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Crítica | Coração Vadio (1934)

por Kevin Rick
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Coração Vadio

Lançado em 1934, Coração Vadio, dirigido por Fritz Lang, foi a terceira adaptação cinematográfica da peça húngara Liliom — nome do personagem titular —, de 1909, criada por Ferenc Molnár. A narrativa acompanha o já citado Liliom Zadowski (Charles Boyer), um homem que trabalha em um parque de diversões como ladrador de carrossel, e a mulher que o ama incondicionalmente, Julie Boulard (Madeleine Ozeray). Sendo um produto do seu tempo, a película pode ser um tanto custosa de acompanhar, já que, especialmente no 1º ato, existe uma anuência em relação à violência doméstica. Dessa forma, o teor misógino da obra retira o espectador do confortável moral em muitas situações, porém, de modo metalinguístico, o filme acaba sendo uma crítica a si mesmo a partir do ato final, com um toquinho da criatividade fantástica de Lang.

Por ser baseado em uma peça, o primeiro elemento da linguagem de Coração Vadio que salta aos olhos é a teatralidade da composição das cenas, magistralmente carregada pela direção de Fritz, que manuseia uma iluminação focada em personagens específicos, especialmente o casal protagonista, proporcionando um intimismo com o espectador, divergindo bastante da estranheza que vemos em adaptações teatrais. E a ótimo passagem de mídias é levada ao elenco, que trabalha muito bem com esse viés super expositivo de obras do gênero, sobrando louvor em especial para Charles Boyer, que, a despeito da odiosa personalidade de Liliom, consegue transpor um carisma — até cômico em determinadas situações — ao mesmo tempo que cria a antipatia com suas ações. O que é crucial para o filme, pois a trama se sustenta na ambiguidade do protagonista no romance abusivo com Julie.

Relacionamento esse construindo pelo roteiro de modo a desmistificar o estereótipo do violentador masculino, indo numa vertente de falta de inteligência emocional para expressar seus sentimentos, ou masculinidade tóxica como desculpa para pessoas com problemas de manifestar emoções. É nessa elaboração que o filme se perde, e não por ser um reflexo do seu período, mas por estabelecer um ideal bacana da desconstrução de situações familiares abusivas da época, que lentamente se perde no equilíbrio de simpatizar Liliom e condenar suas escolhas inaceitáveis. O mote tem o intuito de construir um estudo da personalidade grosseira do protagonista, porém, termina por ser bastante superficial e justificativo das babaquices de Liliom. Felizmente, a trama toma ares fantasiosos que transformam a narrativa até aqui.

Liliom, junto de um amigo, orquestram um assalto, numa tentativa frustrada de ganhar dinheiro rápido, pois Julie está grávida. Após o plano criminoso se mostrar mal-sucedido, Liliom é encurralado por dois policiais, e num ato de medo misturado a orgulho, o personagem escolhe o suicídio ao invés da prisão. E então entramos na criatividade fantástica de Fritz Lang, que teletransporta o protagonista para uma espécie de sala de espera, onde seu destino, céu ou purgatório, será decidido. E a imaginação de Lang corre solta, com balanças morais gigantescas, anjos e demônios burocráticos e estrelas roubadas. Existe um quê de realismo entrelaçado ao sentimentalismo onírico na composição do fantástico que grita Cinema. Um verdadeiro mestre da Sétima Arte se divertindo na criação fantasiosa.

Após ser sentenciado a 16 anos no purgatório por seus crimes, Liliom recebe a oportunidade de retornar à Terra para uma última oportunidade benevolente, que, dependendo do ato, confirmará sua estadia infernal ou levará o protagonista para o júbilo eterno. Adoro toda a situação punitiva envolta no pós-morte do personagem, havendo julgamento nos olhares dos anjos, e até mesmo um monitor expondo a violência doméstica como pecado essencial da sua ida ao purgatório. Indo de encontro à repreensão de Liliom, temos o arco de redenção, que, aliás, não se concretiza, e é intrigante no modo de desenvolvimento de Liliom, que mesmo sofrido e vergonhoso, manteve sua personalidade violenta, estapeando a mão da sua filha. Vemos a balança capengando para o purgatório, e imagina-se que o final seja esse. Temos a crítica a violência doméstica e punição eterna como desfecho da obra, até que, infelizmente, o roteiro deseja salvar o personagem.

Não sou contra a proposta de redenção, e muito menos da ideia de desconstrução da imagem masculina do período — que acho interessantíssima, especialmente pensando no período que o filme foi concebido —, porém, a narrativa termina por romantizar o abuso doméstico no momento que a filha toma para si o tapa como um ato de amor, e a balança salva Liliom. Pode-se dizer que a escolha do desfecho tem o intuito de expor o amor da filha como momento de remição e perdão, ou/e do propósito inicial de demonstrar os atos criminosos de Liliom na desculpa esfarrapada que ele não sabe como ser melhor, mas esses argumentos não me vendem o final, que, particularmente, vejo como uma quebra da linguagem fílmica certeira de desconstruir o estereótipo ao mesmo tempo que o pune. Ainda que venha com um final agridoce, considero o saldo positivo, principalmente pela direção e engenhosidade de Fritz, e do próprio roteiro corajoso que, infelizmente, se perde logo antes de acabar. Apesar dos problemas, Coração Vadio é, sem sombra de dúvidas, uma obra interessante na extensa filmografia do genial cineasta.

Coração Vadio (Liliom) — França, 1934
Direção: Fritz Lang
Roteiro: Fritz Lang, Robert Liebmann, Bernard Zimmer (baseado na peça “Liliom” de Ferenc Molnár)
Elenco: Charles Boyer, Madeleine Ozeray, Alexandre Rignault, Henri Richard, Marcel Barencey, Raoul Marco, Antonin Artaud, Robert Arnoux, Roland Toutain, Léon Arvel, René Stern, Mimi Funes, Maximilienne, Viviane Romance
Duração: 118 min.

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