Crítica | Coração Caprichoso

De todos os filmes sobreviventes do grande Yasujiro Ozu até 1933, Coração Caprichoso é, talvez juntamente com Coral de Tóquio, o mais japonês deles. Para quem conhece o diretor apenas por suas obras mais famosas, essa afirmação pode ser uma surpresa, mas a filmografia dele até aqui era carregada de um ar Hollywoodiano com seus toques pessoais, claro, que emprestavam uma linguagem universal a quase todos eles. Não só Dekigokoro (título original), é um olhar integralmente japonês para um recorte do dia-a-dia de pessoas humildes nos arredores de Tóquio, como é também o primeiro evidente indício do principal caminho que Ozu trilharia em sua prolífica carreira.

Partindo de uma ideia do próprio diretor, Tadao Ikeda, um dos roteiristas a fazer longa parceria com ele, escreveu um texto que é repleto de ternura e doçura, mesmo que tenhamos reticências iniciais em relação ao protagonista Kihachi (Takeshi Sakamoto), um homem aparentemente grosseirão, ignorante e que, apesar de cuidar sozinho de seu filho Tomio (Tomio Aoki), vive bêbado e arrumando qualquer desculpa para faltar ao trabalho. E esses aspectos desagradáveis desse personagem ficam ainda mais evidentes se contrastados não só com seu filho, como também com Jiro (Den Ohinata), seu melhor amigo e colega de profissão e com Otome (Chôko Iida), a dona do restaurante/bar onde ele sempre vai beber.

O abismo de personalidades, porém, já é relativizado no início da história, quando Kihachi e Jiro (este carregando Tomio nas costas) encontram Harue (Nobuko Fushimi), uma mulher sem-teto no meio da rua. Kihachi, apesar de hesitante, aproxima-se dela e oferece ajuda, ao passo que Jiro levanta desconfianças. Nesse ponto, é muito interessante ver como o roteiro trabalha a narrativa de maneira a deixar o espectador sempre em dúvida sobre as intenções verdadeiras de Kihachi, que parece agir como um mulherengo incorrigível, e também da própria Harue que, vista sob a ótima de Jiro, poderia, talvez, ser uma vigarista e aproveitadora. Mas Coração Caprichoso não é uma obra que gira em torno de um mistério ou de um plot twist. Muito ao contrário, o texto tenta passar aquele gosto de “vida como ela é” e na vida como ela é, as personalidades nunca são imediatamente bem definidas e esse relacionamento quadripartite (entre os adultos somente) é muito bem desenvolvido, com atuações impecáveis dos quatro, mas especialmente de Sakamoto, que é o ponto focal da história.

No entanto, seria perfeitamente possível concluir que Coração Caprichoso é um filme em duas partes, ou dois curtas unidos sob uma mesma temática. É que a estrutura do roteiro estabelece uma segunda linha narrativa que não caminha paralelamente, mas sim se sobrepõe à primeira e que diz respeito ao complicado relacionamento de pai e filho entre Kihachi e Tomio. Novamente, a personalidade do pai é colocada em jogo. Seria ele ausente da vida do filho, um pai que se preocupa apenas perfunctoriamente com o que se passa com a criança, ou seria ele um pai amoroso que por diversas razões pessoais e que ficam apenas nas entrelinhas, entregou-se a uma direção diferente? Mesmo recorrendo a uma doença repentina demais como em A Mulher Daquela Noite, o que aumenta a carga melodramática, Ozu consegue escapar de armadilhas do gênero ao extrair dos dois atores uma química de se tirar o chapéu e, mais do que isso ainda, um realismo fascinante, inclusive coreografias de brigas físicas que tenho minhas sinceras dúvidas se foram apenas coreografias muito bem executadas. Além disso, o diretor, imprimindo uma de suas marcas registradas até esse momento em sua carreira, sabe inserir algumas pequenas gags visuais e comédia física que dão um pouco de leveza a esse relacionamento do tipo “bate e assopra”, mas sem de forma alguma retirar a característica de drama da história sendo contada.

Como mencionei, porém, essa segunda parte de Coração Caprichoso é quase desconectada da primeira. Harue ainda tem alguma presença, assim como a desconfiança de Jiro, mas não há um diálogo maior entre esses elementos da trama, o que pode distanciar alguns espectadores. Em minha visão, porém, apesar de reconhecer o problema estrutural, se levarmos em consideração a atenção dada a Kihachi, os dois eventos em sua vida – a ajuda que oferece a Harue e sua vida com Tomio – são complementares. Episódicos, sem dúvida, mas, mesmo assim, complementares, servindo como plataformas para sua evolução ou, talvez, para a revelação de que ele é mais do que sua superfície deixa entrever.

Para trabalhar todas essas relações íntimas, Ozu simplifica tudo, com resultados cirúrgicos. Não vemos, aqui, uma construção de cenários complexos ou uma fotografia de algo contraste ou de alguma forma refletindo o expressionismo alemão, algo comum em trabalhos anteriores dele. Ao contrário, sua câmera mantem-se sempre à altura dos personagens, muitas vezes no chão para lidar com as particularidades da cultura japonesa, que se mantém próxima da terra em diversos aspectos e isso até mesmo hoje em dia. Além disso, ele nos aproxima especialmente da relação paternal, mantendo um foco próximo aos dois em momentos cruciais que coloca o espectador inserido no drama de maneira orgânica e belíssima. A fotografia em preto-e-branco enaltece os contrastes, mas sem chamar atenção para eles como em seus proto-noir anteriores. O realismo que ele alcança, com isso, serve muito bem à história, mesmo que ela possa ser interpretada, de certa maneira, como um conto de fadas.

Coração Caprichoso pode até ser encarado como um filme internamente desconectado, mas ele exala ternura e paixão nos mais diversos níveis e, se focarmos no desenvolvimento de Kihachi, ele ganha uma unicidade inegável. É, de certa forma, a reafirmação do rito de passagem de Yasujiro Ozu, iniciado com Coral de Tóquio, de seu movimentado e variado estágio de aprendizado e adaptação para sua assinatura única e característica. Um filme, portanto, muito importante para sua carreira e para a compreensão da filmografia do mestre.

Coração Caprichoso (Dekigokoro, Japão – 1933)
Direção: Yasujiro Ozu
Roteiro: Tadao Ikeda (baseado em ideia de Yasujiro Ozu)
Elenco: Takeshi Sakamoto, Nobuko Fushimi, Den Ohinata, Chôko Iida, Tomio Aoki, Reikô Tani, Seiji Nishimura, Seiichi Katô
Duração: 100 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.