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Crítica | Crime sem Saída

por Ritter Fan
857 views (a partir de agosto de 2020)

No mesmo ano em que viveu o Pantera Negra pela última vez, Chadwick Boseman encarnou um policial de Nova York em um filme que tem muitos ingredientes dos longas de ação oitentistas em um cenário mais sombrio e atual que coloca a violência policial como pano de fundo. Capitaneado por Brian Kirk, diretor de televisão que tenta seus primeiros passos no cinema com Crime sem Saída, a obra é uma sucessão de clichês de filmes do gênero policial, mas que consegue se segurar muito bem por jamais perder o ritmo e por contar com o carisma de Boseman que, logo de início, em que o vemos respondendo a perguntas duras da divisão de investigação interna de sua delegacia sobre bandidos que matara, convence-nos imediatamente do caráter ilibado de seu personagem.

E esse convencimento imediato é importante, porque já estabelece o cenário em que Andre Davis (Boseman) é inserido em seguida: nada menos do que oito policiais são mortos por dois marginais particularmente eficientes em uma sequência que nós é mostrada em detalhes de maneira a já levantar todas as bandeiras amarelas de que há algo de muito podre por trás do que a câmera revela. Com sua fama de matador de bandido, Davis é pareado com a detetive da divisão de narcóticos Frankie Burns (Sienna Miller) e recebe pressão do Capitão McKenna (J.K. Simmons), líder do 85º Distrito Policial, onde estão lotados os policiais mortos, para que os assassinos não vejam a luz do dia. O que segue, a partir daí, é uma veloz e furiosa caçada noite adentro em Manhattan cujas 21 pontes de acesso – daí o título em inglês – são bloqueadas por algumas horas pelo FBI de forma a manter os vilões encurralados lá dentro.

Para fazer tudo funcionar, o roteiro de Adam Mervis (em seu segundo longa) e Matthew Michael Carnahan (Guerra Mundial Z, O Preço da Verdade) não tem vergonha alguma em derramar clichês e conveniências narrativas a cada esquina que Davis e Burns viram atrás dos bandidos, começando pelas atitudes suspeitas de McKenna, passando pela repetição constante de que Davis só mata se houver justa causa e chegando às caracterizações dos caçados, um deles um assassino enlouquecido e particularmente bom em sua “arte” (Ray, vivido por Taylor Kitsch) e o outro o exato oposto, calmo, hesitante em matar ou mesmo apertar o gatilho e muito inteligente (Michael, vivido por Stephan James). E isso sem contar na forma como a investigação entra em overdrive quase que instantaneamente, com tudo caindo quase que magicamente no colo dos policiais que, ato contínuo, se teletransportam de um lado a outro da ilha.

O interessante é que Kirk, que parece ter plena consciência do material raso que tem, dirige seu longa como um episódio de série de TV, usando toda a sua experiência para espremer uma história quase super-heroica não muito diferente a um Duro de Matar da vida, só que sem os exageros pirotécnicos, em pouco mais de 90 minutos sem desperdiçar um segundo sequer com enrolações ou conversinhas para criar empatia. O que precisamos saber sobre Davis nós aprendemos na sequência de abertura que mencionei acima e o restante fica mesmo com Boseman carregando o filme nas costas, aliás, algo que o diretor também sabe tirar o máximo proveito, mantendo a câmera apontada no ator pelo maior tempo possível.

Mesmo com um subtexto que tenta condenar a violência policial, algo que por vezes até funciona, o filme não se mostra engajado o suficiente para levarmos essa história realmente em consideração para além de uma nota de rodapé. O longa está bem mais para um thriller policial padrão bem dirigido e com uma bonita fotografia noturna, cortesia de Paul Cameron (Colateral, Chamas da Vingança), sem maiores pretensões que não seja entregar alguns minutos divertidos de muito tiroteio – e há muito, não se enganem –  com um super-policial arquetípico imortal e incorruptível que já vimos tantas vezes antes e que, como também tantas vezes antes, funciona como o grande herói de ação que volta e meia queremos assistir sem esperar mais do que uma alta contagem de corpos e uma ou outra cena de ação surpreendente.

E é justamente isso que Crime sem Saída entrega: energia cinética audiovisual no formato de Chadwick Boseman como o policial que não só reconstrói mentalmente as cenas de crime à la Sherlock Holmes, como atira com a precisão de Martin Riggs, corre sem cansar como Popeye Doyle e tudo isso mantendo a retidão moral de Elliot Ness. Não dá para exigir muito mais do que isso de um filme desse tipo, não é mesmo?

Crime sem Saída (21 Bridges, EUA/China – 2019)
Direção: Brian Kirk
Roteiro: Adam Mervis, Matthew Michael Carnahan
Elenco: Chadwick Boseman, Christian Isaiah, Sienna Miller, J. K. Simmons, Stephan James, Taylor Kitsch, Keith David, Alexander Siddig, Louis Cancelmi, Victoria Cartagena, Gary Carr, Morocco Omari, Dale Pavinski, Adriane Lenox, Sarah Ellen Stephens, Jamie Neumann, Obi Abili, Andy Truschinski, Darren Lipari
Duração: 99 min.

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