Crítica | Crepúsculo em Tóquio

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Em Começo de Primavera o diretor Yasujiro Ozu precisou adotar uma abordagem mais contemporânea em seu roteiro com Kôgo Noda, trazendo mais elementos físicos e também sociais do Japão dos anos 1950 e deixando um pouco de lado o clássico drama familiar que sempre lhe foi muito caro. Aqui em Crepúsculo em Tóquio (1957), seu último filme em preto e branco, o diretor segue pelo mesmo caminho. Mantêm-se o foco nas mudanças da sociedade, nas questões familiares, mas há uma marca bem mais “anos 50” na obra, que já começa com uma apresentação cosmopolita, ingrediente que veremos em todo o restante da película.

Mas além da retratação diferente para a cidade e para os personagens — apesar de algumas temáticas serem recorrentes — temos neste filme algo muito distinto para o diretor. Uma tragédia sem concessões (e um pouco mais moralista do que deveria ser) que conta a história de duas irmãs que, depois de muitos anos, reencontram a mãe que julgavam estar morta. Este drama é o que cobre todo o roteiro, dando suporte às discussões ou aos diferentes pontos de vista entre Takako (Setsuko Hara), Akiko (Ineko Arima) e seu pai Shûkichi (o sempre marcante Chishû Ryû). Neste núcleo familiar, abalado pela ausência da mãe ao longo dos anos, é que veremos a trágica camada do enredo ganhar forma.

Ozu emprega um olhar bem mais pessimista em relação à modernidade e isso vemos no modo como ele trata os personagens, até mesmo nos momentos felizes. As conversas, as fofocas, a música e o contexto em que ele filma os atores ampliam imensamente o tom amargo do texto, que à medida que se aproxima do final, fica ainda mais difícil de lidar. E não é como se o diretor nunca tivesse abordado elementos trágicos antes, mas o que vemos neste Crepúsculo em Tóquio é realmente uma ampliação desse tipo de narrativa no espaço onde esses indivíduos vivem e na expressão de seus sentimentos, desejos e visão de mundo.

A parte menos interessante da obra está em sua primeira hora, o que faz com que o espectador tenha um real assombro a partir deste ponto do filme. O ritmo se acelera (até onde é possível falar em “acelera” em qualquer um dos filmes de Ozu) e as cenas de contexto diminuem drasticamente, fazendo com que o primeiro ato praticamente inteiro seja questionado. Salvo alguns pontos centrais de apresentação de personagens, esse é o tipo de bloco muito marcado por sequências neutras que realmente não fariam falta se fossem retiradas, o que diminuiria o tempo do filme, tornando-o inclusive melhor palatável para o público em geral. Apesar de ser uma grande obra e o espectador entender a abordagem do diretor — por sua filmografia, estilo e proposta diante deste filme –, fica difícil não fazer a comparação entre as partes e levantar essa problemática.

Na reta final, quando o momento trágico do longa chega, o roteiro insere uma porção de conceitos e destinos moralistas que até podem ser lidos de maneira histórica (como espelho da sociedade japonesa e caraterística da sociedade dos anos 50), mas que datam demasiadamente o drama e até destoam um pouco do ideal geral do diretor em mostrar a Nova Era, onde metade dessas preocupações foram abandonadas ou refiguradas. Crepúsculo em Tóquio é um filme difícil, uma obra muito bela e milimetricamente decupada que explora uma série de situações trágicas ou duras decisões da vida (e suas consequências) que fazem parte de nosso mundo e marcam para sempre a nossa vida e a vida daqueles que estão à nossa volta.

Crepúsculo em Tóquio (Tôkyô boshoku) — Japão, 1957
Direção: Yasujiro Ozu
Roteiro: Yasujiro Ozu, Kôgo Noda
Elenco: Setsuko Hara, Ineko Arima, Chishû Ryû, Isuzu Yamada, Teiji Takahashi, Masami Taura, Haruko Sugimura, Sô Yamamura, Kinzô Shin, Kamatari Fujiwara, Nobuo Nakamura, Seiji Miyaguchi, Eiko Miyoshi
Duração: 140 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.