Luiz Santiago 1 de dezembro de 2014 - 16:36

Manoooooo, to ouvindo agora. Não consigo passar de Cartão de Visita, de tanto repetir e repetir e repetir… SENSACIONAL!!!

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Felipe dos Santos 16 de novembro de 2014 - 18:57

Realmente eu fico perdido em algumas partes da música, mas a banda faz um trabalho excelente na questão de ambientar a música, que em minha opinião compensa as frases complexas.

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Handerson Ornelas. 18 de novembro de 2014 - 01:14

Concordo plenamente com o que disse, Felipe! O arranjo dá um bom complemento da letra, essa é uma das razões pelo álbum ser sensacional e superar o “Nó Na Orelha”.
Abraço!

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