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Crítica | Correspondente Estrangeiro

por Luiz Santiago
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Quando filmou Correspondente Estrangeiro, seu segundo filme em Hollywood, Hitchcock já tinha experiência em dirigir dramas de espionagem e de cunho político das mais diversas motivações, como podemos comprovar em algumas de suas películas britânicas como O Homem Que Sabia Demais (1934), Sabotagem (1936), Agente Secreto (1936) e A Dama Oculta (1938).

Depois de tentar contratar Gary Cooper para o papel principal e receber um “não” do ator (que se arrependeria disso anos depois), Hitchcock precisou se conformar com um elenco que não o conquistara totalmente, mas do qual conseguiu boas atuações e com o qual conseguiu fazer um filme ágil e instigante, dentro de um contexto dramático do século XX: o início da II Guerra Mundial.

Além do tema, prendem o espectador as locações do filme e o modo como o diretor usou do espaço para tornar a caçada e a descoberta um tanto exóticas. Incluímos aí também o público que geralmente se incomoda com questões de verossimilhança, mesmo que levemos em consideração que Hitchcock tinha como meta desprezar esse tipo de recurso toda vez que fosse possível, a fim de dar maior voz à fantasia. Eu já abordei esse tema outras vezes em críticas dos filmes britânicos do cineasta e volto a dizer que, em sua fase americana, o diretor foi mais criterioso em “desprezar a verossimilhança“, fazendo isso de modo bastante aceitável dentro de sua proposta e dentro de um determinado contexto fílmico, uma atitude que infelizmente não podemos dizer exatamente de todas as suas obras anteriores a Rebecca.

A ação do roteiro se passa no início de 1939, quando um jornalista americano é enviado para a Europa a fim de fazer a cobertura dos eventos que poderiam ou não causar uma guerra. A escolha de Jones (Joel McCrea), o jornalista em questão, é posta no roteiro com um forte tom de cinismo, onde vemos claramente a mão de Hitchcock no texto, mesmo que ele não receba os créditos por isso. Sem nenhuma motivação política e total ignorância em relação aos acontecimentos do Velho Continente, Jones era a “pessoa ideal” para farejar notícias que venderiam jornais e que seriam diferentes de tudo o que o editor geral recebia naquele momento. E… bem, por mais irônico que seja, Jones acaba encontrando uma grande reportagem. Simplesmente por acaso.

Perceba que o engajamento do personagem principal se dá por motivos bem diferentes de uma causa política. Se precisasse classificar, diria que é a intenção de um furo jornalístico instigante e a paixão por uma garota que o faz entrar num covil de nazistas disfarçados e que tem no renomado presidente da associação pacifista um de seus líderes.

O jogo de intenções pessoais, patrióticas e ético-morais dá ao roteiro algo além da descoberta de um espião nazista ou de um grupo que quer matar um político holandês para desencadear a guerra. Talvez pelo disfarce dramático do texto, cujo foco principal é a ação de Jones, a atenção de grande parte dos espectadores centre-se nessa linha de eventos mas há também posições ideológicas nas entrelinhas que, de maneira muito sutil, vêm à tona no embate entre os personagens, cujo comportamento e o que fazem para defender seu país ou a paz mundial diz mais do que suas palavras, discursos, títulos e funções oficiais.

Correspondente Estrangeiro é um dos mais esteticamente virtuosos filmes em preto e branco de Hitchcock. Desde as tomadas ainda nos Estados Unidos, dentro da redação do jornal, até as belíssimas cenas no moinho de vento ou no centro de Amsterdã, temos o cerco de um ambiente quase idílico, um lugar onde não concebemos haver pessoas que querem iniciar um conflito bélico de grandes proporções. Porém, mais uma vez, o diretor nos faz entender que as aparências enganam e que nem a História nem o crime perdoam ou poupam inocentes, alienados, politicamente engajados e isentos. Em algum momento, todos se tornarão vítimas.

  • Crítica originalmente publicada em 24 de março de 2014. Revisada para republicação em 28/01/20, como parte de uma versão definitiva do Especial Alfred Hitchcock aqui no Plano Crítico.

Correspondente Estrangeiro (Foreign Correspondent) – EUA, 1940
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Charles Bennett, Joan Harrison, James Hilton, Robert Benchley
Elenco: Joel McCrea, Laraine Day, Herbert Marshall, George Sanders, Albert Bassermann, Robert Benchley, Edmund Gwenn, Eduardo Ciannelli, Harry Davenport, Martin Kosleck, Frances Carson
Duração: 120 min.

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