Home FilmesCríticasCatálogos Crítica | Cowboys do Espaço

Crítica | Cowboys do Espaço

por Iann Jeliel
441 views (a partir de agosto de 2020)

Ao longo da carreira, Clint Eastwood passeou entre as mais variadas representações do herói americano. Entre cowboys invencíveis e policiais moralmente justiceiros, só faltou a Eastwood em algum momento viver um astronauta que venceria a Guerra Fria. E quem diria que isso aconteceria aos 70 anos de idade.

Fase essa em que estava no auge como diretor, com filmes que trabalhavam muito bem seus arquétipos tradicionais em contraste a uma modernidade que questionaria se essas personas não conseguiriam se adaptar a um contexto que não lhes pertencia mais. Cowboys do Espaço não necessariamente seguirá isso de forma dramaticamente tão potente quanto fez em Os Imperdoáveis, por exemplo, mas a base de “uma última missão”, para um veterano que viveu disso, é a mesma. A diferença é que Eastwood nunca viveu a primeira, bem como seu personagem, o que acaba direcionando o filme a um espírito mais aventuresco para combinar com o clima de um sonho pessoal tardiamente realizado.

Estruturalmente, a narrativa é bem simples, direta e linear. Apresentam-se a premissa, os personagens, o treinamento para a missão e a missão. Sem muito esperneio ou mirabolância, a direção conduz o desenvolvimento com um timing preciso que valoriza cada cena e relação sobreposta na história.  A química do elenco junto à montagem dinamiza espontaneamente os acontecimentos em um ritmo ideal, evitando elipses bruscas, mas não postergando interações demasiadamente. É um filme com uma ótima noção de transição entre seus atos, sabendo como preencher cada um deles de modo organizado com a crescente de transformações no tom.

Em essência, seu tom é leve, muito bem-humorado na hora de fazer brincadeiras com as idades dos personagens e o tamanho desafio que encaram, mas também consegue ser levado a sério quando precisa impor um senso de periculosidade ou risco sobre o cancelamento da missão. Prefiro quando está em seu primeiro estágio, pois todo o quarteto está afiadíssimo na comicidade, especialmente e Donald Sutherland, que faz uma espécie de tiozão garanhão muito divertido, as gags envolvendo suas novas paqueras são as melhores piadas do filme. Vale destacar também as que envolvem o atrito dos personagens de Eastwood e Tommy Lee Jones, porque é onde o roteiro localiza seu ponto de intersecção dramática.

Uma das melhores sequências nesse sentido é a briga no bar, que é divertida por se tratarem de velhinhos trocando a mão, mas também é interessante por descarregar um mar de orgulhos aprisionados, utilizados mais à frente para potencializar a grande virada em torno do personagem de Lee Jones, pouco antes da viagem. Para uma virada tão bem construída deixar o final mais emocionante, falta a ela reverberar de modo mais impactante no terceiro ato.  Quando eles finalmente vão ao espaço, a direção de Eastwood parece perder pulso ou, no mínimo, ficar indecisa quando acioná-lo. É legal enquanto há uma tensão mais sugestiva envolvendo somente a execução plástica da missão. Contudo, existe uma série de reviravoltas implementadas de última hora, com a vontade de deixar tudo mais empolgante, mas que não vêm acompanhadas da energia que o deixaria assim.

A sensação é morna e pouco condizente com o senso consequencial que estava singularmente induzido à glorificação do heroísmo. Pergunto-me se não houvesse a transição de tom, um pouco de breguice não melhoraria a sequência final, em termos de ação, porque mesmo diante de personagens já simpatiza dos, tem-se dificuldade de sentir a grandiosidade totalitária do que foi feito por eles, ou se o perigo que sentíamos que eles corriam já não estava manjado. Apesar da previsibilidade e apatia emocional desse final, Cowboys no Espaço é um filme com o coração de seu diretor, trazendo as melhores características de seu cinema bem dialogadas no entretenimento.

Cowboys no Espaço (Space Cowboys | EUA-Austrália, 2000)
Direção: Clint Eastwood
Roteiro: Ken Kaufman, Howard Klausner
Elenco: Clint Eastwood, Tommy Lee Jones, Donald Sutherland, James Garner, James Cromwell, Marcia Gay Harden, Loren Dean, William Devane
Duração: 125 minutos

Você Também pode curtir

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais