Crítica | Crepúsculo de Uma Raça

PLANO CRÍTICO CREPÚSCULO DE UMA RAÇA JOHN FORD

Em 1917, John Ford dirigiu o seu primeiro faroeste, O Furacão. Mesmo que sua longa e prolífica carreira o tenha permitido experimentar diversos gêneros, o diretor se notabilizou por dois deles: filmes de guerra e westerns, tendo como uma de suas marcas as cenas no Monument Valley. Seguindo a onda de seu tempo histórico e da indústria que representava os índios sempre como inimigos selvagens, demorou 47 anos para que o diretor assumidamente fizesse um “filme de redenção” para com os povos indígenas, filmando um projeto inicialmente apresentado a ele por Richard Widmark e prontamente rejeitado. Anos mais tarde, quando um argumento que escrevia ao lado de seu filho Patrick Ford precisou de maior impulso (até então, a base para o texto era o livro The Last Frontier, de Howard Fast), o material antes apresentado por Widmark veio à tona, pois estava relacionado ao grande êxodo Cheyenne, um dos temas do argumento. Neste momento da pré-produção foi que o livro Cheyenne Autumn de Mari Sandoz entrou em cena e deu o contorno dramático necessário para o roteiro que seria escrito por James R. Webb.

A trama se passa em 1878, em um momento de crise entre os índios Cheyenne (interpretados por Navajos) e o governo, que fez um acordo temporário e não cumpriu, ou seja, prover de água, alimentos e remédios os índios rendidos até que a reserva no território de Oklahoma fosse transferida para terras prósperas. Sem o cumprimento do acordo por parte dos brancos e com o povo já morrendo, os Cheyennes resolvem iniciar sua longa jornada para as terras do Wyoming, seu local de origem tardia. O governo classificou essa movimentação como “rebelião” e o Capitão da Cavalaria, Thomas Archer (ótimo personagem de Richard Widmark), deveria impedir a marcha. Mas nem tudo sairia como inicialmente planejado.

Como dito anteriormente, este filme foi pensado por Ford para ser um marco diferencial em sua carreira, mostrando, em um enredo pensado especialmente para isso, os índios de uma maneira bem diferente do que ele estava acostumado. Quatro anos antes, em Audazes e Malditos, o cineasta havia feito a mesma coisa com os negros, e aqui, em Crepúsculo de uma Raça, explora esse novo olhar em um épico de 2h30 que abarca o sofrimento de um povo, a mudança de mentalidade no tratamento entre etnias e momentos da História dos Estados Unidos que o roteiro se dá a liberdade de brincar um pouco, tanto na tragédia ou melancolia, quanto na comédia, esta, majoritariamente representada por uma sequência que nem deveria estar no filme: a sequência em Dodge City. Criada para servir de intervalo (o que não funcionou, porque houve o corte de todo esse bloco, após a primeira exibição do longa), a sequência protagonizada por James StewartArthur Kennedy é o verdadeiro elefante branco da fita.

O choque para o andamento narrativo é imenso. Nós passamos de uma jornada heroica (nativa e colonizadora), onde as condições do espaço geográfico são duras e diferentes objetivos deixam civilizações preparadas para um conflito mortal, para uma sequência onde não há nada a que o espectador se apegue. Mesmo que a direção seja muito boa e tenhamos James Stewart em cena, a distração e a nulidade de conexão da sequência de Dodge City com o resto do filme tem um grande peso na obra. E mesmo que alguém saia em defesa do ato, citando os vaqueiros texanos que visitam o saloon onde Wyatt Earp está jogando pôquer, é importante lembrar que nem os vaqueiros, Earp ou Doc Holliday protagonizam algo verdadeiramente importante para o filme. A cena serve mesmo ao propósito de “intervalo”, mas talvez fosse mais sábio colocá-la como um curta-metragem levemente alinhado ao filme. Assim, a obra ficaria até mais curta e não sofreria o peso de uma grande quebra para uma sequência que não serve verdadeiramente ao tema da película.

Sob a fotografia de William H. Clothier (que no mesmo ano trabalhou com Raoul Walsh, também em seu último westernUm Clarim ao Longe, igualmente revendo a relação entre brancos e vermelhos), acompanhamos a cavalgada de Cheyennes e soldados americanos por uma gama de fantásticas paisagens, bem ao gosto de John Ford, que aqui também apresenta um de seus filmes mais cuidadosos em termos de figurinos, assinados por Frank Beetson Jr. e Ann Peck. O grande esforço de aproximação entre etnias e os impasses históricos, políticos e ideológicos vão pouco a pouco se dissipando e vemos não só personagens mudarem de opinião (às vezes rápido demais), mas também a exploração dramática de uma situação de crise para destacar a obediência cega de alguns militares, como ocorre com o personagem de Karl Malden, obedecendo ordens a despeito da humanidade dele, de seus soldados e dos nativos.

Embora seja estranhamente desigual em seus atos e sua representação dos índios não seja exatamente uma unanimidade em termos de revisão histórica (Marlon Brando chegou a dizer que era “um dos mais racistas” dos diretor, pela maneira como expunha os nativos, à guisa de fazer as pazes com eles) Crepúsculo de Uma Raça é uma elegia com os pés no chão. O texto mostra civilizações diferentes lutando para manter suas tradições e garantir o seu lugar naquela terra. É um filme até certo ponto realista, com figurinos historicamente bem fieis e uma brilhante trilha sonora de Alex North (cujo último western havia sido Os Desajustados), destacando o porte épico da jornada Cheyenne e mostrando que, em todos os povos, em todos os momentos, existem pessoas e situações boas e ruins. O desafio desses povos é fazer com que o pior daquilo que existe em seu seio não se torne a causa de sua própria destruição. Uma despedida (dos westerns) um tanto problemática, mas verdadeiramente grandiosa de John Ford.

Crepúsculo de Uma Raça (Cheyenne Autumn) — EUA, 1964
Direção: John Ford
Roteiro: James R. Webb (baseado na obra de Mari Sandoz)
Elenco: Richard Widmark, Carroll Baker, Karl Malden, Sal Mineo, Dolores del Rio, Ricardo Montalban, Gilbert Roland, Arthur Kennedy, James Stewart, Edward G. Robinson, Patrick Wayne, Elizabeth Allen, John Carradine, Victor Jory, Mike Mazurki, George O’Brien, Sean McClory, Judson Pratt, Carmen D’Antonio, Ken Curtis
Duração: 154 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.