Crítica | Coração de Onça, de Ofélia e Narbal Fontes

A publicação original de Coração de Onça (ou Pumasonco) aconteceu em 1951, pela Edições Saraiva. Reeditada com sucesso em 1973 pela Editora Ática, para a Série Vaga-Lume, a obra passou a ser bastante utilizada em escolas, inclusive por professores de História, já que o enredo central se passa no tempo dos Bandeirantes e romantiza (para o propósito simples da literatura infantojuvenil) o projeto das Bandeiras, contando a saga do jovem Antônio Castanho, que sofre uma decepção amorosa e, depois de um empreendimento falho com o pai e os irmãos, parte em busca de riquezas nas lendárias minas de Potosí, hoje capital da Província de Tomás Frías, na Bolívia. Plano Crítico.

A publicação original de Coração de Onça (ou Pumasonco) aconteceu em 1951, pela Edições Saraiva. Reeditada com sucesso em 1973 pela Editora Ática, para a Série Vaga-Lume, a obra passou a ser bastante utilizada em escolas, inclusive por professores de História, já que o enredo central se passa no tempo dos Bandeirantes e romantiza (para o propósito simples da literatura infantojuvenil) o projeto das Bandeiras, contando a saga do jovem Antônio Castanho, que sofre uma decepção amorosa e, depois de um empreendimento falho com o pai e os irmãos, parte em busca de riquezas nas lendárias minas de Potosí, hoje capital da Província de Tomás Frías, na Bolívia.

A região, que na época ainda dominada pela Espanha e recebia o nome de Alto Peru, se torna o centro de toda a segunda parte desta saga escrita pelo casal Ofélia Fontes e Narbal Fontes, o ponto do livro onde o leitor há muito havia passado do melhor da obra. Mas estou me adiantando. Vamos começar do começo.

A introdução do cenário familiar, ou seja, a casa e região próxima da família Castanho é feita de maneria distanciada, com um olhar que posteriormente o leitor se pergunta exatamente por quê. Mas a despeito da apresentação, do momento em que a história começa de verdade até o fim da Bandeira de Antônio Castanho com seus irmãos, o livro é realmente interessante. Não incomoda o tratamento amoroso que costura a narrativa, porque isso é feito através de uma abordagem que não larga mão das aventuras locais, dos costumes do Brasil no século XVII, das festividades, paqueras, dinâmica de casamentos e até diferenças culturais apontadas entre indivíduos de locais diferentes do país.

A ficção histórica não está, de certa forma, livre de sua visão autocrítica, mas o que os autores fazem aqui é um reconhecimento direto do poder colonizador e da tentativa dos colonizados em fazer frente aos invasores. As disputas entre brancos e vermelhos, a diferenciação do comportamento de tribos indígenas e as muitas e chocantes empreitadas de homens pelo chamado “Sertão” do Brasil Colônia mostram não só uma boa pesquisa para cercar bem esses temas históricos, como também um olhar documental sobre as relações entre essas civilizações. O ato heroico dos Bandeirantes não é representado aqui num sentido moral e apaixonado; mas como uma empresa de coragem, ousadia, inteligência de se desbravar territórios selvagens, correr todos os perigos possíveis — ser atacado por animais, por índios, por uma doença, faltar comida, ser levado por uma correnteza mais forte de um rio, etc… — e claro, entrando em conflito com nativos e também matando dezenas deles.

Quando chegamos a esse ponto, nos esquecemos por completo do “início civilizado” da obra e estamos mergulhados nessa aventura pelas florestas, pântanos, rios e vales do país, sendo esta a melhor coisa de todo o volume. Os dissabores da Bandeira da família Castanho e o que ocorre depois que decidem voltar para casa é também o momento em que o texto começa a cair de qualidade. Pouco a pouco voltamos ao estágio “civilizado”, mas não sem passar por uma péssima representação onírica de um período da viagem (à guisa de narração didática e rápida do que aconteceu entre um ponto e outro), uma longa estadia de Castanho em Potosí que tem sua graça, mas realmente não decola, e certamente o desconfortável e patético final, com insistência em um romance perdido, passado de mãe para filha e levado a cabo como se fosse a coisa mais bonita do mundo. Por um lado, é a representação de uma cena recorrente no Brasil (e no mundo! Pior: ainda hoje!), mas isso não faz a coisa ser boa, nem pelo que mostra, nem pelo tratamento dos autores.

Se tivesse ficado apenas na aventura dos Bandeirantes ou mesmo na simplicidade do romance no Brasil, deixando em suspenso todo esse “outro lado” das Minas Prata de Potosí, talvez o livro tivesse um resultado final melhor. A leitura ainda mantém os bons momento de seu escopo de aventura, mas o início e sua segunda metade e final são uma verdadeira chatice misturada com costumes de época tratados sem muito contexto, o que nunca é positivo quando lançamos um olhar crítico sobre os fatos. De todo modo, serve para um bom debate. Ao menos a leitura não fica perdida.

Coração de Onça (Brasil, 1951) 
Série Vaga-Lume: Livro 3
Autores: Ofélia Fontes e Narbal Fontes
Capa: Milton Rodrigues Alves, Ary Almeida Normanha
Edição original: Edições Saraiva
Edição lida para esta crítica: Editora Ática, 1973
145 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.