Crítica | Coringa (graphic novel – 2008)

Começarei a presente crítica já dissipando algumas conclusões apressadas que leitores menos cuidadosos possam ter: o visual do Coringa criado aqui por Lee Bermejo não foi – e eu repito não foi – inspirado no visual de Heath Ledger no papel do Palhaço do Crime em Batman: O Cavaleiro das Trevas. Mesmo tendo sido publicada meses depois do lançamento do filme, Brian Azzarello e Bermejo já estavam trabalhando nos conceitos de sua obra bem antes da primeira imagem de Ledger caracterizado ter sido lançada e, se alguma coisa, foi Christopher Nolan e equipe que se inspiraram na criação de Bermejo e não o contrário. Só minhas palavras? Não mesmo. Basta reparar na página 3 da graphic novel Lex Luthor: Homem de Aço que a dupla criativa lançou em 2005, ou seja, três anos antes da grande obra-prima super-heroica de Nolan, para notar que o Coringa com o sorriso retalhado já aparecia por lá, em uma imagem de jornal.

Esclarecida essa possível (e justa) dúvida inicial, foi exatamente a referida HQ em cinco edições focada no grande vilão do Superman que inspirou Azzarello e Bermejo a mais uma vez se juntarem para trabalhar com outro icônico vilão, talvez o maior de todos da Nona Arte: o Coringa. Para terem completa liberdade, a narrativa é Elseworlds, ou seja, é uma história não canônica, que, considerando a conexão com a recente Batman: Almadiçoado, já poderia ser um mini-universo próprio batizado de Azzarellobermejoverso (ok, horrível, mas deu para entender, não é?). Nesse ambiente sem amarras de continuidade, vemos o Coringa mais uma vez saindo do Asilo Arkham e, ato contínuo, tentando retomar seu território perdido em Gotham City no melhor estilo de filme de gângster. A narrativa, porém, é contada a partir do ponto-de-vista de Jonny Frost, ambicioso personagem criado especificamente para a graphic novel que é nossa “entrada” nesse mundo sujo e violento, tornando-se um espectador trágico dos eventos que se desenrolam.

(1) Surge o Coringa e (2) Jonny Frost tem uma “conversa” com Croc.

Essa versão do Coringa parece focada nos objetivos acima citados, deixando a insanidade de lado ou, pelo menos, usando-a de maneria metódica e deliberada para alcançar seus fins. No entanto, essa conclusão é enganosa, apenas uma impressão inicial e de superfície do que está acontecendo, pois Azzarello, inteligentemente, planta um subtexto que aos poucos deixa claro que o Coringa apenas usa essa sua “necessidade” de subir novamente no submundo do crime da cidade como uma conveniente desculpa para fazer o que mais gosta: causar o caos. E, mais do que isso, vemos sua psicopatia aflorar em um crescendo que consegue ser realmente revoltante, com atos de violência que vão desde esfolar um homem vivo, esfregar uma garrafa quebrada no rosto de outro e estuprar uma mulher, ainda que, nesse último caso, os autores tenham tido a decência de “pular” a parte gráfica.

Mas o que é realmente doentio em tudo isso é que toda essa construção narrativa que faz surgir talvez o mais assustador Coringa de todos (mais até que o de Ledger, diria) tem um propósito enterrado bem profundamente no texto, mas que aflora de tempos em tempos: chamar a atenção do Batman. Aquela conexão simbiótica, mas antitética entre os dois torna-se visível nas afirmações do Coringa sobre “estar sendo observado” e outros momentos parecidos que dão a entender que o vilão sente uma certa tara pelo Homem-Morcego, um ódio ou talvez nem isso, uma dependência possivelmente que, de tão profunda, torna-se amor retorcido que justifica toda a violência que vemos página a página. E Jonny Frost, tardiamente, percebe no que se meteu, não conseguindo mais se desvencilhar desse turbilhão risonho que destrói tudo ao seu redor.

A arte de Lee Bermejo é, em grande parte, responsável pela eficiência da caracterização do Coringa e da graphic novel como um todo. Se seu trabalho não chega ao mesmo nível do que vemos em Batman: Amaldiçoado, isto se dá única e exclusivamente pelo fato de que diversas páginas tiveram arte-finalização ao encargo de Mick Gray, que suaviza e, de certa maneira, simplifica o lápis de Bermejo. Quando, porém, Bermejo faz tanto os lápis quanto as tintas, sua arte alcança toda a glória pútrida de uma Gotham City realista neo-noir que o texto de Azzarello exige. No entanto, que fique bem claro que não quero aqui fazer comentário negativo algum em relação a Gray, pois ele faz um belíssimo trabalho em cima do lápis de Bermejo, mas é que, na comparação – e ela é inevitável, pois são sensíveis as mudanças – ele acaba sofrendo.

A graphic novel singelamente intitulada Coringa é, em poucas palavras, uma obra-prima. No mínimo é a mais aterradora versão do Palhaço do Crime nos quadrinhos, quiçá em qualquer mídia. Um feito e tanto considerando a variedade de Coringas sensacionais que as décadas nos trouxeram desde sua criação em 1940.

Coringa (Joker, EUA – 2008)
Roteiro: Brian Azzarello
Arte: Lee Bermejo
Arte-final: Lee Bermejo, Mick Gray
Cores: Patricia Mulvihill
Letras: Robert Clark
Capa: Lee Bermejo
Editoria: Will Dennis
Editora: DC Comics (hoje pelo selo DC Black Label)
Data original de publicação: outubro de 2008
Editora no Brasil: Panini Comics
Data de publicação no Brasil: fevereiro de 2009
Páginas: 130

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.