Crítica | Cowspiracy – O Segredo da Sustentabilidade

Enquanto nós traçamos numerosas estratégias para economia de água ou atuamos na diminuição da emissão de gases nocivos à atmosfera, há práticas de conglomerados e pequenos empreendedores que anulam as nossas práticas socioeducativas em relação ao meio ambiente. Observe. Você, cidadão responsável, economiza ao tomar banhos mais ágeis, mesmo em dias de profundo estresse. Ao lavar o seu automóvel, regra a água que sai da mangueira. Nos dias mais quentes, lavar a varanda de casa para arejar e trazer a sensação de frescor para o ambiente compete com a nossa culpa diante da necessidade de ser econômico numa era de escassez. É com esse direcionamento que o documentário Cowspiracy – O Segredo da Sustentabilidade adentra em sua reflexão central: o que adiantará cumprirmos a nossa missão como cidadãos comuns? Os agentes da agropecuária e outros setores destroem o meio ambiente numa proporção vertiginosamente maior, o que impede a sensação de qualquer alívio num ecossistema já apresenta dados irreversíveis e que pedem, neste momento, contenção para não se tornar uma realidade ainda mais tenebrosa?

Escrito e dirigido pela dupla formada por Kip Andersen e Keegan Kuhn, Cowspiracy – O Segredo da Sustentabilidade é bem linear e dentro dos esquemas tradicionais dos documentários sobre meio ambiente. Exibe os dados, analisa, apresenta informações embasadas por especialistas e monta os depoimentos favoráveis ao ponto de vista adotado pela produção. Dentro do formato “cabeças falantes”, a direção de fotografia é assinada pela dupla de realizadores, responsáveis também edição e gráficos que explicam os dados mais matemáticos da produção, com mescla de porcentagem, adição, divisão e outras operações didaticamente apresentadas pelos efeitos visuais do documentário que tal como a maioria das produções da linha, segue o orçamento mais enxuto, isto é, financeiramente sustentável.

Ao longo de seus 88 minutos, Cowspiracy – O Segredo da Sustentabilidade cumpre as demandas narrativas de um documentário médio, repleto de informações e dados de pesquisa, subsidiado por entrevistas esclarecedoras, mesmo que o tema seja alvo de polêmica, haja vista alguns contrários ao que é abordado no material, considerado exagerado ou não comprovado cientificamente. Tais detentores dessa postura contrária, no geral, estão associados aos interesses da indústria agropecuária, o que não lhes permite o luxo de assumir a discordância da fonte que lhes proporciona dinheiro. No fundo, devem reconhecer os danos, mas eles agem tal como uma antiga colega de trabalho que eu tinha. Certa vez, quando a caixa fornecedora de água deu defeito e começou a jorrar água potável em doses generosas, a responsável por chamar um técnico para resolver o problema alegou que não estava com muita pressa. Quando questionada sobre o desperdício, um agente que supostamente promoverá a escassez de recursos hídricos no futuro, ela respondeu de maneira taxativa e que beira aos elementos de um texto tragicômico: “até a água do planeta acabar, já estarei morta”. Pensamento típico de imediatistas egoístas que pensam apenas em si e nos poucos que estão em seu entorno, sem ter dimensão geral de uma das situações mais preocupantes da pauta sustentável na contemporaneidade.

O que torna a nossa relação com o documentário é o impasse diante de algumas observações que segundo especialistas, estão expostas por meio de dados exagerados, manipulação de algumas informações e escolha indevida do artigo que deveria expor a ideia central do documentário. Como descrito anteriormente, os contrários, no geral, estão devidamente apontados, mas há outros pontos de inconsistência que devemos levar em consideração. A pecuária nunca deixará de ser de fato um problema, fato, mas não devemos pensá-la como O problema maior e sim UM dos problemas. Assim, Cowspiracy – O Segredo da Sustentabilidade se estabelece como um olhar sobre determinadas questões ambientais. A pesca indevida de peixes, predatória ao recolher em suas redes animais que não estavam selecionados para consumo não é uma inverdade. A interpretação das ideias de Al Gore em sua abertura, segundo os realizadores, ponto de partida e inspiração também não está incorreta. O seu erro é ser totalitário, mas parto do ponto de vista que devemos ter a responsabilidade de interpretar as coisas que assistimos, principalmente pela consciência de estarmos mergulhados numa cultura visual e dos “especialistas de internet”, o que coloca qualquer ponto de vista em laboratório de análise. Não creio, então, que a produção deva ser anulada em sua totalidade, mas questionada como qualquer outro ponto de vista exibido numa palestra, artigo, ensaio, reportagem, etc.

Cowspiracy – O Segredo da Sustentabilidade (Cowspiracy – Estados Unidos, 2015)
Direção: Kip Andersen, Keegan Kuhn
Roteiro: Kip Andersen, Keegan Kuhn
Elenco: Kip Andersen, Howard Lyman, Richard Oppenlander, Michael Pollan, Michael Klaper, William Potter, Kirk R. Smith, Josh Tetrick
Duração: 90 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.