Crítica | Creepshow 2: Show de Horrores

“Delinquência juvenil é o produto de frustrações reprimidas, ressentimentos guardados e medos engarrafados.”

Quando Creepshow 2 se encerra, uma mensagem aparece sobre delinquência, jovens e possíveis causas para seus comportamentos nocivos. O longa-metragem de horror, que reúne três contos distintos, traz uma juventude inconsequente protagonizando uma considerável parte de sua duração. O projeto realmente possui essa veia discursiva como motor para a sua narrativa se movimentar. De quem é a culpa pelos jovens malcriados, malvados, malignos que ora ou outra assolam a sociedade? Creepshow sabe, respondendo a essa pergunta, que a responsabilidade não é dos quadrinhos ou do cinema. Para alguns, a arte estimula as crianças a transformarem-se em vândalas. Em contrapartida a isso, enquanto um garoto manuseia a revista de mesmo nome, que contém essas três histórias em suas páginas, valentões começam uma perseguição. O filme, curiosamente, antagonizará muito mais esses seres, humanos, que os monstros costumeiros. O menino, justamente aquele que se entretém com a sanguinolência dos quadrinhos que veremos ganhar vida, não possui qualquer relacionamento objetivo com a crueldade destas outras pessoas.

Creepshow 2 é uma continuação para a antologia de 1982 que contou com a combinação das mentes criativas de George A. Romero e Stephen King, mestres do horror. Dessa vez, Romero assumiu o roteiro, que adapta histórias escritas por King, intercalando-as com as desventuras do garoto Billy (Domenick John). O menino compartilha o nome com o do antecessor. Já quem assume a direção da sequência é Michael Gornick, o responsável pela cinematografia do original. Com uma diminuição de quantidade de segmentos, com apenas três compondo a obra, comparados aos cinco de Creepshow: Show de Horrores, o longa passa a depender mais do funcionamento de cada um. Mesmo assim, as lacunas que separam os capítulos ganham mais proeminência do que no primeiro exemplar da trilogia – a ser complementada com um terceiro projeto, que seria distribuído em 2006, mas sem nenhum envolvimento dos nomes já citados. Os contos, de antemão, não são os melhores escritos por Stephen King, contudo, são suficientes para moverem o senso de culpa que persiste nos protagonistas, ao invés do horror em si ser o maligno.

Entretanto, essas rupturas que separam cada segmento são problemáticas, especialmente porque a opção dos realizadores foi por um trabalho em animação muito pobre. A qualidade das texturas é extremamente questionável, mesmo que os traços acompanhem a norma das animações de baixo custo da época. O resultado, inexoravelmente, termina ultrapassado para os dias de hoje, bem menos atrativos que os demais aspectos técnicos do filme, que conta com design de interiores e maquiagem impressionantes. Enquanto unidade, a maquiagem continua sendo uma das promessas cumpridas pelo longa, responsabilidade de Joanna Robinson e também do prestigiado Tom Savini. O conhecido maquiador igualmente encorpa o Creep, monstro que desponta nessas intercessões entre os episódios. Nos termos gráficos, o primeiro capítulo, Old Chief Wood’nhead, conta com menos calafrios visuais aos espectadores, porque a equipe só precisa trabalhar com um índio de madeira, sem brincar com o gore. Isso contradiz um pouco as intenções espetaculares do projeto, que nos demais segmentos investe em um impacto pautado no grotesco, causando horror.

Esse terror de Creepshow, que pode até ser chamado de mágico ao não explicar conceitos, e que ganha tais nuances visuais, está a serviço dos não-delinquentes. Já os jovens rebeldes, cruéis, travessos e devassos serão assassinados pelas criaturas. Nesse primeiro exemplar, por exemplo, que é o melhor dos três, George Kennedy e Dorothy Lamour interpretam um casal de idosos que são covardemente assassinados por um grupo de garotos que anseiam o sucesso em Hollywood. Eles então serão vingados por uma estátua de madeira de um índio, que ganhará vida. O longa traz uma quantidade considerável de exposição para explanar os seus personagens. Mas a tragédia que é a morte desses pacatos vendedores consegue cativar o interesse do público pela vingança, orquestrada contra uma trindade maniqueísta. Michael Gornick explora o índio de madeira através de sombras, criando uma aura amedrontadora que cumpre seus propósitos. Mesmo assim, ausenta-se uma provocação mais aguda aos sentidos do público, que imerge numa passividade. O macabro existente é na verdade amistoso aos tais protagonistas – quase um herói.

O ideal seria uma inversão de protagonismo, nos quais nossas críticas residissem realmente em quem tem a moralidade corrompida. Isso acontece nos outros casos. O segundo capítulo da obra, The Raft, é igualmente estereotipado ao observar a juventude, mas de uma forma distinta. Pelo menos, sai-se do sadismo que antecedera o episódio, para partir à perversão, mais provocante ainda por conta do modo sugestivo como é apontada. Quatro amigos terminam ilhados, ameaçados por uma massa monstruosa sem forma que emerge das águas de um lago. A narrativa não traz nada de extraordinário, principalmente por não buscar muita reinvenção. A direção, pelo contrário, nos engana, dando prioridade para uma personagem em específico que se revela ser, antes de ganhar qualquer traço de personalidade ou porquê, a primeira morte. O que acontece com Randy (Daniel Beer), no entanto, é muito interessante e reanima esse segmento, que, contudo, é ainda assim o mais problemático dos três presentes. De qualquer forma, Creepshow permanece no último com esta aura moralista e crítica ao hedonismo, essência do horror oitentista.

Mesmo que o terceiro episódio, The Hitchhiker, não trabalhe com adolescentes propriamente ditos, mas uma mulher mais madura, o horror como punição é expressado de uma maneira ainda mais clara que nos demais capítulos. Temos, primeiramente, uma protagonista que transou com um gigolô e, pelos comentários que tece, aproveitou enormemente a noite. Ela acorda atrasada na cama do homem e parte com o seu carro para tentar chegar antes do que seu marido em casa. Como também é fumante, Annie Lansing (Lois Chiles) termina criando uma confusão no automóvel, ocasionando um acidente e a morte de um caroneiro, que retorna para assombrar o restante da viagem da personagem. O “obrigado pela carona, senhora” marca. O potencial, porém, é um pouco desperdiçado pelo excesso de texto de exposição de pensamentos, substituindo um espaço dramático para crescer a interpretação de Chiles. Creepshow 2 tem suas irregularidades, mas mantém uma coesão. Os monstros maus são punições aos imorais, aos inconsequentes, aos delinquentes. E não são, necessariamente, quem consome essas obras os vândalos da sociedade.

Creepshow 2: Show de Horrores (Creepshow 2) – EUA, 1989
Direção: Michael Gornick
Roteiro: George A. Romero (baseado em histórias de Stephen King)
Elenco: George Kennedy, Dorothy Lamour, Lois Chiles, Tom Savini, Tom Wright, Frank Salsedo, Holt McCallany, David Holbrook, Don Harvey, Daniel Beer, Paul Satterfield, Jeremy Green, Page Hannah, David Beecroft, Stephen King
Duração: 92 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.