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Crítica | Cozzilla: Godzilla (1977)

por Luiz Santiago
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Cozzilla. Cozzillinha. Cozzillão. Esta é a versão do famoso kaiju nipônico que os fratelli da bota lançaram em 1977, um tipo de filme hoje visto como uma bizarrice meio LSD, meio “quero ganhar dinheiro às custas de um grande sucesso de bilheteria“, meio ideia fixa absurda que saiu do papel. E por trás de tudo isso estava um homem chamado Luigi Cozzi (notem que é do sobrenome dele que vem o apelido desse bichão aqui: Cozzilla), que depois de ver o grande impacto monetário do King Kong de 1976, pensou que seria uma ótima oportunidade surfar nessa onda. E foi assim que ele tentou adquirir os direitos de uma distribuição italiana para… esperam só pra ver… Gorgo!!!

Como assim, Gorgo?“, pergunta um leitor assustado. “Quem é Gorgo?“, pergunta uma leitora espantada. Pois é, senhoras e senhores, a cabeça do nosso amigo Cozzi estava em 2998 enquanto o pobre mundo se arrastava em 1976! Ele acreditava que se obtivesse os direitos de um kaiju europeu (Gorgo foi um filme de monstro britânico lançado em 1961 e dirigido por Eugène Lourié, cineasta que já havia presenteado a humanidade com as pérolas O Monstro do Mar, O Monstro de New York e O Monstro Submarino!), ganharia a simpatia dos conterrâneos e embolsaria um dinheirão vindo das bilheterias. Em outras palavras, assim pensava Cozzi: “se o povão do Velho Continente está quebrando recordes assistindo à nova versão do macaco do Tio Sam, com certeza vai pagar pra ver a nossa lacraia-lagarto-dino-semi-godzilla!“. Se ele estava certo quanto a isso, nunca saberemos.

E nunca saberemos porque a Companhia que produziu o longa (King Brothers Productions), estava pedindo uma soma absurda para Cozzi, que simplesmente riu na cara do inimigo e foi ganhar o seu pão entrando em contato com a Toho. Pois é, acreditem: Godzilla foi a segunda opção do moço. Godzilla preterido por uma lacraia-lagarto-peixe chamada Gorgo. Meu Deus… Pois bem, a Toho não tinha todo o material clássico (leia-se o filmaço de 1954) para vender a Cozzi, mas tinham num baú empoeirado a podre versão/edição americana do clássico, um corte chamado Godzilla, O Monstro do Mar (Godzilla, O Rei dos Monstros!, 1956) e foi esta fita que o fratello empreendedor teve em mãos para trabalhar. E a partir daí, tudo deu certo para Cozzi, correto? Bem… não. Errado.

O primeiro obstáculo era o fato de o filme ser preto e branco. Então veio o processo mais glorioso da história da coloração no cinema: o uso do imbatível SPECTORAMA 70 (eu juro pra vocês que estou escrevendo e gargalhando desde o início do texto, e o mais engraçado ainda é que tudo aqui é verdade!). Isso quer dizer que o produtor Renato Barbieri olhou para aquela ideia de Cozzi e disse: “genial, migo!“, e lá se foi a coloração nível LSD que tanto popularizou essa versão trash do Godzilla, que como cereja do bolo, ainda teve “o probleminha da duração“. E com isso eu quero dizer que a versão adquirida pelo grande Cozzi era muito curta para o gosto do público dos anos 70. Sem ter mais negativos vindos do escritório da Toho em Roma, o que foi que esse gênio incompreendido fez? Adicionou trechos cortados de filmes que não tinham nada a ver com Godzilla, é claro!

Por isso é que a gente vai assistindo a este Cozzila e de repente trombamos com os mais absurdos erros de continuidade imagináveis! Afinal, mesclar uma versão americana de um filme japonês com pedaços descartados de O Monstro do Mar (Eugène Lourié, 1953), Godzilla Ataca Novamente (Motoyoshi Oda, 1955), O Dia em Que a Terra se Incendiou (Val Guest, 1961) e O Trem (John Frankenheimer, 1964) certamente faria o maior sentido, não faria? Agora falando sério: por mais boa vontade que a gente tenha em assistir ao filme e comprá-lo pela sua desesperada e artesanal “reforma”, existem momentos que é simplesmente impossível suportar o quão ruins, sem sentido e completamente absurdas são algumas coisas aqui, especialmente o primeiro ataque do bichão e, mais para o final, o longo ato de destruição seguido pelos esforços do núcleo humano para derrotar o lagartão atômico. Uma coisa pior que a outra, e notem que eu nem vou perder tempo falando do inédito e desrespeitoso prólogo que se passa em Hiroshima, em 6 de agosto de 1945… Vocês já devem imaginar.

Como a remasterização de última hora deixou o filme absurdamente barulhento e, ainda não contente, Cozzi adicionou uma tonelada de novos efeitos e muitos, muitos gritos, chega um momento dessa projeção que a gente tem a sensação de estar vendo uma cena gravada no inferno. Se estivesse num restante minimamente interessante, até que esse tipo de abordagem garantiria a atenção do público, porque na teoria, combina com a proposta de destruição engendrada pelo kaiju. Mas não se enganem. Nada aqui realmente presta. É uma daquelas coisas que eu só indico para quem tem muito tempo sobrando. Ou para as pessoas loucas, como eu.

Cozzilla: Godzilla (Itália, Japão, EUA, 1977)
Direção: Luigi Cozzi (baseado em material dirigido por Ishirô Honda, Terry O. Morse, Kurt Neumann, Motoyoshi Oda, Val Guest, Eugène Lourié, Arthur Penn)
Roteiro: Luigi Cozzi (baseado em roteiros de material escrito por Takeo Murata, Ishirô Honda, Shigeru Kayama, Tomoyuki Tanaka, Eiji Tsuburaya, Al C. Ward)
Elenco: (de material previamente filmado) Raymond Burr, Akihiko Hirata, Momoko Kôchi, Mikel Conrad, Paul Frees, Ren Imaizumi, Shigeo Katô, Akio Kusama, Tsuruko Mano, Lee Miller, Teruko Mita, Fuyuki Murakami, Haruo Nakajima, Takeo Oikawa, Tadashi Okabe
Duração: 106 min.

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