Crítica | Corpos Ardentes

Corpos Ardentes é, dentre tantas coisas, um filme sobre pessoas comuns a viver experiências extraordinárias, numa narrativa densa que aposta na atmosfera onírica para envolver o espectador diante da trama que flerta também com temas ditos universais, tais como a ganância, o desejo e a vida diante da tentação de se entregar ao carpe diem ou conter-se diante dos códigos morais impostos socialmente. O calor é intenso, alegórico para a condição sexual dos protagonistas, espécie de desculpa para justificar as atitudes pouco reflexivas dos acontecimentos nevrálgicos para o desenvolvimento dos conflitos apresentados pelo roteiro.

Com pequenos personagens e detalhes expostos ao longo do desenvolvimento do enredo, itens que mais adiante demonstram a sua importância para a condução de determinadas situações, o filme nos apresenta aos jovens e saudáveis Ned Racine (William Hurt), um advogado bem ativo sexualmente e em busca de uma relação, e Matty Walker (Kathleen Turner), esposa de um homem milionário, conhecida por perambular sozinha por bares da cidade, tratada por alguns como “uma víbora fatal”, mas que na presença de Racine, aparente ser uma doce e delicada esposa sem a devida atenção do marido distante, Edward Walker (Richard Crenna), homem que segundo uma fala supostamente inocente e pueril, não deixaria os amantes consumarem seus desejos “enquanto estivesse vivo”.

Não é preciso muita imaginação para compreender que a paixão aflorada de Racine o fara seguir, conscientemente, o que a esposa sugeriu. Ceifar a vida do marido inconveniente é o único caminho para a celebração da união regrada por cenas intensas de sexo e desejo, emolduradas por espelhos que refletem o “duplo” de seus personagens, bem como jogos de luzes e enquadramentos distorcidos que insistem em reforçar que há algo de muito errado na condução da história, afinal, a apaixonada Matty Walker pode não ser de fato quem nós, bem como os personagens, imaginávamos que fosse.

Sem conter as suas inspirações, Lawrence Kasdan, realizador e também responsável pelo roteiro, emula elementos da estética narrativa de Brian De Palma, estabelece a atmosfera noir que nos remete ao denso Pacto de Sangue, de Billy Wilder, lançado em 1944, além de ter traços de Fuga ao Passado, de Jacques Tourneur, de 1947, referências declaradas que não tornam o filme um plágio, mas ao contrário, algo novo dentro de um esquema narrativo que já nos anos 1980 passava por um processo de repetição constante, haja vista o impacto de seus contextos históricos com transformações no conceito de família e na relação entre as pessoas, o sexo e o dinheiro.

Ao compor a atmosfera audiovisual por onde circulavam os “corpos ardentes” e “sedentos” de paixão, o cineasta Lawrence Kasdan, contou com a primorosa direção de fotografia de Richard H. Kline, profissional responsável pelos movimentos de câmera, iluminação e enquadramentos interconectados ao estilo noir. Os figurinos de Renie Conley vestem bem os protagonistas e delineiam os seus contrastes, em especial, as roupas que vestem o sensual corpo de Kathleen Turner, geralmente de roupas brancas com fendas que revelam uma identidade lasciva num misto de inocência que tal como sabemos, não pertence às mulheres do noir.

Os personagens circulam pelos ambientes ornamentados pela cenografia também cuidadosa de Rick Gentz, parte integrante do design de produção assinado por Bill Kenney, atento aos elementos visuais necessários para a captação de imagens, adornadas na pós-produção pela adequada trilha sonora de John Barry, carregada de jazz e instrumentos típicos da musicalidade noir, tramas com sensualidade pulsante e clima de crimes e mistérios no ar. Os ventiladores da direção de arte supervisionada por Kenney reforçam, constantemente, a necessidade de ar mais fresco para pensar em suas próprias atitudes, algumas sem retorno para determinados personagens.

Relativamente contemporâneo ao tenso Perversa Paixão e antecessor às incursões de Glenn Close e Sharon Stone como “mulheres fatais e perigosas” em Atração Fatal e Instinto Selvagem, respectivamente, Corpos Ardentes subverte os estereótipos das mulheres tomadas pela paixão, tais como as heroínas do romance romântico do século XIX, também presentes em alguns filmes do cinema clássico hollywoodiano, para nos apresentar uma sedutora e diabólica esposa que encomenda a morte do marido nas entrelinhas, goza da herança que lhe é ofertada pelas leis do estado e ainda não precisa do furador de gelo ou do cozimento de um coelho de estimação para causar o mais profundo horror no suposto herói da narrativa, levado pelo canto desta estonteante mulher, uma alegoria para as sereias que quase arrastam o Ulisses homérico ao “deslize mortal” em sua trajetória de longo retorno para casa.

Corpos Ardentes — (Body Heat) Estados Unidos, 1981.
Direção: Lawrence Kasdan
Roteiro:  Lawrence Kasdan
Elenco:  J.A. Preston, Jane Hallaren, Kathleen Turner, Kim Zimmer, Mickey Rourke, Richard Creena, Ted Danson, William Hurt
Duração: 109 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.