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Crítica | Corações em Luta

por Rodrigo Pereira
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Ao iniciar a projeção de Corações em Luta somos apresentados a alguns avisos sobre como a cópia centenária desta obra passou por poucas e boas ao longo do tempo, tendo, inclusive, participação importante da Cinemateca Brasileira para que fosse preservada e restaurada. A série de anúncios já nos prepara para uma fita com eventuais problemas (que estão, de fato, presentes), mas que de forma alguma afeta o trabalho final do autor.

Dirigido por Fritz Lang, o filme acompanha a desconfiança matrimonial de Harry Yquem (Ludwig Hartau) para com Florence Yquem (Carola Toelle), sua esposa, após o homem comprá-la uma jóia em um local clandestino e, em determinado momento, cruzar com William Krafft (Anton Edthofer), suposto antigo caso amoroso de sua amada. Esta foi a melhor maneira que encontrei para resumir a história que Lang pretende contar, haja vista a grande confusão durante praticamente o primeiro ato inteiro. Confusão que se torna ainda maior com a entrada em cena de Meunier (Robert Forster-Larrinaga) e Werner Krafft, irmão gêmeo de William e interpretado pelo mesmo ator, que também tentarão convencer Florence a largar seu marido.

É difícil acompanhar o início da narrativa proposta por Lang justamente pela forma como apresenta suas principais personagens. A demora para que haja qualquer menção a suposta traição de Florence com um dos irmãos Krafft anos atrás, assim como a aparição de Meunier, acabam causando uma sensação de que estão faltando pedaços na história, criando a confusão há pouco citada. Felizmente, o diretor elimina essa sensação no segundo ato, expondo sua história com clareza ao mesmo tempo que não perde o ritmo da narrativa.

O que chama mais atenção no filme, entretanto, pouco tem a ver com sua história e muito menos com os problemas apresentados. A maneira como Lang emprega diversos recursos técnicos em sua obra é onde residem suas maiores virtudes e são a prova do porquê o cineasta é tido como um dos maiores da história do cinema. Estamos falando de um filme de 1921, quando a sétima arte começava a caminhar, a tecnologia disponível era muito mais rudimentar e que mesmo assim impressiona pela genialidade de seu realizador.

Podemos identificar essas virtudes ao longo de toda obra. As diversas vezes em que Lang fecha o campo de visão, geralmente no rosto de alguma pessoa ou em algum detalhe, para realçar algum sentimento em específico ou dar ênfase em alguma situação. Quando Harry Yquem, escondido, observa o possível antigo caso de sua esposa e a iluminação muda de um ambiente para outro, deixando Harry muito mais sombreado, justamente por estar espreitando uma conversa alheia. A utilização da profundidade em alguns ambientes para melhor ambientação da cena, com conversas paralelas ocorrendo alheias ao foco da câmera. A alternada trilha sonora, dialogando perfeitamente com a imagem em todos os momentos da projeção, seja nos de alegria, aflição, malícia, etc. 

Ainda que esteja longe de ser uma obra-prima, Corações em Luta integra o início da carreira de um dos gigantes do cinema e, mais importante, já carrega muito da genialidade de Fritz Lang. Sua confusa narrativa inicial toma forma aos poucos, é maximizada pela técnica e resulta em uma obra bastante interessante que aborda tanto a questão da desconfiança quanto a pouca voz feminina naquele período, mesmo em assuntos que lhe diziam respeito diretamente.

Corações em Luta (Vier um die Frau) – Alemanha, 1921 
Direção: Fritz Lang
Roteiro: Fritz Lang, Thea von Harbou, Rolf E. Vanloo
Elenco: Hermann Böttcher, Carola Toelle, Lilli Lohrer, Ludwig Hartau, Anton Edthofer, Robert Forster-Larrinaga, Rudolf Klein-Rogge, Lisa von Marton, Gottfried Huppertz
Duração: 84 min.

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