Crítica | Correspondentes Especiais

Ao assistir Correspondentes Especiais, pude perceber como uma ideia bem concebida por ser desperdiçada por uma execução repleta de falhas. Tendo o rádio como um dos meios de comunicação responsáveis pela condução dos conflitos dramáticos, a comédia excede o seu tempo de duração, perde tempo com prolongamentos de ações desnecessárias e põe a perder uma excelente discussão para o campo da comunicação, o que não impede, por sua vez, que haja reflexão e subtexto por parte dos espectadores, minimamente conectados com as demandas sociais apresentadas pela história.

Lançado em 2016, Correspondentes Especiais é refilmagem do francês Envoyés Très Spéciaux., o filme foi dirigido por Ricky Gervais, tendo como base o roteiro escrito pelo próprio cineasta, em parceria com Jacques Habib e Simon Michael. Ao longo de seus 101 minutos, a narrativa acompanha o técnico de som Finch (Ricky Gervais) e o locutor Frank (Eric Bana), irreverentes profissionais que se envolvem numa situação de manipulação midiática que satiriza a quase inexistente ética na mídia, algo muito bem feito em Mera Coincidência. Com a incumbência de desenvolver uma demanda solicitada pelo chefe, o editor da rádio Q365 News, eles fabricam uma notícia depois que a tarefa dá errado, o que fará surgir uma série de confusões, fruto da tentativa de construção artificial de heróis midiáticos, algo muito comum no tecido social contemporâneo.

Brigida (America Ferrera) e Domingo (Raul Castillo) representam os adjuvantes da narrativa, membros da história que ajudam a dupla a conduzir o programa radiofônico na parte superior de um estabelecimento comercial. Trocando em miúdos, eles inventam uma situação de conflito geopolítico na América do Sul, sem nem sequer ter saído dos Estados Unidos. Como lidar com a mentira que envolve até a criação de nomes de políticos inexistentes, dentre outras tramoias que tornam tudo um cenário caótico?

Eles precisavam dar conta da cobertura referentes aos acontecimentos sul-americanos. Sem conseguir, começam a emitir notas, estilhaços de notícias falsas, algo que cria comoção nacional e nos faz alegorizar os últimos acontecimentos políticos no Brasil e nos Estados Unidos, mergulhados em disseminação de notícias falaciosas por meio de redes sociais e aplicativos manipulados por usuários cada vez mais alienados. Guiados elo sentimento de idealização da carreira e da tarefa do jornalista na transmissão da “verdade” numa era de questionamento e dúvida geral em torno deste conceito, Correspondentes Especiais traz supostas testemunhas oculares de uma história inexistente, pelo menos se nos guiarmos no ponto de vista dos encurralados fabricadores de notícias para o rádio.

Com uma proposta narrativa dinâmica, mas executada com marasmo, o filme funciona esteticamente. A trilha de Dickon Hinchliffe faz o seu trabalho como um dia comum no laboratório”, sem grandes descobertas ou investimentos, o que explica a conformidade do setor em apresentar experiências sensoriais sem muita expressividade. O mesmo podemos dizer da direção de fotografia assinada por Terry Stacey, básica e guiada por fórmulas, captadora do eficiente design de produção de Brent Thomas, setor preocupado na expressão visual dos espaços narrativos, em consonância com as características de seus personagens.

Ao passo que o filme avança, a mentira torna-se uma gigantesca bola de neve demolidora dos personagens e dos espectadores, haja vista a paciência diante dos problemas que se estabelecem logo na segunda metade. Ambos têm a necessidade de reinvenção da vida, por isso algumas atitudes são justificáveis. Finch é companheiro da infiel e oportunista Eleanor (Vera Farmiga), mulher desesperada por sucesso, oportunista e aproveitadora. Frank, um homem ainda jovem e bonitão, mas necessitado de mais segurança em sua vida financeira e pessoal, uma representação contemporânea de muitos homens que ainda não conseguiram atingir as metas socialmente desejáveis para determinadas faixas etárias.

Correspodentes Especiais  — (Special Correspondents) Estados Unidos, 2016.
Direção: Ricky Gervais
Roteiro: Ricky Gervais
Elenco: Ricky Gervais, Vera Farmiga, Eric Bana, Kevin Pollak, Raul Castillo, America Ferrera, Benjamin Bratt, Kelly MacDonald, Duane Murray,
Duração: 121 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.