Crítica | Creed: Nascido para Lutar

“As galinhas ficaram lentas.”

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A grande diferença entre a trajetória de Adonis Johnson (Michael B. Jordan), primogênito desconhecido de um dos maiores ícones do boxe cinematográfico, e do mito Rocky Balboa (Sylvester Stallone), protagonista de uma das franquias mais bem sucedidas do cinema, encontra-se nas raízes de cada um desses nomes. O saudoso Apollo (Carl Weathers) argumentou, em Rocky: Um Lutador, para as crianças estudarem e não se envolverem em esportes como o boxe. Adonis estudou. Mesmo que tardiamente, sendo encontrado pela esposa do seu pai, que mantinha um relacionamento extraconjugal à época de sua morte, Adonis recebeu várias chances em um milhão, enquanto Balboa apenas uma. Lutar pela sua sobrevivência e quem sabe ousar ter uma vida. Ambos os personagens, no entanto, por incrível que pareça, precisaram e ainda precisam lutar, mesmo com os passados aparentemente distantes, que presumem não conciliar o passado de uma vida com o futuro de uma nova. Esses personagens nasceram para lutar acima de tudo.

Creed: Nascido para Lutar corajosamente estuda o coração de Rocky: Um Lutador, resgatando uma essência mais inocente que permitiu o clássico de 1976 até mesmo alcançar um Oscar de Melhor Filme. Sylvester Stallone, naquele caso, não queria fazer um projeto acerca do boxe propriamente dito, em que o propósito era os combates, mas uma história sobre fracasso, sobre os sonhos impossíveis, as oportunidades que surgem para nunca mais retornarem e, no final das contas, até mesmo o sonhos americano. Ryan Coogler, enquanto responsável pela direção e co-roteirista do seu longa-metragem, procura exprimir os seus próprios sentimentos em relação a franquia, com os auges de energia, as lutas, sendo consequências de estudos competentes de personagem. O carinho que o roteiro, a exemplo, possui por Stallone é tocante, recuperando o grande artista que Sly sempre foi. Aqui, o oponente de Adonis, portanto, pouco importa, como também pouco importava quem era Apollo, no original, senão uma metáfora para a América e só.

Coogler está comandando um projeto realmente importante para si mesmo, o que justifica a pessoalidade do conjunto. Michael B. Jordan, uma espécie de artista quase inerente ao cineasta, também retorna para ser a estrela do diretor, após Fruitvale Station – e, mais tarde, Pantera Negra viria três anos depois. Já as cenas de combate, com os planos-sequências duradouros, mostram um domínio de câmera competente, ansiando uma identidade própria, mas, principalmente, uma intenção de Coogler em controlar a ação e embarcar o espectador na jornada do protagonista. As suas expectativas imensas em conseguir construir um nome próprio – e miseravelmente fracassando em fazer isso – são reconstruídas por esses planos – em outra instância, uma cena mostra o personagem com vontade de ir ao banheiro, que é realmente natural e torna o processo envolvente para o espectador. O público consegue torcer por um garoto que não precisaria estar nos ringues – ou seja, sujando a sua mão de sangue -, porque a comida continuaria no seu prato.

Creed consegue restaurar o que significa a luta para dentro da franquia, até mesmo no papel da personagem Bianca (Tessa Thompson), coadjuvante e interesse amoroso de Donnie. A ótima Tessa Thompson, no entanto, é sub-aproveitada, e o texto da personagem não é dos mais orgânicos, margeando uma exposição artificial de quais são os seus problemas. Mas Creed: Nascido para Lutar honra o legado de Apollo de um modo tão apaixonante que a cena do garoto imitando os golpes desferidos em um dos combates entre o seu pai e o, agora, seu treinador é um exemplo muito sólido do que Nascido para Lutar quer ser. Uma obra não apenas sobre renascer enquanto nome, mas igualmente sobre continuar uma jornada que atravessa gerações. A sobrevivência deixou de ser aquela crua de outrora, contudo, o amor pelo amor ao esporte e ao que ele significou ao seu passado. Os socos que não precisam mais ser desferidos, mas devem ser desferidos, confirmam onde se encontra no mundo uma franquia que sempre nos engrandeceu.

Creed: Nascido para Lutar (Creed) – EUA, 2015
Direção: Ryan Coogler
Roteiro: Ryan Coogler, Aaron Covington
Elenco: Michael B. Jordan, Sylvester Stallone, Tessa Thompson, Phylicia Rashad, Tony Bellew, Ritchie Coster, Graham McTavish
Duração: 133 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.