Crítica | Cores e Botas

Privilegiados chamarão de vitimização, mas por que será que a representação negra nos programas ao estilo “Xuxa” sempre foram praticamente nulas? Questionamento que vem na esteira da percepção de que estamos falando de uma atração exibida num país de contingente populacional tão multicultural?  Há algo muito racista nesta história. A dançarina “Bombom”, conhecida por sua postura lasciva e sensual, com figurino diferenciado das “Paquitas”, talvez seja a única referência que temos dentro desse espaço de representação.

No campo da literatura brasileira, algo muito parecido pode ser encontrado nas descrições de Isabel e Ceci em Loura ou Morena, quinto capítulo do romance O Guarani, de José de Alencar, trecho onde o escritor descreve as características da europeia pura, tratada por adjetivos conectados ao “puro”, enquanto no caso da mestiça, traçou um extenso vocabulário crítico, abordado numa lógica bem preconceituosa.

Sendo assim, Bombom, com toda sua exuberância, semelhante ao molejo de Isabel, era uma dançarina tratada tal como a mulher negra fora retratada ao longo da história midiática brasileira, herança de Rita Baiana e outras personagens do nosso rico e extenso panorama literário: objeto sexual ou alguém atrevida e exibida, adjetivos que presenciei ao longo da minha juventude enquanto espectador dos programas da apresentadora loira, exibidos nas tardes de sábado na televisão aberta, na sala de casa, juntamente com a parcela branca e privilegiada da minha família.

Essas pessoas geralmente se posicionavam de maneira racista e, em quase todos os casos, nunca se deram conta disso, tamanha a extensão desta celeuma, espalhada como um rizoma em nossas práticas cotidianas. Creio que todos conseguiam imaginar Bombom como uma dançarina responsável pelos closes sensuais da câmera que a transformava em objeto para o telespectador, público que jamais a conseguiu olhar com o aspecto angelical das garotinhas meigas e brancas que acompanhavam a apresentadora da atração.

Para refletir sobre o assunto, creio que seja viável conferir o curta-metragem Cores e Botas, lançado em 2010, pela cineasta brasileira Juliana Vicente. No roteiro há a história de Joana (Jhenyfer Lauren), uma criança que tal como as tantas meninas que consumiam os produtos da televisão aberta dos anos 1980, sonhava em ser uma das paquitas do Show da Xuxa. A família assiste ao desejo um tanto reticente, pois mesmo diante da casa de porte médio, Joana carrega em suas características físicas a pele negra e o cabelo crespo, elementos que não dialogam com os padrões da atração exibida durante muitos anos na Rede Globo de Televisão.

Certo dia, a garota informa que fará o teste para a seleção das novas coadjuvantes do programa da apresentadora Xuxa. O irmão critica, mas o pai repreende, alegando que na época dele, ninguém criticava o seu interesse pelo programa do Fofão. Mesmo ciente das possibilidades parcas, Joana se inscreve e parte para a seleção. No local, as ironias e deboches pululam constantemente, com perguntas do tipo: “será que teremos uma paquita exótica?”, “a sua mãe deixou você fazer o teste, mas você nem parece paquita?”.

Há um momento que Joana cola diversos pedaços de fita amarela na cabeça, interessada em se parecer tanto com as moças que parecem delinear o que a TV insiste em apontar como padrões de beleza. O que Joana precisará compreender, tão logo, é que para se sentir bonita não é preciso necessariamente ser loira, uma lição tratada de maneira poética pela cineasta Juliana Vicente.  No desfecho, realista, haja vista a noção do preconceito comum ao programa em questão, Joana arranja outra forma de significar a sua existência: a fotografia.

Para contar a história, a cineasta consegue emular bem os anos 1980: há uma cena com a família a assistir o famoso debate entre Lula e Collor, caso famoso de manipulação na história política brasileira; a direção de arte, assinada por Regina Célia Barbosa, cuidadosa, resgata objetos de cena valiosos para o mergulho histórico, juntamente com a peculiar cenografia da casa onde reside Joana e seus familiares.

Cores e Botas faz uma reflexão é muito valiosa. Provavelmente inspirado na trajetória da própria cineasta, o curta-metragem aponta o dedo para a falta de responsabilidade de um dos maiores ícones de diversas gerações de garotas brasileiras, isto é, a apresentadora Xuxa, celebridade que há alguns anos foi criticada por seu fetiche pela pobreza, ao fazer uma selfie com meninos negros num semáforo enquanto se deslocava de carro para realização de sua programação cotidiana. Representação da padronização típica da TV Globo, também responsável por criar outros “produtos fabricados”, tal como a língua portuguesa estática e “ideal” falada por William Bonner, Xuxa e sua equipe de produtores teceram, durante longo tempo, uma malha de exclusão e preconceito que fez muita garota negra, gorda e indígena sentir-se alijada da dinâmica social, alvos constantes de bullying e violência de outros tipos.

Cores e Botas — Brasil, 2010.
Direção: Juliana Vicente
Roteiro: Juliana Vicente
Elenco:  Jhenyfer Lauren, Danni Ornellas, Luciano Quirino, Bruno Lourenço, Maristela Chelala
Duração: 16 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.