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Crítica | Corvos (2017)

por Luiz Santiago
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Considerando apenas a estrutura sociológica e antropológica no mundo ocidental a partir da Idade Contemporânea, nós percebemos uma movimentação lenta, mas constante da opinião e atitude das pessoas em relação aos filhos. Inicialmente elemento de “ordem divina”, que independia da vontade das pessoas de quererem ou não rebentos, a maternidade e paternidade ganhou novos olhares ao longo do século XX, principalmente depois da II Guerra. Em Corvos (2017), filme ambientado nos anos 1970, o diretor Jens Assur toma o conflito de gerações e a percepção de herança para mostrar como a propriedade de um fazendeiro sueco é ameaçada pela possível queda de produção e pelo fato de seu herdeiro, o filho mais velho, não querer continuar o que era uma tradição para os homens da família.

Aqui reside uma discussão muda do filme, que dá base para outras diversas discussões familiares e existenciais. Tendo vivido em um tempo onde o filho era uma peça de sobrevivência dos negócios e não tinha direito a voz ou a desejos pessoais — seu desejo deveria ser “o bem da família” e não o seu, e ele deveria se acostumar com isso e passar os mesmos valores para o seu primogênito, que deveria existir apenas para cumprir esse propósito –, Agne (Reine Brynolfsson) não consegue entender o comportamento de seu filho Klas (Jacob Nordström), um jovem silencioso, não necessariamente rebelde mas que também não aceita de bom grado o fardo de gerações, não se vendo como propriedade de um destino de “levar o nome e as terras da família” e não colocando o pai em um pedestal de ódio ou adoração. Ele é, para todos os efeitos, um garoto indiferente à fazenda e ao genitor. E isso aos poucos vai enlouquecendo o pai.

O curioso do roteiro de Corvos é como muita coisa é dita não necessariamente de maneira oculta, mas também não anunciada aos quatro ventos. O texto foca na solidão de Agne e a pontual ajuda de sua mulher e filho na propriedade, abordando, aos poucos, as coisas que irão levar o protagonista a uma decisão de grande impacto no final do filme, cuja ordem de organização pode confundir um pouco, a princípio, mas que terá sua verdadeira revelação no final. Enquanto o público observa o duro trabalho no campo e as constantes investidas de Agne para conseguir convencer Klas a ajudar na fazenda (com direito a comportamento psicótico e tudo), vemos o jovem tentar seguir sua vida de adolescente sem grandes preocupações. Por amar aves, Klas passa muito tempo com livros de ornitologia e, para desgosto do pai, consegue emprego nesta área.

Ao longo de uma temporada, vemos o orgulho e a loucura do pai crescerem, à medida que as vontades do filho (também em descoberta da sexualidade) e as ações da esposa vão para caminhos bem diferentes. Todos neste lar possuem sonhos e pensamentos contrastantes, mas apenas um assume isso de maneira dominadora, embora não tenha exatamente uma voz ditatorial e nem maltrate sua família para conseguir o que quer. A relação aqui é complexa e se torna ainda mais inquietante através da direção de fotografia, que opta por tons escuros e por muitos planos grandes, fazendo com que os personagens pareçam pequenos diante da imensidão da natureza à sua volta. Nesse isolamento, cada um busca uma forma de se satisfazer, nem que seja se afastando definitivamente dos problemas.

A direção de Jens Assur é eficiente do começo ao fim — ele sabe trabalhar bem com silêncios, com planos de contexto e com os destaques individuais, obedecendo a persona que o roteiro sugere para cada um — e o longa tem uma montagem que erra pouco. Seu tropeço na duração dos dilemas do protagonista são um tanto diminuídos pela qualidade da atuação de Brynolfsson, mas ainda assim é algo que o espectador sente. Um excesso que poderia ser evitado e que acaba pesando para o filme. Nas relações humanas, a obra alcança um tocante patamar, sendo coerente com a proposta de conflito de gerações e interesses imediatos, culminando com uma densa separação de caminhos e a chegada da incerteza, como sempre acontece quando posturas em conflito são abaladas por uma atitude inesperada.

Corvos (Korparna) –Suécia, 2017
Direção: Jens Assur
Roteiro: Jens Assur
Elenco: Reine Brynolfsson, Peter Dalle, Maria Heiskanen, Jacob Nordström, Saga Samuelsson, Jens Jørn Spottag, Roger Storm, Gösta Viklund, Max Vobora
Duração: 120 min.

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