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Crítica | Creed: Nascido para Lutar

por Gabriel Carvalho
716 views (a partir de agosto de 2020)

“As galinhas ficaram lentas.”

  • Leiam as demais críticas dos filmes da franquia Rocky clicando aqui.

A grande diferença entre a trajetória de Adonis Johnson (Michael B. Jordan), primogênito desconhecido de um dos maiores ícones do boxe cinematográfico, e do mito Rocky Balboa (Sylvester Stallone), protagonista de uma das franquias mais bem sucedidas do cinema, encontra-se nas raízes de cada um desses nomes. O saudoso Apollo (Carl Weathers) argumentou, em Rocky: Um Lutador, para as crianças estudarem e não se envolverem em esportes como o boxe. Adonis estudou. Mesmo que tardiamente, sendo encontrado pela esposa do seu pai, que mantinha um relacionamento extraconjugal à época de sua morte, Adonis recebeu várias chances em um milhão, enquanto Balboa apenas uma. Lutar pela sua sobrevivência e quem sabe ousar ter uma vida. Ambos os personagens, no entanto, por incrível que pareça, precisaram e ainda precisam lutar, mesmo com os passados aparentemente distantes, que presumem não conciliar o passado de uma vida com o futuro de uma nova. Esses personagens nasceram para lutar acima de tudo.

Creed: Nascido para Lutar corajosamente estuda o coração de Rocky: Um Lutador, resgatando uma essência mais inocente que permitiu o clássico de 1976 até mesmo alcançar um Oscar de Melhor Filme. Sylvester Stallone, naquele caso, não queria fazer um projeto acerca do boxe propriamente dito, em que o propósito era os combates, mas uma história sobre fracasso, sobre os sonhos impossíveis, as oportunidades que surgem para nunca mais retornarem e, no final das contas, até mesmo o sonhos americano. Ryan Coogler, enquanto responsável pela direção e co-roteirista do seu longa-metragem, procura exprimir os seus próprios sentimentos em relação a franquia, com os auges de energia, as lutas, sendo consequências de estudos competentes de personagem. O carinho que o roteiro, a exemplo, possui por Stallone é tocante, recuperando o grande artista que Sly sempre foi. Aqui, o oponente de Adonis, portanto, pouco importa, como também pouco importava quem era Apollo, no original, senão uma metáfora para a América e só.

Coogler está comandando um projeto realmente importante para si mesmo, o que justifica a pessoalidade do conjunto. Michael B. Jordan, uma espécie de artista quase inerente ao cineasta, também retorna para ser a estrela do diretor, após Fruitvale Station – e, mais tarde, Pantera Negra viria três anos depois. Já as cenas de combate, com os planos-sequências duradouros, mostram um domínio de câmera competente, ansiando uma identidade própria, mas, principalmente, uma intenção de Coogler em controlar a ação e embarcar o espectador na jornada do protagonista. As suas expectativas imensas em conseguir construir um nome próprio – e miseravelmente fracassando em fazer isso – são reconstruídas por esses planos – em outra instância, uma cena mostra o personagem com vontade de ir ao banheiro, que é realmente natural e torna o processo envolvente para o espectador. O público consegue torcer por um garoto que não precisaria estar nos ringues – ou seja, sujando a sua mão de sangue -, porque a comida continuaria no seu prato.

Creed consegue restaurar o que significa a luta para dentro da franquia, até mesmo no papel da personagem Bianca (Tessa Thompson), coadjuvante e interesse amoroso de Donnie. A ótima Tessa Thompson, no entanto, é sub-aproveitada, e o texto da personagem não é dos mais orgânicos, margeando uma exposição artificial de quais são os seus problemas. Mas Creed: Nascido para Lutar honra o legado de Apollo de um modo tão apaixonante que a cena do garoto imitando os golpes desferidos em um dos combates entre o seu pai e o, agora, seu treinador é um exemplo muito sólido do que Nascido para Lutar quer ser. Uma obra não apenas sobre renascer enquanto nome, mas igualmente sobre continuar uma jornada que atravessa gerações. A sobrevivência deixou de ser aquela crua de outrora, contudo, o amor pelo amor ao esporte e ao que ele significou ao seu passado. Os socos que não precisam mais ser desferidos, mas devem ser desferidos, confirmam onde se encontra no mundo uma franquia que sempre nos engrandeceu.

Creed: Nascido para Lutar (Creed) – EUA, 2015
Direção: Ryan Coogler
Roteiro: Ryan Coogler, Aaron Covington
Elenco: Michael B. Jordan, Sylvester Stallone, Tessa Thompson, Phylicia Rashad, Tony Bellew, Ritchie Coster, Graham McTavish
Duração: 133 min.

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12 comentários

Diogo Maia 1 de novembro de 2020 - 14:13

O melhor da série. A direção é deslumbrante, a edição fantástica, a fotografia espetacular e as atuações e a química entre os atores é sensacional. Possui alguns probleminhas, é verdade. Continua usando a mesma fórmula das obras anteriores e não se arrisca muito. Além disso, todo o arco da Bianca é subaproveitado (como baterista, gostaria de acompanhar mais de perto o drama de uma musicista que perde a audição gradativamente, um dos meus maiores pesadelos ao lado da tendinite). Tirando esses pequenos deslizes, Creed não decepciona. Deveria ter assistido no cinema, mas deixei passar. Felizmente consegui ver pela primeira vez na locadora vermelha recentemente. Recomendadíssimo.

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JJL_ aranha superior 22 de abril de 2017 - 15:34

Assisti recentemente e torço fortemente para que haja uma continuação, só uma mesmo. É sempre bom ver um reboot que não usa o nome da franquia como muleta (como foi com star wars e jurassic park) e que consegue homenagear os velhos fãs e atrair novos. O filme o tempo todo se esforça para criar grandes momentos tão marcantes quanto os clássicos, e consegue graças a direção do coogler, espero que ele também faça um trabalho excelente em pantera negra.

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Claudinei Maciel 24 de maio de 2016 - 18:27

“…nos faz lembrar como o eterno herói de ação é um grande ator.” Só essa frase já valeu a crítica. Muitos amigos meus discordam quando digo que o Sly É um grande ator, vou esfregar na cara deles essa crítica!!!
Realmente, no seu crepúsculo, Stallone merecia o Oscar de coadjuvante, torci muito, mas os tios do Oscar não dobrariam as suas convicções… fazer o que.
Mas esse filme é um grande momento.
Já havia me surpreendido com o Stallone desde sempre, quando ele fez Copland me convenceu para sempre e Rocky sempre terá um lugar no meu coração cinéfilo.

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Claudinei Maciel 24 de maio de 2016 - 18:27

“…nos faz lembrar como o eterno herói de ação é um grande ator.” Só essa frase já valeu a crítica. Muitos amigos meus discordam quando digo que o Sly É um grande ator, vou esfregar na cara deles essa crítica!!!
Realmente, no seu crepúsculo, Stallone merecia o Oscar de coadjuvante, torci muito, mas os tios do Oscar não dobrariam as suas convicções… fazer o que.
Mas esse filme é um grande momento.
Já havia me surpreendido com o Stallone desde sempre, quando ele fez Copland me convenceu para sempre e Rocky sempre terá um lugar no meu coração cinéfilo.

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Cristiano de Andrade 14 de fevereiro de 2016 - 16:56

Chorei assistindo esse filme! É emocionante demais!

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Lucas Nascimento 14 de fevereiro de 2016 - 18:07

Não foi só você! Acerta bem no feels hehe

Abrax!

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Adam William 18 de janeiro de 2016 - 01:01

Me emocionei, não esperava por isso! As lutas bem filmadas são incríveis e o cinema vibrava a cada soco, parecia una luta mesmo, não um filme. Sem dúvidas a continuação que Rocky merece, a que melhor honrou o original até então. Aliás, o cinema em peso aplaudiu o filme, faxia tempo que não via tal empolgação! Uma bela forma de honrar o legado, trazendo Rocky para uma nova geração. Seja bem vindo, Creed! E que seja construído um novo legado.

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Lucas Nascimento 18 de janeiro de 2016 - 16:04

Eu também realmente não esperava por isso… Gostei mais deste que O Despertar da Força, e sou muito mais fã de Star Wars do que Rocky.

O que me preocupa é que Ryan Coogler pode não voltar para Creed, já que acaba de assinar o contrato para dirigir Pantera Negra. QUEM chamar para manter o nível de qualidade intacto?

Abrax!

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Mateus Woszak 16 de janeiro de 2016 - 22:01

Esqueci de dizer: se tem algo que ficou muito bom nesse filme foi a trilha sonora. E olha que dificilmente eu reparo nisso!

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Lucas Nascimento 16 de janeiro de 2016 - 23:31

Falando em trilha, temos uma análise específica sobre ela!

Gosto muito de como o rap está presente.

https://www.planocritico.com/critica-creed-nascido-para-lutar-trilha-sonora-original/

Abrax!

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Mateus Woszak 16 de janeiro de 2016 - 12:06

Creed: Nascido para lutar (2016).

Há tempos o cinema está numa onda de remakes e ressuscitação de franquias (acredito eu que por ter um público fiel e ser garantia de ganhos no cinema, se você não inventar muito, rs) e Creed vem a ser mais um filme que aproveita dessa onda, explorando a franquia de Rocky, que havia sido encerrada de forma respeitável em 2006. Desta vez, são acrescentados novos elementos, creio eu, visando um novo leque de filmes.

Somos apresentados a Adonis Johnson Creed, um filho bastardo de Apolo Creed, que é resgatado pela sua “mãe adotiva” (a esposa de Apolo) e criado por ela. Mesmo com uma carreira apontando para um bom futuro, Adonis abre mão de tudo para seguir seu sonho de ser lutador e segue atrás de alguém que ele pensa que poderia torna-lo o melhor, Rocky Balboa. Entra em cena Stallone com seu carismático personagem, o lutador amigão de todos, de bom coração, e que havia deixado seu legado naquela luta de 2006. O senhorzinho bonachão torna-se seu treinador e, entre idas e vindas, temos todos os clichês possíveis dos outros filmes da série, mas que não cansamos de ver e rever e alguns novos elementos como uma figura feminina forte e não somente submissa ao ator principal e inclusive elementos para já anunciar a saída de Rocky da série futuramente.

Adonis torna-se bom personagem para continuar a franquia. Confesso que o achei marrento, chato mesmo no início, mas é um lutador que se divide entre carregar os legados do pai e de seu treinador, duas lendas no esporte, ou fazer uma carreira com seu próprio nome. Por explorar os clichês, o filme acaba sendo mais do mesmo (lembro que até o atual Star Wars utiliza muito desse recurso), mas é legal para passar o tempo e para, mais uma vez, você torcer pelo Rocky ao final… e agora por Adonis 🙂

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Lucas Nascimento 16 de janeiro de 2016 - 23:31

Excelente testemunho, Mateus! Espero realmente que tenhamos novos filmes, e a própria persona esquentada de Adonis já torna o filme diferente, já que aos poucos vamos entendendo o que o move.

Abrax!

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