Crítica | Cores e Filmes: Um Estudo da Cor no Cinema, de Maria Helena B. Vaz da Costa

Fritz Lang e o seu abajur verde ervilha em O Diabo Feito Mulher. As cortinas verdes em Disque M Para Matar, suspense de Alfred Hitchcock, indicam a presença do assassino prestes ao ataque. O realismo crítico face ao artificialismo das cores no cinema de Godard. São tantos casos e destaques que torna-se impossível relatá-los em sua totalidade num livro, tampouco numa crítica. Ainda assim, a tentativa de apresentar a cor, elemento que tal como a música e a luz, tornou-se elemento de relevância no processo de criação do cinema, tendo como ênfase o estabelecimento da emoção dos personagens e demais desenvolvimentos internos das narrativas. Esse é o trabalho de Maria Helena Braga Vaz da Costa em Cores e Filmes: Um Estudo da Cor no Cinema.

Em seu livro, dividido em quatro capítulos, a Editora CRV assumiu a confecção da capa, minimalista e interessante, diagramação econômica, com espaçamentos comuns e fontes pequenas, tendo em vista provavelmente economizar na quantidade de páginas impressas. Resultado da sua dissertação de mestrado desenvolvida na Inglaterra, a publicação é uma travessia analítica pelo avanço da tecnologia na indústria cinematográfica, focada no estabelecimento da cor nos filmes que até determinado período, eram em preto e branco. Ao passo que analisa a história do cinema, Maria Helena Braga Vaz da Costa aponta questões além do quesito estético, num mergulho nos meandros sociais, políticos, econômicos e ideológicos que envolvem o cinema enquanto arte de massa desde as suas origens.

A introdução e o primeiro capítulo, intitulado “Cinema e Tecnologia: Uma Visão Crítica”, tratam da inserção da cor do cinema junto ao interesse dos cineastas em imprimir realismo aos seus filmes. O glamour das “estrelas” também seria potencializado pelo surgimento do cinema em cores, talvez a maior revolução nesta modalidade artística depois da sincronização do som. Mas a longa história não é tão simples assim: muitos cineastas não aderiram ao “novo” e as cores nos filmes ganharam intensa popularidade depois que uma concorrente de peso chegou para tirar o sossego dos produtores de cinema: a televisão. Foi um dos movimentos catalisadores do maior engajamento pelas cores, algo que aumentou quando a televisão também ganhou paleta multicolorida.

Para driblar a sedução domiciliar da TV, mais filmes coloridos eram produzidos, num processo de transformação que reflete até os nossos dias atuais, basta observar as demandas e convergências entre cinema, televisão e internet. Assim, nos capítulos “Para Um Entendimento da Cor no Cinema” (capítulo 02), “O Fator Econômico no Desenvolvimento do Cinema em Cores” (capítulo 03) e “A Cor Como Sistema de Significação” (capítulo 04), a autora desenvolve um panorama histórico que versa sobre o efeito realista das obras do Renascimento, movimento conhecido por suas pinturas, planos, iluminação e outros recursos que permitem a proximidade do real tão desejada pelo cinema, alcançada ao passo que as cores imprimiram fidelidade aos filmes.

O uso da cor, dessa forma, envolve três modos especiais: o físico, o estético e o psicológico. No modo físico, a cor afeta o espectador, dando-lhe a sensação de prazer, algo estudado pelo modo estético, responsável pela seleção das cores conforme o efeito que se deseja produzir, o que culmina no modo psicológico, isto é, as respostas dos espectadores aos estímulos das imagens. Importante salientar que mesmo sendo um recurso de caráter ideológico e estético capaz de dar ao cinema a revolução necessária para torna-lo a “arte da modernidade”, logo em suas primeiras inserções, as cores causavam atraso aos filmes, pois ainda era um elemento de finalização desconhecido e que desanimava alguns realizadores ansiosos pelas cifras.

A adoção da cor pelo cinema coadunou com o movimento dos musicais, filmes que ganharam bastante com a nova forma de se contar histórias: sonoramente sincronizado e com cores vivas e realistas, a “indústria dos sonhos”. Nem todo mundo gostava, fato, pois mesmo que as cores tenham vangloriado a beleza das estrelas de cinema, cineastas como John Huston achavam que a sua presença sem um estudo minucioso prejudicava a plateia no que concerne à atenção na história, configurando-se então um processo prejudicial para a compreensão dos filmes. Sergei Eisenstein também via nas cores uma escolha muito pontual, sem aderência ao sem uso deliberado, como o sistema hollywoodiano fez, na busca por maior expansão cultural.

Ademais, a autora cita casos pontuais de filmes. Jezebel, dirigido por William Wyler em 1938, tinha uma cena de baile com Bette Davis e um vestido vermelho que fora proibida de usar. Elemento importante na condução dramática do filme, como seria a veiculação da cena em cores? Qual a comparação de efeito com o preto e branco? Depende muito, afinal, Manhattan, um dos melhores filmes de Woody Allen, evoca o passado por meio da tonalidade em questão, sem a presença das “cores”, efeito de estilo proposital para a busca nostálgica do cineasta.

Até mesmo os filmes mais contemporâneos aderem ao preto e branco quando desejam estabelecer uma finalidade estética e dramática específica. Dentre tantos exemplos, Vaz da Costa ilustra o seu texto com Hitchcock, um esteta de primeira linha. Fornece comentário para o vermelho em Marnie, Confissões de Uma Ladra, cor para evocação do passado da protagonista, e Um Corpo Que Cai, produção que investiu na cor que assustava Marnie para as cenas de tensão, além do emprego de verde e azul nas imagens externas e marrom, laranja e amarelo em contraste, para as cenas internas.

Ademais, o livro traz outras interpretações históricas para compreensão do avanço das cores no cinema e flerta com uma discussão bem atual sobre a necessidade da pesquisa para entendimento das condições econômicas, políticas e estéticas do desenvolvimento de produtos em um mercado, etapa de elaboração e desenvolvimento que em nossa “sociedade 2019”, aproxima-se cada vez mais da calamidade. Publicado em 2011 pela Editora CRV, o livro apresenta uma estrutura comum, estranhamente sem imagens ao longo de suas 96 páginas sucintas, mas bem informativas.

O que falta em ilustração sobra nos ajustes das teorias, explicadas de maneira didática e que nos aguça ao exercício da pesquisa, isto é, sair em busca das imagens comentadas, mapeadas pelo texto de Maria Braga e Vaz da Costa, graduada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal de Pernambuco e doutora em “Media Studies” pela Universidade de Sussex, situada na Inglaterra. Professora do Departamento de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, a autora assumiu a coordenação do Grupo de Pesquisa Linguagens da Cena: Imagem, Cultura e Representação. Um livro que deve ser lido e conhecido, haja vista as tímidas publicações sobre o tema veiculadas no Brasil.

Cores e Filmes: Um Estudo da Cor no Cinema (Brasil, 2011)
Autor: Maria Helena Braga Vaz da Costa
Editora: CRV
Páginas: 96

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.