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Crítica | Crime Ferpeito

Comédia e assassinato.

por Luiz Santiago
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As comédias de Álex de la Iglesia são bem diferentes daquelas a que estamos acostumados, mesmo considerando apenas as comédias europeias. O fato de o diretor estar constantemente experimentando gêneros ou procurando formas distintas de retratar o horror e o humor — até mesmo colocando-os em outras experiências cinematográficas –, faz com que seus filmes sejam inventivos e inesperados, expondo os personagens às coisas mais absurdas e levando-os ao limite da sanidade dentro desta situação crítica. Lançado em 2004, Crime Ferpeito é uma homenagem irônica do cineasta a Disque M Para Matar, de onde ele tira a ideia de que talvez seja possível, sim, realizar um assassinato e nunca ter que pagar por ele. A grande questão é a seguinte: isso é realmente possível?

O roteiro de Iglesia, escrito em parceria com seu amigo de longa data, Jorge Guerricaechevarría, destaca o personagem Rafael, vivido por Guillermo Toledo, um machista que tem uma grande reputação como vendedor e, mais ainda, de objetificar, assediar e conseguir levar muitas mulheres para cama. Esse indivíduo já se apresenta com o papo básico de qualquer coach de esquina, falando de busca por sonhos, de agarrar o que se quer, de ser uma pessoa decidida e de criar as situações ideais que o levarão ao sucesso. É justamente este homem com tão alta estima e com tantas ideias de superioridade que o diretor escolhe para derrubar, humilhar e fazer rastejar ao longo de todo o filme, mudando todas as regras do jogo e, ainda assim, ficando na pior.

Eu vi este filme pela primeira vez nos cinemas, assim que estreou em São Paulo (maio de 2006, embora já tivesse sido exibido no Festival do Rio do ano anterior), e não foram poucas as reclamações, à época, sobre o tratamento que Iglesia deu a Lourdes, personagem da fantástica Mónica Cervera. Infelizmente falta a alguns espectadores e até mesmo alguns articulistas, um olhar atento e menos viciado para como a história em discussão foi construída, para como os personagens foram desenvolvidos e qual o destino de cada um deles. Me parece muito superficial reclamar da obra como “um filme claramente feito por um homem” — em outras palavras, destacando os elementos condenáveis do protagonista e de alguns coadjuvantes em relação às mulheres –, sem levar em consideração todo o conjunto da obra.

Mesmo que a fala seja de alguém que não conhece a proposta do diretor e tenha dificuldade de abstrair o sentido geral de um filme, como a conjunção de suas diversas partes, não se pode esquecer a máxima de que “representar não é endossar” e que a maneira como determinados problemas sociais ou de relações humanas são mostrados em uma produção artística são feitos dessa forma como motivo de crítica, de denúncia, de escárnio, de apontamento do quão ridícula é a coisa representada, exatamente como faz este filme. E o que torna tudo engraçado é que Lourdes não é apenas uma “mulher feia e inocente” que cai nas garras de Rafael. Ela é cúmplice de um assassinato e participante da ocultação e destruição de um corpo. Ou seja, nenhum dos dois lados é inocente. São duas pessoas horríveis que, a despeito de cometerem um ato hediondo, seguem sujeitas à ordem social que as rodeia e avançam com suas vidas, tentando realizar seus sonhos, seus desejos.

A comédia aqui é ácida, com doses cavalares de temáticas mórbidas e diversos preconceitos de gênero ou problemáticas relações sociais. E esse lado hilário do filme é conseguido justamente pelo constante absurdo atravessado por Rafael (destaque para as alucinações com o cadáver de Don Antonio, que me arrancaram ótimas risadas). Sua vida muda após o assassinato acidental de um rival gerente de loja (vivido por Luis Varela) e esses problemas estão no fato de que Lourdes, a cúmplice, passa a dominar a existência de Rafael, ameaçando-o com a polícia, abusando dele e usando esse poder para subir degraus na posição de trabalho. A virada do jogo, ao fim, é justamente o fato de que alguém totalmente fora dos padrões de beleza vigentes e com gostos um tanto absurdos (a paixão por palhaços tristes, por exemplo) consiga chegar ao posto de quem dá as cartas do momento, em termos de comportamento social. Rafael consegue, de fato, virar o jogo, inclusive trazendo algumas técnicas de Ensaio de Um Crime, de Buñuel, e Anatomia de um Crime, de Otto Preminger. Mas definitivamente não é ele quem sai vitorioso desse crime ferpeito.

Crime Ferpeito (Crimen Ferpecto) — Espanha, Itália, 2004
Direção: Álex de la Iglesia
Roteiro: Álex de la Iglesia, Jorge Guerricaechevarría
Elenco: Guillermo Toledo, Mónica Cervera, Luis Varela, Enrique Villén, Fernando Tejero, Javier Gutiérrez, Kira Miró, Rosario Pardo, Gracia Olayo, José Alias, Penélope Velasco, Montse Mostaza, Eduardo Gómez
Duração: 105 min.

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