Crítica | Creed II

“Isso é mais do que apenas uma luta.”

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Creed II, reiterando alguns dos interesses visuais mostrados em Creed: Nascido para Lutar, encontra nas várias mídias, se não uma oportunidade primária de estudar personagens, mas secundária, certamente uma das suas proposições estéticas mais importantes. As narrações de comentaristas são constantes, os símbolos de empresas de transmissão esportiva acompanham várias sequências, uma pontual entrevista com Adonis Creed (Michael B. Jordan) acontece no meio da narrativa e até mesmo uma coletiva de imprensa participa do enredo. Como o protagonista se comporta diante de um evento publicitário tão grandioso quanto a revanche de gerações, a par da sugestão de um combate entre Donnie e o sucessor de Ivan Drago (Dolph Lundgren), assassino de Apollo Creed em Rocky IV, demonstra a força dessa vertente da obra para consigo mesma – e, consequentemente, suas enormes contradições. Uma publicidade sobre os pesos da publicidade.

Anteriormente, a extraordinária reinvestida nessa saga de boxe possuiu, antes de qualquer coisa, um cineasta querendo contar algo de novo sobre esses personagens, sobre essa mitologia e sobre esse espírito de luta quase inerente ao âmago das jornadas. Os dramas pessoais eram mais importantes que os eventos-chave. Creed II, em contrapartida, apenas consegue chamar atenção dos espectadores por causa da explosão nostálgica que permite acontecer, em vista do retorno de personagens clássicos e um embate de nomes imortais. Chamar as massas para assistirem ao espetáculo do ano, o combate do novo século, é o que importa. Steven Caple Jr., comandando o projeto agora, não consegue criar um sentimento próximo em verdade ao de Ryan Coogler, o responsável pelo primeiro. O que acaba acontecendo ao artista é um reencontro a esse viés midiático, com enquadramentos que parecem mais gravações de televisão que cinema autêntico.

Sylvester StalloneCheo Hodari Coker assinam um roteiro com paupérrimas camadas de nuances, porque os argumentos – se o combate deve ou não acontecer – são contrapostos intensamente, porém desorganizadamente, anulando-se em consequência. A premissa é encaminhar tudo aos combates, o que nos assegura, enquanto público, de uma previsibilidade consideravelmente problemática. Os artistas em questão, principalmente Stallone, realmente querem movimentar alguma coisa através do texto, mas expõem, enfim, unicamente conversas vagas e que não encaminham o enredo a algum ambiente interessante, senão uma incessante redundância. Adonis, por exemplo, entre o convite a participar desse combate, contra um monstruoso sucessor do homem que matou o seu pai, e o temor em acabar sendo morto ou jogar-se à vingança pela vingança, afirma repetidamente que precisa lutar, porque precisa lutar e pronto.

Se o arco do protagonista permanece assim por cerca de mais de duas horas de projeção, ao menos o ator que o interpreta comporta uma presença carismática o suficiente para não desmontar a empatia do público pelo personagem. “Por que você precisa lutar?”, pergunta Rocky Balboa, continuando como treinador de Donnie, mas que ainda se lamenta profundamente por não ter interrompido o combate que acabou com a vida de seu amigo. As respostas para essa pergunta não estão de acordo com uma desconstrução do coração de Adonis, movido por uma angústia que traja resquícios do estudo sobre legado, apresentado no passado, no entanto, é muito mais rasa que isso. O personagem continua essa caminhada, sem perceber que todos os outros coadjuvantes do longa são pessoas destruídas pelo que aconteceu. Creed II não consegue repensar uma fórmula comum sob novos moldes. Nem uma criança rompe o esperado espetáculo.

O que, em uma certa instância, almeja ser um engrandecimento a importância do núcleo caseiro, ainda mais substancial no particular arco de Rocky Balboa, acaba sendo concluída verdadeiramente apenas por meio dos antagonistas. Uma cena surpreendente na resolução, que poderia ser muito tocante e importante, nunca fora, contudo, principiada anteriormente pelo roteiro. Ivan Drago e o personagem do seu filho, mais esquecível impossível, não são enxergados com o mesmo carinho que os protagonistas, o que era extremamente necessário – e o ator que interpreta Vikor é muito limitado dramaticamente. Creed II não se passa na década de 80, mas após a Guerra Fria ter terminado. O maniqueísmo não anseia nem essa contraposição de visões que, como nos primórdios da franquia acontecia constantemente, enalteceriam os Estados Unidos enquanto nação. Os lucros pelos lucros como motor para os nossos corações se anestesiarem pelo passado.

Creed II – EUA, 2018
Direção: Steven Caple Jr.
Roteiro: Sylvester Stallone, Cheo Hodari Coker
Elenco: Michael B. Jordan, Sylvester Stallone, Tessa Thompson, Wood Harris, Phylicia Rashād, Dolph Lundgren, Florian Munteanu, Andre Ward, Brigitte Nielsen, Milo Ventimiglia, Russell Hornsby
Duração: 130 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.