Crítica | Cópias – De Volta à Vida

“Nós iremos replicar a mente humana.”

Um dos gêneros cinematográficos mais interessantes para discussões sobre a condição humana, a sociedade e o meio é logo a maior queridinha do “cinema comercial”: a recorrente e provavelmente eterna ficção científica, mantida importante para a sétima arte desde seus primórdios, com Viagem à Lua. O gênero ora ou outra estará pensando com entusiasmo, mas em suas camadas mais superficiais, impossibilidades tecnológicas atuais que são possíveis, criativamente, apenas para o que quer seja o nosso futuro ou para um outro presente. Pois é com essas imaginações, esses pretextos curiosos que terminam existindo meramente em narrativas ficcionais como essas, que conseguimos pensar questões relevantes para a atualidade. Como é o caso de Cópias: De Volta à Vida, por exemplo, onde temos a discussão do significado da vida, um dos grandes expoentes dos questionamentos humanos sobre si mesmos, surgindo juntamente com essa premissa em questão.

Com ressalvas, é pensar a verdade sobre a natureza humana, caso exista uma, o que Jeffrey Nachmanoff sugere para o seu longa-metragem. Esquece-se rapidamente, entretanto, de qualquer discussão mais aprofundada. O cineasta termina apenas jogando, mas sem trajar com cuidado esses manuseios, possíveis debates a serem encarados pelo público e pelo seu projeto em si com uma suposta importância. Keanu Reeves, precisando dar mais qualidade à sua atuação dramática do que a que possui, interpreta um cientista comandante de um projeto mega-secreto, referente à clonagem humana e à cópia das informações contidas em um cérebro. E se pegássemos os nossos dados e colocássemos em um outro corpo – possivelmente, uma máquina? Pois é isso o que o protagonista de Cópias decide fazer com a sua própria família, quando sua esposa e seus três filhos são mortos, em um acidente de carro. Os impasses são premeditados, mas não surgem.

Quando Alice Eve, vivendo a esposa de Reeves, o questiona sobre o projeto que comanda, acerca das barreiras entre o que é vivo e morto e se elas podem ser cruzadas, Cópias subtende uma discussão com peso para sustentar-se por muito tempo, em várias nuances. O que torna o ser humano? Contudo, o roteiro opta, inesperadamente, por explorar questões voltadas, sem mais nem menos, ao terreno militar, noções de guerra e afins, simplesmente rejeitando a premissa que iniciara tempos antes. O longa é, digamos, corajoso em certo ponto, por rejeitar certos moralismos e dando, consequentemente, mais carga ao drama do protagonista. Mas isso não é mesmo um cerne subversivo que a obra adota com sinceridade para si. Do contrário, é meramente um efeito colateral de um projeto perdido e que não sabe o que fazer, a não ser colocar mais reviravoltas que não acrescentam ao conjunto ou que são, simplesmente assim, burras para um gênero como esse.

Mesmo tentando ser tão esperto e envolvente, custe o que custar, Cópias, contrapondo suas presunções sobre um material bem pobre, só consegue ser um projeto incompetente, vago em última instância. O roteiro, no caso, encontra soluções consideravelmente patéticas, apenas para não comentar sobre os vazios provocados, como resoluções para certas problemáticas que apresenta, em uma confusão sobre suas intenções temáticas. Em um momento, Reeves apaga memórias específicas dos seus entes, embora, posteriormente, outras memórias mostrem ser, obviamente, relevantes o suficiente para também serem apagadas. Por que já não haviam sido? Quando os parentes do personagem “renascem”, eles não conversariam com outras pessoas que, portanto, notariam as suas ausências depois de tanto tempo? Ou os garotos não perceberiam as mensagens, mandadas pelo pai pelos seus celulares, contudo, que as crianças nunca mandaram?

O mais curioso é que, justamente em uma obra com uma premissa pautada na multiplicidade da humanidade, o sentimento é desta ser uma versão desumana. E essa era uma ideia, em especial pelo modo mais provocante com que Nachmanoff permitiu o egoísmo salvar os homens, até que promissora. O problema reside em isso não se sustentar pela condução do cineasta, que mostra ser enormemente robótica, pautada em um calculismo excessivo e pouco verdadeiro. Um grande twist, que conclui o impasse científico presenciado pelo protagonista, é encarado como se fosse uma gigante descoberta, enquanto, teoricamente, parte de uma tese básica. O texto, nesse caso, caminha muito na ideia da exposição gratuita, uma exposição de sentimentos humanos, bem mais do que de conceitos científicos. Nem os visuais são criativos. Cópias poderia possuir a premissa mais original já pensada, que ainda assim iria permanecer com estas auras: genérica e preguiçosa.

Cópias – De Volta à Vida (Replicas) – EUA, 2018
Direção: Jeffrey Nachmanoff
Roteiro: Stephen Hamel, Chad St. John
Elenco: Keanu Reeves, Alice Eve, Thomas Middleditch, John Ortiz, Nyasha Hatendi, Aria Lyric Leabu, Emily Alyn Lind, Emjay Anthony, Amber Rivera, Jeffrey Holsman
Duração: 107 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.