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Crítica | Cortina Rasgada

por Luiz Santiago
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Cortina Rasgada é uma daquelas obras famosas pelos piores motivos possíveis, inclusive por declarações nada elogiosas dadas pelo seu diretor. O longa faz parte do “quinteto pós-grandes filmes” de Alfred Hitchcock, a relativamente mal vista reta final de sua carreira que, a despeito do enorme prestígio que o diretor ainda tinha, não acompanharam a qualidade ou tiveram a recepção e marca cultural grandiosas que as produções do cineasta adquiriram até Os Pássaros (1963).

Hollywood mudava. E essa mudança colocou Hitchcock aqui em uma posição que o manteve desconfortável durante todo o tempo, a começar pelo fato de não ter conseguido escalar nos papéis principais os atores que tinha em mente. É verdade que o diretor já tinha passado pelo mesmo problema antes, mas nada parecido com o que ele atravessou com Paul Newman (outro ator do Método com quem não conseguiu trabalhar de maneira harmônica) durante a produção de Cortina Rasgada. Já em relação a Julie Andrews o diretor esteve “apenas insatisfeito”, mas não acumulou nenhum tipo de problema pessoal, apesar de sempre ter dito que ela e Newman nunca conseguiram formar o tipo de casal que ele tinha imaginado ver em tela, o que o forçou a guinar o filme para um outro caminho.

A conjunção de fatores hostis ao Mestre do Suspense se fechou com os problemas que ele mesmo teve com o roteiro, desde a busca por quem escrever até as insistentes sugestões de Paul Newman para mudanças. O trabalho de Brian Moore com o texto, no entanto, tem uma boa premissa e ao menos na criação de diversos momentos de tensão espalhados no decorrer da fita é bastante eficiente. A falha vem no tratamento dado ao casal protagonista, mas nesse caso também pesa o direcionamento de Hitchcock a respeito da dupla, que passa por alguns estágios de relação até terminarem como americanos em fuga de Berlim Oriental, período no qual reatam os laços amorosos e pouco a pouco passam a fazer maior sentido, especialmente na reta final. Essa mudança de tratamento, contudo, é a responsável pelas inconstâncias que temos na interação entre os blocos no miolo do filme, salvando-se aí os momentos de maior tensão.

Fato é que a relação e mesmo a composição desses personagens não é ruim (estamos longe de Agente Secreto, que teve o pior casal de espiões do diretor) e também não está longe do casal em fuga em terra estrangeira que o Mestre trabalhara em O Homem que Sabia Demais (1956). As semelhanças também se repetem na escolha de um espetáculo como canal para o clímax da fita (desta vez, porém, a apresentação é de um balé), com a ação se desenrolando por um tempo ainda maior, fechando-se de forma calorosa e satisfatória diante do casal. No todo, o drama de espionagem que Hitchcock realiza aqui é bastante elegante e vale destacar a excelente exposição que ele faz das cidades e do interior dos hotéis (baita direção de arte!) e os belos figurinos que a grande Edith Head desenhou para Julie Andrews.

Potencializado pela delicada política internacional durante a Guerra Fria, a mistura de física, produção de armas nucleares (ou neutralizadores dessas armas) e luta entre as nações para colocar as mãos nesse tipo de ciência torna o filme ainda mais instigante, a despeito de alguns caminhos que toma. Com uma cena verdadeiramente marcante, que é a do assassinato de Gromek (Wolfgang Kieling) e momentos de grande tensão como a sequência de fuga no ônibus e a sequência do balé (a demonstração visual de quando uma bailarina reconhece o Professor Armstrong na plateia é simplesmente maravilhosa), o filme apresenta um lado intelectual da luta entre o bloco capitalista e o bloco socialista, mas não se furta em temperar essa tensão com os ingredientes dos filmes de espionagem tão famosos na época. O olhar hitchcockiano para uma trama atrás da cortina de ferro.

Cortina Rasgada (Torn Curtain) — EUA, 1966
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Brian Moore
Elenco: Paul Newman, Julie Andrews, Lila Kedrova, Hansjörg Felmy, Tamara Toumanova, Ludwig Donath, Wolfgang Kieling, Günter Strack, David Opatoshu, Gisela Fischer, Mort Mills, Carolyn Conwell, Arthur Gould-Porter, Gloria Govrin
Duração: 128 min.

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