Crítica | Corpo em Evidência

Quando estreou em 1993, Corpo em Evidência apresentou uma trama soft-pornô com estrutura muito semelhante ao sucesso de Paul Verhoeven do ano anterior, Instinto Selvagem, suspense policial sobre uma loira fatal neo-noir interpretada por Sharon Stone, responsável por transformar a vida do personagem de Michael Douglas num inferno, pela segunda vez, por sinal, haja vista o embate com Glenn Close no igualmente triunfante Atração Fatal, de 1987, trama também erguida com fortes elementos de tensão sexual.

Em Corpo em Evidência sai Michael Douglas e entra Willem Dafoe. A viúva negra da vez é Madonna, numa das suas participações mais constrangedoras enquanto desempenho dramático no cinema. Na época a artista estava no auge da explosão sexual de sua carreira. O álbum Erotica, veiculado em paralelo com o polêmico Sex, livro de fotografias com tons pornográficos havia ganhado bastante projeção. Massacrada pela crítica puritana e histericamente preconceituosa, Madonna enfrentou um turbilhão por conta de suas escolhas, o que lhe fez produzir Something to Remember, álbum de baladas românticas para suavizar a imagem diante da mídia e pavimentar sua longa estrada rumo ao musical Evita, de Alan Parker.

No filme ela é Rebeca Carlson, uma mulher sensual e atraente, acusada de ter matado um milionário em sua cama, durante o ato sexual. O homem que morrera de ataque cardíaco teria sido induzido pela moça voluptuosa moça a se entregar aos “prazeres mortais”. Nas imagens capturadas pelos investigadores, ela aparece com a vítima em fortes embalos, o que indica a sua responsabilidade pela morte, tendo em vista uma suposta herança à sua espera. É quando Franky Dulaney (Willem Dafoe), um homem enfeitiçado pela loira misteriosa. Seria ela a culpada ou não passa de uma vítima inocente entregue aos prazeres da fornicação?

Para saber, o investigador terá que se envolver com a aparentemente perigosa garota, numa trama que seria mais interessante caso não existisse Instinto Selvagem, lançado um ano antes e infinitamente melhor em todos os aspectos estéticos e dramáticos. Em seus 99 minutos, Corpo em Evidência traz a direção de Uli Edel como um dos maiores equívocos do filme, orquestração audiovisual de um roteiro já insosso, assinado por Brad Mirman, dramaturgo que organiza a sua estrutura dramática muito além da homenagem ou simples referência, tomando de empréstimo diversas passagens do filme com Sharon Stone, forçando a barra em todas as suas cenas, até mesmo no ousado trecho do estacionamento, uma clara tentativa de chocar mais que a cruzada de pernas mais famosa do cinema, situação cinematográfica de alta carga psicanalítica, momento que vai muito além das curiosidades e fofocas de celebridades.

Os elementos narrativos estão longe da ofensa estética. A direção de fotografia de Douglas Hilsome é eficiente ao captar os cenários de Jerie Kelter, parte integrante do design de produção assinado por Victoria Paul, competente na ambientação domiciliar da personagem Rebeca Carlson, setor que dialoga bastante com os figurinos adequados de Susan Becker. Captada pelas imagens de Hilsome, Madonna e quase todo o elenco não conseguem convencer que a história contada é interessante, ao contrário, demonstra descuido com determinadas escolhas, numa construção dramática vulgar do estilo noir.

No hall dos filmes sobre mulheres psicopatas, Corpo em Evidência é um dos menos interessantes. A sua trama é pobre, os desempenhos dramatúrgicos pífios, a atmosfera narrativa não é inebriante, restando ao espectador acompanhar as clássicas cenas que fizeram história e utilizaram a apelação para causar impacto. Não deu certo. Julianne Moore, atriz que faz uma pequena participação, alega ter vergonha do filme, tamanha a ruindade do argumento, bem como do roteiro e seus “diálogos de plástico”. A atriz foi vítima de uma dessas mulheres fatais alguns anos depois, em O Preço de Traição, uma trama igualmente questionável, mas bem menos constrangedora.

Corpo em Evidência — (Body of Evidence) Estados Unidos, 1993.
Direção: Uli Edel
Roteiro:  Alison Cross, Brad Mirman
Elenco:  Madonna, Anne Archer, Joe Mantegna, Julianne Moore, Jürgen Prochnow, Willem Dafoe
Duração: 99 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.