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Crítica | Cosmópolis, de Don Delillo

por Pedro Pinho
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Modelo para todo day trader, Eric Michael Packer é bilionário antes dos trinta anos. As especulações que fizeram dele uma história de sucesso, no entanto, não o excitam mais – nada parece levantar seu ânimo. Seu casamento, suas várias amantes ou sua rica coleção de obras de arte tampouco despertam interesse. Um dia Eric acorda e decide atravessar Nova York em sua limusine para cortar o cabelo.

Don Delillo é um dos principais escritores americanos vivos. Apontado pelo crítico literário Harold Bloom como um cânone precoce da literatura, o escritor ficou conhecido com maior efusão nos anos oitenta, período em que mais publicou até o momento. Seus livros protagonizam homens em crise, castrados pelo medo da morte e perdidos nas engrenagens da sociedade de mercado, procurando soluções para problemas insuperáveis.

Eric Michael Parker é um típico personagem de Delillo. Quase a personificação do sistema financeiro, passa o dia procurando pela cotação de moedas estatais, apostando em bolhas especulativas e desastres naturais. Para quem se depara com a primeira cena do romance parece óbvio que, no entanto, não se trata de uma história de sucesso. Uma espécie de “jornada do herói às avessas”, Cosmópolis tem por foco um homem em crise, que serve ao mesmo tempo para representar e desrepesentar os temas em que nele se espelham.

Ao longo do dia, Eric tentará chegar ao outro canto da maior cidade do mundo, mas isso não significa que os conflitos não se apresentem com menor intensidade. Começa por apostas furadas na bolsa de valores, atravessa os encontros com a amante e chega até o engarrafamento monumental, causado por um protesto antiglobalização e pela presença do presidente na cidade. 

Delillo é o poeta da exceção, daquilo que acontece fora da ordem do dia, mas que revela a realidade da maneira mais crua e intensa. O leitor é inteiramente cúmplice de sua ironia, que satiriza as situações de sua própria criação. Um escritor que fragmenta a realidade até torna-la mais verdadeira do que antes, e que tem um gosto especial por finais violentos. Onde seus romances parecem suspender completamente a ordem e o sentido, é lá mesmo que encontramos a essência, o real da jornada de Eric Michael Parker até seu corte de cabelo. 

Cosmópolis (Cosmopolis) – EUA, 2003
Autor:
Don Delillo.
Editora: Companhia das Letras.
Tradutor: Paulo Henriques Britto.
Páginas: 198.

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